Slam Interescolar é espaço para expressão de estudantes de 11 a 17 anos

Slam Interescolar é espaço para expressão de estudantes de 11 a 17 anos

Campeonato de poesia falada com mais de 300 escolas participantes chega à 9ª edição. Organizado pelo coletivo Slam da Guilhermina em São Paulo, evento conecta salas de aula com as ruas, ampliando saberes de crianças e adolescentes

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Por André Santos. Edição: Thiago Borges. Fotos: Sérgio Silva / Divulgação

“Das ruas para as escolas, das escolas para as ruas”. O primeiro Slam Interescolar surge com essa proposta idealizada por Cristina Assunção e Emerson Alcalde, responsáveis pelo Slam da Guilhermina, que desde 2012 movimenta a zona Leste paulistana com competições de poesia falada. Emerson, educador e poeta que chegou ao vice-campeonato do Mundial de Slam em 2013, se encantou com a disputa que viu em colégios de Paris e decidiu replicar a ideia por aqui também.

Inicialmente, o intuito do projeto era facilitar o acesso à leitura e literatura, além de estimular a produção de escrita. Na primeira edição, foram 4 escolas participantes. Na segunda, mais de 20. Neste ano, foram 330 escolas. O Slam Interescolar se consolidou e deu origem a um livro, que venceu o Prêmio Jabuti em 2021 na categoria “Fomento à Leitura”.

“Os objetivos foram se construindo. Hoje a gente pode ampliar isso para o protagonismo juvenil, não só na fala dos poetas (porque o slam é organizado para toda a escola e não somente para poetas), mas também na área da produção de cartazes, flyers, apresentação e imprensa jovem. O protagonismo surgiu como grande objetivo”, explica Cristina Adelina Assunção, 43, professora, atriz, apresentadora e uma das idealizadoras do projeto.

Outro ponto que Cristina destaca é que o espaço é importante para que adolescentes possam mostrar sua visão sobre o mundo e discorrer sobre questões diversas. A professora valoriza os vínculos que se criam a partir das poesias proclamadas e enxerga as trocas como importantes para a saúde mental tanto de estudantes quanto de professores.

“Uma coisa que o slam faz nas escolas é ser uma comunidade terapêutica. Quando as crianças soltam aquilo que estava nas gavetas, isso cria um ambiente para que elas e os professores se conheçam melhor. Há uma empatia geral”, conta Cristina.

Etapas

As inscrições para participar do Slam Interescolar aconteceram entre março e abril por meio do preenchimento de um formulário on-line disponibilizado pela organização do evento. Uma única exigência é feita: a realização de um Slam interno entre estudantes de cada uma das escolas participantes. A regra para quem se inscreve é que as poesias devem ser autorais e durar até 3 minutos.

“Hoje, a gente não precisa mais ir até as escolas, os alunos e professores nos procuram. O boca a boca e as redes sociais funcionam para gente. O Slam Interescolar cresce de forma geométrica, começamos com 4 escolas e na edição seguinte já tinham 20. Então, não vamos mais atrás das escolas, só abrimos o formulário e avisamos, e aí todos que se inscrevem”, aponta Cristina.

Entre junho e agosto, as escolas participantes passaram pela fase chamada “Ciclo Formativo”, quando receberam poetas que ficaram responsáveis por ministrar oficinas e palestras sobre slam para estudantes. Dividido em duas categorias – Ensino Fundamental e Ensino Médio, houve ainda uma fase classificatória em outubro, com seletivas on-line. As finais aconteceram no início de novembro, no Teatro Sérgio Cardoso (centro de São Paulo), com lotação máxima nos dois dias de evento.

Mundo fora da escola

Além do caráter formativo, o Slam Interescolar se destaca pelo forte apelo social e trabalho de conscientização da molecada. Ainda que as poesias não precisem necessariamente adotar um tom de protesto, geralmente os temas escolhidos passam por questões que ferem a existência dos poetas.

“É aí que, para muitos professores, é o ‘pulo do gato’. Eles aproveitam a batalha de poesias para introduzir temas importantes sobre todas as minorias, como a luta indígena, a luta LGBTQIAP+, o racismo estrutural e o patriarcado. Os professores utilizam o slam como uma ferramenta, e isso contribui para o aprendizado e faz com que os alunos foquem nessas questões”, conta Cristina.

Márcia Rodrigues de Oliveira, 56, professora de Língua Portuguesa no CEU Feitiço da Vila (zona Sul) e uma das escolas participantes, segue o raciocínio. Para ela, a realização de eventos como o Slam Interescolar é essencial, pois “mostra o mundo fora da escola, e não é só o da sala de aula”, trazendo vivências e percepções que o academicismo por si só não é capaz de entregar da mesma forma.

A professora valoriza a iniciativa e diz que “é importante porque proporciona aos alunos a oportunidade de descobrirem valores que às vezes na sala de aula ficam escondidos”.

Márcia conta que na escola onde atua existe um projeto chamado AEL – Academia Estudantil de Letras, onde a literatura é apresentada desde as obras clássicas às periféricas, mas que o trabalho de trazer estudantes para essa vivência prática é parte essencial do aprendizado.

“Dentro da sala, dá a impressão que é só aquele mundinho, e que a literatura é só uma cobrança. Mas eles perceberam que vai mais além disso, e isso serve de incentivo para os demais, tem toda uma torcida e um grupo se empenhando. Na nossa escola, o Slam com certeza vai virar uma cultura”, conta.

Ana Beatriz tem 15 anos, é aluna de Márcia no CEU Feitiço da Vila e foi a vice-campeã na categoria Ensino Fundamental, mesmo obtendo nota máxima durante as finais. A jovem conta que conheceu a poesia em 2019 após assistir a uma apresentação de Tawane Teodoro, e não esconde a admiração por poetas-formadores responsáveis pelo trabalho de capacitação dos estudantes, grupo do qual Tawane faz parte. Durante a competição, Ana discorreu com muita propriedade sobre questões inerentes ao racismo e patriarcado.

“Quando eu participei de um slam de poesias pela primeira vez eu estava muito nervosa, e hoje estar nesse palco representando a minha escola é muito importante. Com o tempo, adquiri confiança, que é um adicional. É questão de falar e sustentar a vivência que a gente tem”, diz Ana Beatriz.

A adolescente contou com o apoio massivo de colegas de escola, que produziram diversos materiais de apoio. Orgulhosa dos resultados, Ana ressalta a importância dos poetas-formadores em sua trajetória e deseja seguir pelo caminho que já começou a ser trilhado.

“Tenho muito amor pelo que eu faço. Pra mim é um gás estar vivendo tudo isso e sonhar que um dia posso chegar ao mesmo lugar de slammers que eu admiro”, conta Ana Beatriz.

Segundo a apresentadora, a competição é saudável e existe um apoio muito grande entre poetas, que se estimulam e também auxiliam a lidar com eventuais problemas ou frustrações. Além disso, também diz que o retorno dado por profissionais da educação é de que a iniciativa traz diversos aspectos positivos dentro do contexto escolar.

“Para os professores é a melhor coisa, porque eles vêem pérolas que estavam escondidas. Eles contam também sobre como isso movimenta a escola, junta mais todo mundo. Muitos voltam pra gente falando que é um projeto revolucionário, que tem impactado a vida de muita gente”, finaliza.

Assista às finais abaixo:

Ensino Fundamental 2

Ensino Médio

1 Comentário

  1. NELMA FABIANA DA SILVA SANTOS disse:

    Parabéns ao projeto 👏🏽, parabéns aos professores 👏🏽
    A poesia Marginal vem conseguindo ajudar muitas das nossas crianças.
    Gratidão 🙏🏽

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