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Uma Copa espalhada por três países torna a experiência de acompanhar a própria seleção mais difícil. Nem todos conseguem viajar entre cidades, comprar ingressos ou entrar nos estádios, como o Estádio Azteca.
Ainda assim, os mexicanos encontraram outras maneiras de viver o torneio. Em cada praça ocupada, em cada telão e em cada fanfest, existe a sensação de que também se está jogando a Copa.
Uma Copa para além dos ingressos
Este texto se propõe a pensar a Copa do Mundo para além dos estádios. Afinal, para a maior parte das pessoas – inclusive nós – estar nas arquibancadas hoje não tem sido uma possibilidade concreta.
Em 1994, quando os Estados Unidos receberam a Copa pela primeira vez, os ingressos mais baratos para jogos da primeira fase começavam em US$ 25, segundo reportagem do Los Angeles Times publicada à época.
Depois de 32 anos, o Mundial retorna ao país em outro cenário: os bilhetes mais disputados chegam a centenas de dólares, enquanto os pacotes de hospitalidade alcançam milhares.
Entre uma Copa e outra, não mudaram apenas os preços. Mudou também quem consegue estar nas arquibancadas.
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Nas últimas décadas, a FIFA deixou de administrar a Copa do Mundo apenas como uma competição esportiva e passou a tratá-la também como um produto global de entretenimento.
O crescimento das receitas com patrocínios, programas de hospitalidade e direitos comerciais transformou o Mundial em um dos eventos mais valiosos do planeta.
Para a Copa de 2026, a FIFA ampliou o uso da chamada precificação dinâmica, sistema semelhante ao utilizado por companhias aéreas, hotéis e plataformas de shows. Na prática, o valor dos ingressos varia de acordo com a demanda: quanto maior o interesse por uma partida, maior tende a ser o preço cobrado.
O ingresso deixa de ter um valor fixo e passa a responder à lógica do mercado. A consequência é notória: enquanto a Copa do Mundo mobiliza multidões nas ruas, participar nos estádios se torna cada vez mais exclusivo.
A cidade também entrou em campo
No México, a Copa parece ter sido pensada para acontecer muito além do Estádio Azteca. Duas propostas chamam atenção: a realização de 18 festivais gratuitos distribuídos por suas regiões e o Corredor Cultural, uma programação que conecta museus, estações de metrô, praças e espaços culturais pela cidade.

Nas estações de metrô, painéis e instalações lembram a relação histórica entre o México e o futebol. Nos museus, exposições temporárias discutem memória, identidade e o papel do esporte na vida cotidiana. A exposição Juego Limpio, no Museu Memoria y Tolerancia, é um exemplo dessa tentativa de pensar o futebol para além das quatro linhas.
Ao mesmo tempo, dezoito espaços públicos gratuitos foram preparados para receber transmissões dos jogos, atividades culturais e encontros entre torcedores. Em vez de concentrar a experiência apenas nos arredores do Azteca e nas áreas turísticas, a proposta é fazer com que diferentes bairros também se sintam parte da Copa.
A maior parte das pessoas que vive uma Copa do Mundo nunca pisou em um estádio. Ainda assim, ela produz memórias, encontra pessoas, ocupa as ruas e transforma a cidade em um grande lugar de encontro. É um espetáculo.
O que ainda celebramos
Agora encerramos nossa estadia por aqui. E podemos afirmar: é possível viver uma Copa do Mundo para além dos estádios.
Tivemos a sorte de acompanhar uma seleção mexicana avançando e sendo carregada nos braços por sua torcida. E, curiosamente, nossa despedida coincidiu com o fim desse sonho. No último domingo (5/7), a Inglaterra venceu por 3 a 2 e eliminou o México em um jogo emocionante. As análises táticas já estão por aí, não é nossa intenção aqui.
No mesmo dia, assistimos a duas eliminações muito diferentes.
A do Brasil, marcada pela frustração de uma seleção que se imaginava algo diferente. E a do México, seguida por uma torcida que permaneceu nas ruas, vibrando sua seleção e, em certa medida, continuou a festa.
O México talvez tenha nos oferecido uma Copa transgressora, para além do que a FIFA espera entregar para os torcedores. Vivemos uma Copa cultural e coletiva.
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Em um momento em que os megaeventos esportivos parecem cada vez mais controlados e distantes dos seus, a Cidade do México nos lembrou que o futebol continua sendo uma experiência produzida também por quem deseja vivê-lo.
Porque o futebol não existe sem suas torcedoras e torcedores:
As experiências do torcer não cabem apenas nos estádios. Elas se espalham pelos territórios, criam laços entre pessoas e produzem memórias compartilhadas. Em um futebol cada vez mais mercantilizado, a Cidade do México nos lembrou que a Copa do Mundo também pode ser uma experiência de encontro, pertencimento e vida coletiva.
Talvez seja isso que uma Copa latina ainda tenha a ensinar ao mundo: que o futebol pode continuar sendo um espaço de encontro, de memória e de comunidade. E que, por algumas semanas, uma cidade e um país inteiro ainda é capaz de se reconhecer em suas ruas, em suas cores e em seus sonhos compartilhados.
Quer saber mais sobre como mobilizar seu território durante a Copa? Siga @periferiaemmovimento e @vozesdoesporte.co ou fale com a gente: vozesdoesporte@mudarojogo.com.br | (11) 97287-6545.
Sobre as autoras
- Carolina Farias Moraes: Apresentadora do podcast Vozes do Esporte, coordenadora de projetos na Mais Impacto e vice-presidenta do Instituto Mudar o Jogo. Socióloga do esporte, doutoranda em Mudança Social e Participação Política pela EACH-USP. Possui mais de 20 anos de atuação na área social e esportiva. Acompanhe em @carol.fariasmoraes
- Daiany França Saldanha: Apresentadora do podcast Vozes do Esporte, diretora geral da Mais Impacto e vice-diretora do Instituto Mudar o Jogo. Pesquisadora de esporte e filantropia, é mestra e doutoranda em Mudança Social e Participação Política pela EACH-USP. Possui mais de 20 anos de atuação no terceiro setor e esporte. Acompanhe em @daiany.ong









