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Em ano de COP 30, as reivindicações por ações capazes de mitigar os efeitos da crise climática ganharam ainda mais espaço nas periferias do país. Mesmo assim, saúde, cultura e educação continuaram a pautar os debates de 2025, evidenciando a persistente desigualdade no acesso a direitos básicos.
Clima
Pela primeira vez, a COP (Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima) foi realizada na Amazônia, região estratégica para o equilíbrio climático global. Sediada em Belém (PA), a conferência avançou nos debates sobre participação social e no reconhecimento dos povos indígenas, mas também gerou frustrações ao não alcançar um consenso sobre um roteiro claro para a eliminação dos combustíveis fósseis.
Entre os avanços, destacou-se a declaração assinada por 11 países sobre racismo ambiental na cúpula de líderes, um documento fundamental para reconhecer quem são as populações mais vulnerabilizadas pela crise climática.
As periferias brasileiras estão na linha de frente do enfrentamento à crise, mas continuam à margem do acesso aos recursos destinados ao setor. Essa realidade foi evidenciada no relatório “Diretrizes para a Filantropia Climática”, desenvolvido pela Iniciativa PIPA e apresentado na COP30.
Segundo o levantamento, 82,3% das organizações periféricas desenvolvem ações relacionadas à agenda climática, porém apenas 15,9% conseguem acessar recursos específicos para essa finalidade.
Em São Paulo, crianças e adolescentes das periferias também participaram do debate climático, apresentando as próprias reivindicações e propostas para enfrentar a crise.
Do Extremo Norte ao Extremo Sul da capital paulista, iniciativas periféricas independentes têm criado espaços de desenvolvimento de tecnologias sustentáveis. Enquanto as políticas públicas chegam a passos lentos às quebradas, essas organizações resistem à crise climática e constroem, na prática, presentes e futuros possíveis de diversas maneiras.
Iniciativas periféricas querem “adiar o fim do mundo” com educação ambiental
Enquanto somavam os prejuízos das enchentes, agentes culturais mobilizaram comunidades, cobraram poder público e denunciaram descaso por meio da arte.
Educação
Discursos que desqualificam e ofendem indivíduos têm se tornado cada vez mais frequentes nas redes sociais e já chegam às escolas. Para mitigar esses impactos, o Ministério da Educação colocou em vigor, no início de 2025, uma lei federal que regulamenta o uso de celulares nas instituições de ensino.
Mesmo assim, professores que atuam em regiões periféricas relatam uma preocupação crescente com manifestações discriminatórias entre os alunos.
Embora práticas pedagógicas e iniciativas das instituições de ensino busquem enfrentar esse cenário, cresceu a reivindicação pela regulamentação da internet para evitar que o processo de radicalização se intensifique ainda mais.
‘Aluno desenhou suástica na sala’: discursos de ódio se tornam desafio nas escolas da rede pública
Na contramão desse processo de radicalização, a EJA (Educação de Jovens e Adultos) tem se consolidado nas periferias como um espaço de acolhimento para grupos vulneráveis, incluindo imigrantes e mulheres vítimas de violência doméstica ou expostas a outras formas de vulnerabilidade social.
No Extremo da Zona Sul de São Paulo, o movimento “Por uma Universidade Pública no Grajaú” reivindica o direito ao conhecimento, à permanência no território e à transformação estrutural das periferias. E já há conquistas a celebrar: a instalação de um campus do Instituto Federal de São Paulo no Jardim Ângela, também na zona Sul, previsto para ser inaugurado em 2026.
Cultura
A cultura também foi impactada por cortes e desmontes, especialmente nos programas responsáveis pela formação de artistas nas periferias de São Paulo. Agentes culturais acusaram a gestão Ricardo Nunes (MDB) de promover mudanças nos processos de contratação e de precarizar as condições de trabalho nos programas Vocacional, PIÁ e PIAPI.
Ainda assim, algumas iniciativas seguiram resistindo e atuando nas periferias independentemente desse cenário.
Em meio aos desmontes na cultura, festival leva arte a crianças na periferia da Zona Leste de SP
As religiões de matriz africana, mais que espaços de prática da fé, se estabeleceram nas quebradas também como lugar de encontro com a cultura, com o acolhimento e a assistência social. Este ano, a Periferia em Movimento contou a história de duas yalorixás que dão continuidade a essa tradição.
Ainda assim, sacerdotes de matriz africana com terreiros baseados em regiões periféricas relataram dificuldades na distribuição de doces para as crianças durante as festividades de Ibeji e Cosme e Damião.
Já na contramão da queda no número de pessoas leitoras no Brasil, uma iniciativa popular no Jardim Ingá, na zona Sul de São Paulo, ofereceu acesso a livros 24 horas por dia por meio da Geloteca Comunitária.
O funk e o rap são gêneros musicais intrinsecamente ligados a territórios periféricos. Em meio à criminalização e à ascensão de discursos individualistas, manifestações que denunciam racismo, genocídio e a violência do Estado resistiram nas margens, longe das grandes vitrines.
“A arte da periferia nunca pediu permissão”: Onde está o radicalismo no funk e no rap hoje?
Saúde
O impacto e as consequências das bets ganharam ainda mais destaque em 2025, levantando discussões profundas sobre saúde pública, regulação e vulnerabilidade social.
Especialistas ouvidos pela Periferia em Movimento foram categóricos ao afirmar: a rede pública de saúde ainda não está preparada para enfrentar o problema, deixando as populações periféricas expostas não apenas aos impactos financeiros, mas também aos danos à saúde mental.
Exercício físico e literatura fortaleceram a saúde do corpo e da mente na periferia paulistana. Moradoras da zona Sul teceram redes de cuidado para envelhecer de forma ativa e coletiva.
Neste ano, mostramos que, no Brasil, 8 em cada 10 pessoas com 60 anos ou mais vivem com algum grau de demência – em sua maioria, Alzheimer. Também relatamos os desafios enfrentados pelas famílias das periferias, que lidam com o diagnóstico em meio a limitações econômicas e dependem do serviço público de saúde para garantir bem-estar e dignidade aos idosos.
Alzheimer na quebrada: Famílias periféricas falam sobre os desafios do cuidado e do envelhecimento
O câncer de mama é um dos tipos mais incidentes entre a população brasileira, mas pouco se discute sobre como ele afeta pessoas trans e travestis. Abordamos os desafios enfrentados por essa população e os principais sinais de alerta que podem contribuir para um diagnóstico precoce.
Como é o rastreamento de câncer de mama para pessoas trans? Entenda os riscos e sinais de atenção


