Pé de Moleca: crescer também faz parte do jogo em projeto de futebol para meninas

Pé de Moleca: crescer também faz parte do jogo em projeto de futebol para meninas

Enquanto o País se mobiliza em torno da Copa do Mundo masculina, iniciativa no Campo Limpo une esporte, informação e acompanhamento psicossocial durante a puberdade 

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Tempo de leitura: 8 minutos

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Enquanto a bola corre em quadra, a conversa com as meninas não se limita a dribles e gols.

Entre um treino e outro, surgem dúvidas sobre menstruação, mudanças no corpo, autoestima, amizades e as descobertas que acompanham a chegada da puberdade.

É nesse encontro entre futebol, informação e acolhimento que acontece o Pé de Moleca, iniciativa voltada para meninas de 7 a 14 anos no Campo Limpo (Zona Sul de São Paulo).

Criado pela educadora física e treinadora de futebol Leide Souza, em parceria com a psicóloga Elânia Francisca, idealizadora do Espaço Puberê, o projeto nasceu para atender uma realidade observada por ambas: a querência por movimento e pertencimento das meninas durante a transição entre a infância e a adolescência.

“Eu gosto de lembrar que o projeto nasceu da inquietação de uma menina de 10 anos, que não se conformava por não ter um espaço onde pudesse jogar bola. Na época eu dava aula em uma escolinha particular em outro bairro, chamei essa aluna para uma aula experimental e dali tudo começou a se desenhar”, afirma Leide.

Leide (mais alta, à direita) orienta educandas do projeto (foto Carolina Rosa)

Leide (mais alta, à direita) orienta educandas do projeto (foto Carolina Rosa)

A visão sensível da educadora percebeu que, além do estigma com o esporte, existia uma questão social – e esse foi o motor para dar início ao Pé de Moleca. Leide viu que o território era cheio de meninas dispostas a jogar, mas a quebrada não oferecia isso a elas.

“O que mais me incomodava era perceber que as meninas gostavam de jogar futebol, assim como eu, que sempre amei desde menina, mas elas não encontravam espaços para iniciar. Em poucos casos das que tinham encontrado, muitas vezes elas se afastavam quando começavam as mudanças da puberdade.”, conta Leide.

Diálogo em campo

Percepções do corpo, cheiro, mudanças hormonais, pelos… Tudo mudava a todo instante.

A experiência profissional de Elânia somava na mesma direção. À frente do Espaço Puberê, iniciativa voltada ao acompanhamento psicológico de crianças e adolescentes, sua participação se fez necessária com dúvidas, inseguranças e transformações das meninas.

A partir dos saberes compartilhados entre as duas, nasceu a proposta de construir um espaço em que futebol e desenvolvimento humano jogam juntos.

O Espaço Puberê participou desde os primeiros passos da iniciativa. Foi por meio dele que chegaram as primeiras chuteiras utilizadas pelas meninas do projeto, garantindo condições de treino e fortalecendo uma ideia que começava a ganhar força.

No começo, o grupo começou com 10 meninas. Em dois anos, o time já passa de 25. Hoje Leide conta com o suporte da também educadora física Mayara Leite.

No Pé de Moleca, a prática esportiva se conecta às conversas sobre puberdade, sexualidade, autoestima, dignidade menstrual e saúde emocional.

As atividades são desenvolvidas de forma integrada aos treinos, respeitando a faixa etária das participantes e as experiências compartilhadas por elas.

“Aqui no Pé de Moleca, nós fazemos um acompanhamento psicológico com as meninas. Em alguns casos, elas são atendidas antes das aulas, de forma individual para facilitar a aproximação, principalmente quando há uma orientação dos responsáveis. É interessante porque temos a oportunidade de entender comportamentos que aparecem em grupo e assim, podemos trabalhar individual e coletivamente“, afirma Elânia.

Porta de entrada

O projeto ganhou ainda mais força com o apoio do programa Football for Better Health, que utiliza o esporte como ferramenta para a promoção da saúde.

O futebol é a porta de entrada. É através dele que elas criam vínculos, se sentem seguras e trazem questões que fazem parte do cotidiano delas“, explica Leide.

As leituras também ocupam espaço importante dentro da metodologia. O livro “Pé de Moleca” integra as atividades e ajuda a estimular conversas sobre diversidade dos corpos, respeito às diferenças e presença feminina no esporte.

As referências que usamos aqui são principalmente para valorizar a história do futebol feminino. Durante os encontros, as participantes conhecem atletas e pioneiras que abriram caminhos para as gerações atuais, ampliando o contato com narrativas que nem sempre chegam às salas de aula ou às transmissões esportivas.

Pé de Moleca, iniciativa de futebol para meninas no Campo Limpo, Zona Sul de São Paulo (foto Carolina Rosa)

Pé de Moleca, iniciativa de futebol para meninas no Campo Limpo, Zona Sul de São Paulo (foto Carolina Rosa)

Copa do Mundo 2026

Em um momento em que a Copa do Mundo de futebol masculino mobiliza atenções em todo o País, o projeto dedica e fortalece conversas voltadas à trajetória das mulheres no futebol.

E também incentiva o consumo do futebol feminino, esquentando as meninas para a Copa do Mundo feminina, que acontecerá ano que vem aqui no Brasil.

“Do masculino, elas já sabem. Elas chegam falando dos jogadores, dos jogos e dos resultados. Então, a gente busca apresentar e fortalecer outras histórias”, afirma Leide.

Espaço seguro

Aos nove anos, Lívia encontrou no Pé de Moleca um espaço para viver o futebol de forma diferente daquela que conhecia na escola.

Apaixonada pelo esporte, ela conta que as brincadeiras e partidas costumam ser marcadas por situações que a afastavam do jogo.

Nas atividades escolares, os meninos frequentemente ocupavam os espaços de decisão das partidas e, em alguns momentos, atitudes agressivas tornavam a experiência desconfortável.

“Todas as aulas de educação física na escola são legais e chatas ao mesmo tempo, porque os meninos têm mais chances de brincar de futebol e outros esportes. Muitas vezes, a gente tem que brincar de outra coisa. Quando o professor fala pra turma jogar junto, os meninos quase sempre são agressivos tanto na forma de jogar como na forma de falar”, conta Lívia.

O desabafo não era exclusivo dela. Em rodas de conversa promovidas pelo projeto, outras participantes relataram vivências semelhantes. Mas no Pé de Moleca, Lívia e suas colegas encontraram um ambiente divertido onde podem desenvolver suas habilidades, o amor pelo esporte e construir amizades sinceras.

Edição de texto: Thiago Borges

Pé de Moleca, iniciativa de futebol para meninas no Campo Limpo, Zona Sul de São Paulo (foto Carolina Rosa)

Pé de Moleca, iniciativa de futebol para meninas no Campo Limpo, Zona Sul de São Paulo (foto Carolina Rosa)

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