Ouça esse post
Por Daiany França e Carolina Moraes*. Foto: Pedro Salvador.
A Copa do Mundo de 2026 terminou, mas algumas conversas que ela provocou merecem continuar.
Durante o torneio, o Vozes do Esporte e a Periferia em Movimento se encontraram para olhar o futebol além dos estádios, dos resultados e dos interesses econômicos que cercaram a competição, reconhecendo que ele também se faz nas ruas, nas casas e nos encontros que, durante a Copa e para além dela, o transformam em uma experiência coletiva.
Em nossa coluna, falamos das diferentes maneiras de viver a Copa, das ruas que ganharam as cores das seleções e da relação histórica entre Brasil e Haiti. Também conhecemos experiências de projetos comunitários que demonstram como o futebol aproxima pessoas, enfrenta problemas e ganha diferentes significados na vida de quem o pratica e acompanha.
Como reiteramos em cada texto, entre o espetáculo dos grandes eventos e as manifestações populares, nosso interesse esteve nas histórias que nem sempre aparecem nas transmissões esportivas, mas que também fazem parte do futebol (esporte).
Sendo assim, após essa experiência, nos provocamos: por que esperar a próxima Copa do Mundo para conversar sobre o esporte nas e das periferias?
Foi dessa vontade de continuar que nasceu uma nova etapa da nossa parceria.
A partir de agora, o Vozes do Esporte passa a ter uma coluna mensal no Periferia em Movimento, dedicada a histórias, reflexões e debates sobre o esporte praticado nas periferias do Brasil.
Mas, antes de começarmos, vale apresentar melhor quem somos e por que decidimos seguir essa conversa por aqui.
Afinal, o que é o Vozes do Esporte?
O Vozes do Esporte é uma iniciativa do Instituto Mudar o Jogo, organização que atua para ampliar a visibilidade, o reconhecimento e o investimento no esporte comunitário no Brasil.
Nascemos de uma inquietação: o esporte é celebrado por suas conquistas, por sua capacidade de reunir pessoas e por sua importância na vida de tanta gente. Mas será que reconhecemos, com a mesma intensidade, quem faz tudo isso acontecer?
Pense em quantas pessoas trabalham para manter uma atividade esportiva funcionando. Há quem organize os treinos, mobilize famílias, cuide dos espaços, procure recursos, acolha participantes e encontre soluções para problemas que raramente aparecem nas notícias.
São educadoras, treinadores, lideranças comunitárias, pesquisadoras, atletas e tantas outras pessoas que ajudam a construir o esporte brasileiro todos os dias.

Pé de Moleca, iniciativa de futebol para meninas no Campo Limpo, Zona Sul de São Paulo (foto Carolina Rosa)
Foi para ampliar a circulação dessas histórias e perspectivas que criamos o Vozes do Esporte.
Começamos a dar espaço a essas conversas por meio de entrevistas em nosso podcast, com mulheres que lideram iniciativas esportivas.
Hoje, também produzimos conteúdos, compartilhamos conhecimentos e buscamos aproximar pessoas e organizações que acreditam no esporte como um direito e ferramenta de transformação social.
Não se trata apenas de contar histórias inspiradoras. Queremos discutir as condições em que essas experiências acontecem, os desafios enfrentados por quem as organiza e as decisões que influenciam o acesso ao esporte no país. Por exemplo: estamos acostumados a ouvir que o esporte salva vidas, mas quem salva o esporte?
Para nós, reconhecer quem faz o jogo também significa perguntar quem recebe apoio para continuar jogando.
O que nos aproxima?
Talvez a conexão mais evidente entre o Vozes do Esporte e a Periferia em Movimento esteja na maneira como enxergamos os territórios e as pessoas que vivem neles.
Criada em 2009, no Grajaú, Extremo Sul de São Paulo, a Periferia em Movimento construiu uma trajetória de jornalismo comprometido com as perspectivas de quem vive nas quebradas.
Um jornalismo que não trata as periferias apenas como cenário de problemas, mas como lugares de produção de conhecimento, cultura, participação e organização coletiva.
No Vozes do Esporte, essa preocupação também está presente.
Sabemos que muitas das experiências esportivas mais importantes para uma comunidade dificilmente chegam aos grandes meios de comunicação. E, quando aparecem, não é raro que sejam apresentadas apenas pela dificuldade que enfrentam ou pela história extraordinária de alguém que conseguiu uma medalha dourada.
Essas histórias também têm seu lugar. Mas há muito mais para conhecer.
Quem são as mulheres que organizam campeonatos nos bairros? Como uma comunidade decide utilizar seus espaços esportivos? O que aprendem as pessoas que participam dessas iniciativas? Quais dificuldades enfrentam as organizações que promovem atividades esportivas durante anos? Quais impactos positivos elas geram?
E, principalmente, quem costuma ser ouvido quando essas histórias são contadas?
É nesse encontro entre comunicação, esporte e território que nossa parceria ganha sentido.
Queremos contribuir para que mais pessoas conheçam essas experiências, mas também para que seus protagonistas participem das conversas sobre o futuro do esporte brasileiro.
O esporte comunitário que queremos conhecer
Quando falamos em esporte comunitário, não estamos falando de uma modalidade específica, nem apenas de projetos gratuitos voltados a crianças e adolescentes.
Estamos falando de experiências esportivas construídas pelas próprias pessoas das comunidades, muitas vezes inovadoras, que refletem os interesses, os saberes e as formas de organização de cada lugar.
Pode ser um campeonato de futebol de travinha organizado por jovens organizados em coletivo. Uma iniciativa que incentiva meninas a jogar bola. Um grupo periférico de corrida de rua. Ou um projeto que reúne diferentes gerações em torno da capoeira, do basquete e de outras práticas esportivas.
O que aproxima essas experiências não é somente o lugar onde acontecem, mas a forma como se mobilizam, se organizam e se motivam a seguir praticando esporte e atividade física.
E isso faz (muita) diferença.
Dilemas e questões do financiamento esportivo nas quebradas
Um torneio pode movimentar o bairro, gerar renda, tornar o entorno mais seguro, fortalecer vínculos e criar oportunidades de controle social.
Isso não significa que toda experiência esportiva seja, por si só, inclusiva ou capaz de transformar uma realidade social.
O esporte também reproduz desigualdades.
Meninas podem ser impedidas de jogar, pessoas negras podem enfrentar o racismo, pessoas LGBTQIAP+ podem sofrer discriminação, espaços públicos podem ser inacessíveis e decisões importantes podem continuar concentradas nas mãos de poucos.
Por isso, não basta celebrar a existência dessas iniciativas. É necessário debater como funcionam, quem participa, quem decide e quais condições precisam existir para que mais pessoas possam acessar o esporte.
O financiamento é uma dessas questões.
Enquanto acompanhamos contratos milionários no futebol profissional masculino, organizações comunitárias precisam enfrentar dificuldades para manter equipes, remunerar profissionais, conservar espaços e garantir a continuidade das atividades.
O problema não é a existência do esporte profissional, com sua importância econômica e cultural. É a distância entre o reconhecimento que damos ao esporte e os recursos destinados a assegurar sua prática como direito.
E essa distância também precisa entrar na conversa. E é uma discussão que também vamos provocar.
O caminho até 2027
Nos próximos meses, queremos circular por essas histórias e questões.
Falar de esporte, mas também de questões de gênero, étnico-racial, direito à cidade, territórios, financiamento, políticas públicas, participação e pertencimento.
Queremos conhecer experiências que já são realidade ou que estão nascendo agora, compreender seus desafios e abrir espaço para perguntas que nem sempre aparecem nas coberturas esportivas.
Considerando que temos um acontecimento importante pela frente.
Entre 24 de junho e 25 de julho de 2027, o Brasil receberá a Copa do Mundo Feminina de Futebol, a primeira realizada na América do Sul.
O torneio será uma oportunidade de acompanhar as melhores seleções do mundo, torcer, ocupar as ruas e celebrar o futebol de mulheres.
Também queremos aproveitar esse momento para olhar para o que acontece antes e depois dos jogos.
O que uma Copa do Mundo Feminina pode representar para as meninas que hoje procuram um lugar para jogar? Quais legados podem alcançar aos bairros, às escolas e aos projetos comunitários? Como garantir que a atenção dedicada ao futebol de mulheres não encolha quando a competição terminar?
Mais perguntas que também pretendemos acompanhar por aqui. Como pode perceber, temos muito para conversar.
E, para encerrar, te convidamos para construir esse espaço com a gente.
Conhece uma liderança que organiza atividades esportivas na sua quebrada, uma iniciativa que merece ser mais conhecida ou uma história que ajude a compreender o papel transformador do esporte? Escreva para querojogarjunto@mudarojogo.com.br. Queremos trazer essas experiências para esta coluna e as redes do Vozes do Esporte.
- Carolina Farias Moraes: Apresentadora do podcast Vozes do Esporte, coordenadora de projetos na Mais Impacto e vice-presidenta do Instituto Mudar o Jogo. Socióloga do esporte, doutoranda em Mudança Social e Participação Política pela EACH-USP. Possui mais de 20 anos de atuação na área social e esportiva. Acompanhe em @carol.fariasmoraes
- Daiany França Saldanha: Apresentadora do podcast Vozes do Esporte, diretora geral da Mais Impacto e vice-diretora do Instituto Mudar o Jogo. Pesquisadora de esporte e filantropia, é mestra e doutoranda em Mudança Social e Participação Política pela EACH-USP. Possui mais de 20 anos de atuação no terceiro setor e esporte. Acompanhe em @daiany.ong








