É possível ignorar uma Copa do Mundo?

OPINIÃO

É possível ignorar uma Copa do Mundo?

Por: Carolina Farias Moraes e Daiany França Saldanha, do podcast Vozes do Esporte*

Com 48 seleções, 104 jogos e três países-sede, a Copa do Mundo de 2026 será a maior da história. Apresentadoras do podcast Vozes do Esporte abordam fatores socioculturais que envolvem evento esportivo

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Tempo de leitura: 7 minutos

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É possível ignorar uma Copa do Mundo? Certamente sim, mas já adianto: não será tarefa fácil.

A maior Copa do Mundo de todos os tempos, assim anunciada pela FIFA, será pela primeira vez realizada em três países diferentes: Estados Unidos, México e Canadá.

A ideia de responder a essa pergunta nasce de uma contradição que nos acompanha sempre que uma Copa do Mundo se aproxima: entre o espetáculo bilionário e as mobilizações sociais e culturais.

A Copa do Mundo que encarece seus ingressos, que dificulta a presença de seus torcedores e torcedoras, que restringe seleções, que nega visto de árbitro da Somália… Também é aquela que resiste e insiste em seus encontros.

Por isso, a proposta é olhar para o outro lado. Existe algo a ser celebrado nesta Copa do Mundo da FIFA 2026™?

A gente não faz festa porque a vida é boa, a gente faz festa porque não é!

O professor Luiz Antônio Simas nos convida a olhar para o lado simbólico do futebol, sobre  como lidamos com a expectativa, com nossas frustrações, derrotas e com algumas vitórias.

Poder celebrar junto, marcar aquele encontro para assistir aos jogos, reunir pessoas conhecidas ou não, criar memórias que dificilmente viveríamos sozinhos.

Por isso, o futebol acaba funcionando como uma espécie de espelho da vida em sociedade. Quando olhamos para ele com atenção, enxergamos muito mais do que uma partida. Enxergamos a nós mesmas, nossas comunidades e as formas como escolhemos viver coletivamente essa festa.

É a partir de onde vivemos, que temos a experiência de viver o futebol.

Quando uma Copa se aproxima, pintamos as ruas, enfeitamos, celebramos e nos sentimos parte daquele território e daquela comunidade.

Milton Santos, geógrafo baiano, destaca a importância do território como vida, um espaço de troca, memória e identidade. A Copa do Mundo, portanto, é vivida, por vezes, diante do território em que cada um vive a sua vida.

Criança pintando rua no Jardim da União, Extremo Sul de São Paulo. Comunidade conta que, pela primeira vez, as ruas da ocupação puderam ser decoradas (foto Pedro Salvador)

A Copa que insistimos em dizer que é nossa!

Com apenas 150 mil habitantes, Curaçao se tornou o menor país do mundo a se classificar para uma Copa do Mundo. “Somos pequenos, mas temos corações grandes“, disse um torcedor emocionado. Podemos imaginar a emoção de todo um país?

A outra curiosidade foi a disputa entre a torcida brasileira e argentina para seguir jogadores com o menor número de seguidores. Foi assim que Kelvin Felida, jogador de Curaçao, a pedido da jornalista Domitila Becker hoje tem mais bandeiras do Brasil em seus comentários do que os próprios jogadores brasileiros.

Ônibus da seleção de Curação. (Reprodução Redes Sociais)

Ônibus da seleção de Curação. (Reprodução Redes Sociais)

O aumento da participação de mulheres

O interesse pela Copa também ajuda a entender sua dimensão social.

Pesquisa recente apontou que o interesse das mulheres brasileiras pela Copa do Mundo de 2026 praticamente se iguala ao dos homens. O dado reforça algo que muitas de nós já percebemos no cotidiano: o futebol deixou há muito tempo de ser um espaço exclusivamente masculino.

A Copa mobiliza famílias, grupos de amigas, comunidades e diferentes gerações, tornando-se uma experiência compartilhada muito além dos 90 minutos de jogo.

Existe legado? 

No Canadá, uma das iniciativas mais interessantes é a estratégia de legado construída pela cidade de Toronto. Entre as ações previstas estão programas comunitários de futebol, formação de treinadores e árbitros, atividades esportivas para crianças e jovens e investimentos para ampliar o acesso ao esporte em comunidades historicamente menos atendidas.

Já no México, entre as iniciativas anunciadas estão uma exposição que conecta as Copas de 1970, 1986 e 2026 a partir de histórias e objetos dos próprios moradores, além da criação de 18 espaços públicos gratuitos para transmissão dos jogos, acompanhados de atividades culturais, criando um grande Corredor Cultural.

A proposta busca levar a experiência da Copa para além do Estádio Azteca e das áreas turísticas, fortalecendo o sentimento de pertencimento nos territórios e comunidades. (Do México, o Vozes do Esporte acompanhará e dará visibilidade a muitas dessas experiências.)

Já nos Estados Unidos, uma das experiências mais interessantes vem de Los Angeles. A cidade lançou um programa de legado que apoiará 26 organizações comunitárias que utilizam o futebol como fortalecimento comunitário e desenvolvimento de crianças e jovens.

Em vez de concentrar os investimentos apenas nos estádios e na infraestrutura, a iniciativa aposta em organizações que já atuam nos territórios e conhecem os desafios locais.

Mulher com brinco do Brasil. Jardim Gaivotas, Grajaú.

Talvez, a gente só insista em manter viva alguma centelha de alegria

Então, é possível ignorar uma Copa do Mundo? Talvez sim. Mas nós queremos?

Talvez seja esse o lugar da Copa em 2026. Não o das certezas, mas o das contradições. Entre os interesses globais e as histórias locais. Entre os negócios bilionários e a rua que ganha cores. Entre aquilo que nos afasta e aquilo que ainda nos reúne.

Porque, no fim das contas, nós não fazemos festa porque a vida é boa. Fazemos festa porque, mesmo diante dos desafios, seguimos encontrando razões para ocupar as ruas, construir memórias e sonhar em comunidade.

Quer saber mais sobre como mobilizar seu território durante a Copa? Siga @periferiaemmovimento e @vozesdoesporte.co ou fale com a gente: vozesdoesporte@mudarojogo.com.br | (11) 97287-6545.

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