‘Os problemas do Brasil precisam começar a ser resolvidos a partir dos territórios periféricos’, defende Secretário de Periferias do governo Lula

‘Os problemas do Brasil precisam começar a ser resolvidos a partir dos territórios periféricos’, defende Secretário de Periferias do governo Lula

Guilherme Simões faz balanço de três anos de trabalho, lista desafios da pasta e prevê periferias e favelas no centro do debate das eleições de 2026

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Guilherme Simões./Crédito: Leandro Vaz.

Na última semana de novembro, Guilherme Simões iniciou o programa Periferia Viva em uma quebrada de Santo André, na região metropolitana de São Paulo. Dois dias depois, esteve com o presidente Lula (PT) para anunciar investimentos para recuperação dos danos causados pelas chuvas no Rio Grande do Sul.

A atuação de Simões à frente da Secretaria Nacional de Periferias (SNP), ligada ao Ministério das Cidades do governo federal, resume-se a três tópicos principais: obras, adaptação climática e articulação com grupos periféricos.

Criada no início do mandato de Lula, a pasta nasceu com um orçamento anual de R$ 500 milhões e deve chegar a 2026 controlando cerca de R$ 15 bilhões distribuídos nos quatro anos. Mas o secretário, que é professor de formação, não quer apenas tocar grandes obras.

Do Grajaú (Extremo Sul de São Paulo) e militante do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), ele aposta no histórico de mobilização popular para imprimir maior participação das periferias no poder.

Em entrevista exclusiva à Periferia em Movimento, Simões prevê os territórios periféricos no centro da disputa eleitoral do ano que vem.

Confira:

PEM: Em fevereiro de 2023, você disse que os movimentos periféricos deveriam fazer políticas públicas “com as próprias mãos”. Quase três anos depois, isso se concretizou na Secretaria Nacional de Periferias?

Guilherme Simões: Não dá para dizer que os movimentos hegemonizam as políticas públicas. Seria uma mentira. Agora, seguramente estamos diante de um avanço importante. A criação da Secretaria de Periferias já é um sinal nesse sentido.

Na política de urbanização de favelas, por exemplo, estão sendo investidos cerca de R$ 10 bilhões ao longo de 4 anos. É a retomada de investimento nesse tipo de política em tempos em que o MBL (Movimento Brasil Livre, de extrema-direita) defende o fim das favelas, né? E o que nós precisamos fazer é qualificar a vida das pessoas nesses territórios.

Tem uma outra política da Secretaria que é a de prevenção de desastres por deslizamentos. Os investimentos já ultrapassam R$ 4 bilhões. A gente chegou no governo com um orçamento de mais ou menos R$ 20 milhões de reais, retomou esses investimentos e criou uma aproximação com os territórios.

PEM: Que tipo de aproximação?

Rovena Rosa/Agência Brasil

Guilherme Simões: O governo federal voltou a se relacionar com os agentes coletivos organizados – meios de comunicação, grupos de cultura, movimentos de luta por moradia, movimentos relacionados à questão ambiental, que estão crescendo muito nas periferias.

Há um esforço de criar essa conexão com os territórios, mas também uma mudança na forma de executar políticas.

A mudança começa com diálogo e passa por apropriar o que está sendo feito nos territórios para as políticas públicas, ou seja, as políticas públicas dão escala para o que os territórios estão fazendo. Um exemplo importante é das cozinhas solidárias, que veio dos territórios durante a pandemia.

PEM: E como isso é apropriado pelo governo?

Guilherme Simões: O programa Periferia Viva parte um pouco desse mesmo raciocínio. Temos um orçamento de quase R$ 15 bilhões nesses quatro anos. Eu tenho que executar em parceria com os municípios, com as prefeituras, por meio de contratos de repasse. Agora, da forma como a gente está construindo o programa, necessariamente esses municípios precisam trazer os grupos do território para fazer essa política.

Acabou o tempo de fazer política pública dentro do gabinete.

Então, o cara [prefeito] pode fazer um plano de ação de infraestrutura, mas vai precisar se integrar com outras necessidades do território, que vão ser indicadas visando a integração dos agentes coletivos organizados ao poder público local.

Uma regra do programa é que os técnicos precisam instalar um posto territorial para que uma equipe de assessoria vá trabalhar de lá para ouvir a comunidade. Isso já está acontecendo em Santo André. Nós vamos chegar até o final de 2026 com mais ou menos 100 municípios.

PEM: O que mudou a partir dessa escuta?

Guilherme Simões: A gente tenta imprimir um pouco o caráter social, de mostrar para a equipe o quanto o trabalho é importante na ponta, para as pessoas reais, de carne e osso. As pessoas não são planilhas, são gente.

E aí, eu acho que a gente está conseguindo levar isso para para o poder local. “Olha essa tecnologia, essa economia da sobrevivência que está sendo produzida aqui, ela pode ser integrada à política pública”. Os problemas da sociedade, das favelas, das periferias têm que ser resolvidos por política pública.

PEM: Muitos analistas falam de uma desconexão do governo federal com as periferias, com tendências de progresso individual, mais ligadas ao avanço pentecostal. Como a SNP tem acompanhado isso e atuado com territórios que não necessariamente têm programas da Secretaria?

Gari faz varrição em rua do Parque Grajaú, Extremo Sul de São Paulo

Foto: Pedro Salvador

Guilherme Simões: A gente criou o Mapa das Periferias, que começou a mapear agentes coletivos nos territórios e a cruzar com as políticas públicas.

O que a gente foi percebendo é uma vocação de cada território. No nosso Grajaú, podemos dizer que é um território de vocação cultural. A discussão do meio ambiente é muito forte lá na Brasilândia. Entendendo essas características, a gente vai apontando para o poder público onde investir.

E mais do que mapear, a gente precisa conectar esses agentes em uma rede que se chama Nós Periféricos, uma plataforma para promover encontros virtuais entre agentes e diversos parceiros para proporcionar oportunidades: cursos, formação, qualificação, editais e assim por diante.

Eu quero também que o povo que vive nas favelas, que atua no bem comum nesses territórios, tenha capacidade política também de interferir nas decisões.

PEM: O debate sobre racismo ambiental e justiça climática também ficou mais forte nos últimos anos. Como a Secretaria incorpora isso?

Guilherme Simões.

Guilherme Simões: A gente criou a estratégia Periferia Sem Risco, que aglutina as ações relacionadas a esse tema.

A crise climática é global, mas não atinge bairros nobres e territórios com infraestrutura igual às favelas. Tem uma desigualdade nesse sentido.

Então, é preciso que a gente leve os investimentos de prevenção dos acidentes nos territórios que mais sofrem. A gente também está direcionando investimento para os planos municipais de redução de risco, para que os municípios apontem a necessidade de investimento nesses territórios.

E estamos criando uma política, que são os planos comunitários de redução de riscos e adaptação climática, onde a gente também traz o cara que está sofrendo o problema para ele analisar e ajudar nas respostas.

PEM: Depois desses três anos de Secretaria, quais os desafios que ainda persistem e as perspectivas para o último ano deste mandato?

Guilherme Simões: O primeiro desafio que a gente tinha era existir, manter a Secretaria como um espaço importante na elaboração e efetivação de políticas públicas. Eu acho que a gente teve sucesso nisso.

Daqui para frente, o desafio é consolidar esse trabalho mostrando para a sociedade que as favelas, comunidades, pessoas que vivem nas periferias não devem ser simplesmente vistas como um problema. E esses territórios não devem ser vistos como uma coisa a ser extinta. Nós precisamos, como um dever histórico, levar qualidade de vida para essas pessoas e territórios.

Consolidar, portanto, o Periferia Viva como uma pauta de governo.

PEM: E como as periferias devem pautar as eleições de 2026?

Guilherme Simões: Os problemas do nosso País precisam começar a ser resolvidos pelas periferias, pelas favelas. É lá que a gente encontra a essência das desigualdades, o que é inaceitável: gente vivendo sem acesso a direitos básicos mínimos, como moradia digna, saneamento básico, equipamentos de educação e cultura.

O presidente Lula sabe a importância que as periferias tiveram nas suas eleições anteriores, na de 2022 e a que vai ter agora. Esses territórios são os nossos bastiões de resistência. É importante também pela disputa de mentalidade, de valores, do futuro.

A nossa população periférica não quer mais ser vista como uma coitadinha, mas também não quer ser vista como um objeto de ódio, de criminalização. As pessoas querem melhorar de vida com oportunidades, e isso precisa ser feito a partir do Estado, a partir da política pública.

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