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É possível ignorar uma Copa do Mundo? Certamente sim, mas já adianto: não será tarefa fácil.
A maior Copa do Mundo de todos os tempos, assim anunciada pela FIFA, será pela primeira vez realizada em três países diferentes: Estados Unidos, México e Canadá.
A ideia de responder a essa pergunta nasce de uma contradição que nos acompanha sempre que uma Copa do Mundo se aproxima: entre o espetáculo bilionário e as mobilizações sociais e culturais.
A Copa do Mundo que encarece seus ingressos, que dificulta a presença de seus torcedores e torcedoras, que restringe seleções, que nega visto de árbitro da Somália… Também é aquela que resiste e insiste em seus encontros.
Por isso, a proposta é olhar para o outro lado. Existe algo a ser celebrado nesta Copa do Mundo da FIFA 2026™?
A gente não faz festa porque a vida é boa, a gente faz festa porque não é!
O professor Luiz Antônio Simas nos convida a olhar para o lado simbólico do futebol, sobre como lidamos com a expectativa, com nossas frustrações, derrotas e com algumas vitórias.
Poder celebrar junto, marcar aquele encontro para assistir aos jogos, reunir pessoas conhecidas ou não, criar memórias que dificilmente viveríamos sozinhos.
Por isso, o futebol acaba funcionando como uma espécie de espelho da vida em sociedade. Quando olhamos para ele com atenção, enxergamos muito mais do que uma partida. Enxergamos a nós mesmas, nossas comunidades e as formas como escolhemos viver coletivamente essa festa.
É a partir de onde vivemos, que temos a experiência de viver o futebol.
Quando uma Copa se aproxima, pintamos as ruas, enfeitamos, celebramos e nos sentimos parte daquele território e daquela comunidade.
Milton Santos, geógrafo baiano, destaca a importância do território como vida, um espaço de troca, memória e identidade. A Copa do Mundo, portanto, é vivida, por vezes, diante do território em que cada um vive a sua vida.

Criança pintando rua no Jardim da União, Extremo Sul de São Paulo. Comunidade conta que, pela primeira vez, as ruas da ocupação puderam ser decoradas (foto Pedro Salvador)
A Copa que insistimos em dizer que é nossa!
Com apenas 150 mil habitantes, Curaçao se tornou o menor país do mundo a se classificar para uma Copa do Mundo. “Somos pequenos, mas temos corações grandes“, disse um torcedor emocionado. Podemos imaginar a emoção de todo um país?
A outra curiosidade foi a disputa entre a torcida brasileira e argentina para seguir jogadores com o menor número de seguidores. Foi assim que Kelvin Felida, jogador de Curaçao, a pedido da jornalista Domitila Becker hoje tem mais bandeiras do Brasil em seus comentários do que os próprios jogadores brasileiros.
O aumento da participação de mulheres
O interesse pela Copa também ajuda a entender sua dimensão social.
Pesquisa recente apontou que o interesse das mulheres brasileiras pela Copa do Mundo de 2026 praticamente se iguala ao dos homens. O dado reforça algo que muitas de nós já percebemos no cotidiano: o futebol deixou há muito tempo de ser um espaço exclusivamente masculino.
A Copa mobiliza famílias, grupos de amigas, comunidades e diferentes gerações, tornando-se uma experiência compartilhada muito além dos 90 minutos de jogo.
Existe legado?
No Canadá, uma das iniciativas mais interessantes é a estratégia de legado construída pela cidade de Toronto. Entre as ações previstas estão programas comunitários de futebol, formação de treinadores e árbitros, atividades esportivas para crianças e jovens e investimentos para ampliar o acesso ao esporte em comunidades historicamente menos atendidas.
Já no México, entre as iniciativas anunciadas estão uma exposição que conecta as Copas de 1970, 1986 e 2026 a partir de histórias e objetos dos próprios moradores, além da criação de 18 espaços públicos gratuitos para transmissão dos jogos, acompanhados de atividades culturais, criando um grande Corredor Cultural.
A proposta busca levar a experiência da Copa para além do Estádio Azteca e das áreas turísticas, fortalecendo o sentimento de pertencimento nos territórios e comunidades. (Do México, o Vozes do Esporte acompanhará e dará visibilidade a muitas dessas experiências.)
Já nos Estados Unidos, uma das experiências mais interessantes vem de Los Angeles. A cidade lançou um programa de legado que apoiará 26 organizações comunitárias que utilizam o futebol como fortalecimento comunitário e desenvolvimento de crianças e jovens.
Em vez de concentrar os investimentos apenas nos estádios e na infraestrutura, a iniciativa aposta em organizações que já atuam nos territórios e conhecem os desafios locais.
Talvez, a gente só insista em manter viva alguma centelha de alegria
Então, é possível ignorar uma Copa do Mundo? Talvez sim. Mas nós queremos?
Talvez seja esse o lugar da Copa em 2026. Não o das certezas, mas o das contradições. Entre os interesses globais e as histórias locais. Entre os negócios bilionários e a rua que ganha cores. Entre aquilo que nos afasta e aquilo que ainda nos reúne.
Porque, no fim das contas, nós não fazemos festa porque a vida é boa. Fazemos festa porque, mesmo diante dos desafios, seguimos encontrando razões para ocupar as ruas, construir memórias e sonhar em comunidade.
Quer saber mais sobre como mobilizar seu território durante a Copa? Siga @periferiaemmovimento e @vozesdoesporte.co ou fale com a gente: vozesdoesporte@mudarojogo.com.br | (11) 97287-6545.
Sobre as autoras
- Carolina Farias Moraes: Apresentadora do podcast Vozes do Esporte, coordenadora de projetos na Mais Impacto e vice-presidenta do Instituto Mudar o Jogo. Socióloga do esporte, doutoranda em Mudança Social e Participação Política pela EACH-USP. Possui mais de 20 anos de atuação na área social e esportiva. Acompanhe em @carol.fariasmoraes
- Daiany França Saldanha: Apresentadora do podcast Vozes do Esporte, diretora geral da Mais Impacto e vice-diretora do Instituto Mudar o Jogo. Pesquisadora de esporte e filantropia, é mestra e doutoranda em Mudança Social e Participação Política pela EACH-USP. Possui mais de 20 anos de atuação no terceiro setor e esporte. Acompanhe em @daiany.ong






