Profissionais de beleza das periferias buscam equilíbrio pessoal enquanto resgatam autoestima alheia

Profissionais de beleza das periferias buscam equilíbrio pessoal enquanto resgatam autoestima alheia

Paula Sant'Ana

Paula Sant'Ana

Com um salão a cada esquina e outras áreas de trabalho, o bilionário mercado brasileiro da beleza gera emprego e renda pra muita gente - que também vive o processo de autoconhecimento

Reportagem de Paula Sant’Ana. Fotos: Pedro Ariel Salvador e Vitori Jumapili. Edição de texto: Thiago Borges. Artes: Rafael Cristiano. Agradecimentos especiais: Carol Ferreira, Jackie Siqueira, Milena Nascimento, Neguinho de Favela e Sara Lidiane

Mariana Conceição faz a cabeça das pessoas. Literalmente. A jovem de 21 anos é hair stylist e faz tranças e penteados diversos. Sempre que uma cliente busca seus serviços, ela pesquisa possibilidades a partir do pedido dela. Mas tem um limite: a bagagem de quem está sentada na cadeira.

“É um processo muito individual”, explica Mariana. “Eu uso possibilidades que deixam a pessoa confortável, sabe? Porque acho que cada pessoa se sente confortável da forma dela. O desconforto vem muito de vários traumas, de várias coisas que aconteceram”, completa ela. Afinal, Mariana está aqui para alavancar a autoestima de quem a procura e realçar a beleza que todo mundo tem.

Não é por acaso que a cada esquina da quebrada existe um salão de beleza. Muita gente está nessa busca – e isso se reflete em números. Segundo o Euromonitor International, o Brasil é o quarto maior mercado de beleza e cuidados pessoais do mundo, contemplando produtos para cabelo, pele, perfumes e higiene bucal. Dados de 2018 apontam que o varejo brasileiro fatura US$ 30 bilhões com esses itens, atrás apenas de Estados Unidos, China e Japão.

Para quem está na ponta dessa cadeia, também há um caminho de construção dessa identidade. Moradora do Grajaú (Extremo Sul de São Paulo), Mariana quer ser tudo aquilo que a arte permitir. Se inseriu no meio cultural com apoio da mãe que, segundo ela, “mesmo não participando disso, sempre quis que eu permanecesse em um lugar que fosse realmente me nutrir de alguma forma”.

Mariana aprendeu violino, diversas categorias de dança, mas não se encontrava nisso. Então, começou a se questionar qual era sua vibe ideal. Fez produção audiovisual no Instituto Criar e, quando o curso acabou, trabalhou no setor administrativo. Até recentemente, atuava como jovem monitora cultural pela Prefeitura de São Paulo.

Ela já cortava o próprio cabelo, assim como o da mãe, mas ainda não via isso como profissão. Paralelamente, foi descobrindo as tranças e começou a estudar sobre isso. Ou seja, os trampos com beleza se tornaram uma segunda renda para a jovem, que sonha em crescer a cada dia.

 

“Às vezes, na sociedade, [a gente] só vale a pena quando mostra que estudou. E isso é uma merda”, diz Mariana, que também faz maquiagem.

O ramo da beleza passou a fazer parte do cotidiano e, à medida em que grandes trabalhos foram aparecendo – com a Vogue, Absolut, entre outras marcas -, a paixão aumentou e deu espaço a um novo desejo: o visagismo. “Visagismo é tudo aquilo que você vê. Então, tem a estética em tudo que você vê, o que eu represento e tal. Tudo, até sobre móveis, como tudo é construído”, explica

Trabalhar com beleza não é uma tarefa fácil. Gostos pessoais, inseguranças e expectativas podem chegar junto à “bagagem” de uma cliente. Assim como diversas áreas, a beleza e todo esse rolê de produção não é apenas flores.

Imagem nas redes

A necessidade de estar bem e com a autoestima em dia pode turbinar o consumo. Segundo o Data Nubank, o gasto médio com salões de beleza foi de R$ 90,40 reais por mês em 2020, primeiro ano da pandemia.

Jackie Siqueira, 34, é publicitária, consultora e maquiadora profissional. Mas nem ela escapou da turbulência de emoções dos últimos dois anos.

“O pessoal fala ‘ai, o mercado da beleza não para, é um mercado que cresce muito’. Realmente. Eu mesma consumi muito, comprei muito durante a pandemia. Aí virei a louca do skin care”, comenta ela. “E já era uma coisa da minha rotina, mas de certa forma eu fiquei num surto de consumo tão grande por conta de estar enclausurada, sem trabalho…”, continua.

Se por um lado o consumo pode suprir uma lacuna, não significa alcançar total satisfação. Moradora do Jardim Iporanga (zona Sul de São Paulo), Jackie teve a carreira moldada por questões pessoais. Ela se entendeu como mulher negra somente aos 20 anos. Fez Publicidade e Propaganda, mas se sentia frustrada com a linguagem do “compre, venda, seja”.

Os empregos frustrantes e o entendimento da falta de representatividade negra fizeram com ela se aventurasse – e o empreendedorismo a atraiu. Foram 5 anos nessa empreitada. Depois, tornou-se influenciadora nas mídias sociais, onde passou a dar consultoria sobre maquiagem. Porém, nem sempre o relacionamento nas redes é positivo.

“Eu fiquei com sociofobia, precisava da rede social para trabalhar, mas eu não queria entrar na rede social. E isso me fez muito mal na pandemia. Tive algumas questões emocionais que desencadearam questões de pele e eu ficava assim: ‘ai, vou fazer um vídeo, quem é que vai contratar os serviços de uma maquiadora com a cara toda cheia de acne?”, desabafa.

Existe a necessidade de ser responsável com o que se posta e se comunica, ainda mais quando a pauta é beleza e autoestima. “Como eu tinha blog, sempre tive essa responsabilidade de que eu vou usar e vou dividir e vou falar as coisas realmente como eu sinto que é a verdade se eu gosto ou não. Se a marca vai gostar da minha opinião, o problema dela”, diz.

As histórias são distintas, mas existem pontos em comum. Enquanto Mariana entrou no ramo mais jovem, por gosto e simpatia, Jackie precisou atravessar processos mais longos e adversos, mas ambas são mulheres negras que buscam trabalhar o que aprenderam, aprendem e ainda vão aprender para o lugar de onde vieram: a periferia.

Esta é a segunda reportagem da série “Beleza pra que te quero?”, que aborda a construção da ideia de beleza e da autoestima entre pessoas das periferias de São Paulo. A série é produzida pela Periferia em Movimento no âmbito Repórter da Quebrada: uma morada jornalística de experimentações. O programa de residência em jornalismo de quebrada é realizado com apoio do Fomento à Cultura da Periferia da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

Colaboração

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