Rotina coletiva: e se você não precisasse atravessar a cidade todo dia? Quem vive em São Paulo passa em média 3 horas por dia no transporte público. Isso poderia ser diferente se houvesse uma política de desenvolvimento econômico das periferias

Colaboração: Aline Rodrigues e Wilson Oliveira; Mapeamento: Mariana Sousa

Pense rápido: quanto tempo você gasta por dia no transporte público? E o que você faria se tivesse esse tempo livre?

Diariamente, milhões de pessoas acordam cedo na metrópole paulistana para trabalhar. O caminho nem sempre é tranquilo para quem utiliza o transporte público. A rotina coletiva inclui um serviço que pesa no bolso, aumenta o tempo de viagem por conta da lentidão e cansa tanto quanto o expediente na firma.

No vídeo abaixo, o Periferia em Movimento apresenta um retrato do sistema de transporte público na cidade de São Paulo – e, em especial, da região Extremo Sul. As informações foram obtidas com a Prefeitura do Município por meio da assessoria de imprensa da SP Trans. Já a CPTM, empresa que administra os trens metropolitanos, não respondeu às nossas solicitações.

O vídeo evidencia que o usuário do transporte público tem classe e gênero preferenciais. Se considerarmos que a maioria da população negra vive nas periferias – como o distrito como Parelheiros, em que 57% dos moradores são negros –, pode-se afirmar que uma raça predomina entre os passageiros que atravessam a cidade diariamente.

Para a jornalista Juliana Gonçalves, que articula a Marcha das Mulheres Negras de São Paulo, o resultado disso é a manutenção de um sistema desigual. “Os espaços melhor estruturados são das classes dominantes brancas. Aos trabalhadores, em sua maioria não brancos e pobres, são relegados os espaços mais vulneráveis. Vemos cada vez mais a precarização do trabalhador e relações econômicas que aprofundam cada vez mais as desigualdades. Quanto desse trabalho vai realmente para as pessoas que trabalham?”, questiona. “Essa pessoa que trabalha 8h e passa 3h por dia em deslocamentos muitas vezes não consegue garantir o mínimo. A força do seu trabalho vai enriquecer outra pessoa e nada vai influenciar o seu local na periferia”, aponta.

Juliana é pesquisadora do Bem Viver, que nasce entre os povos tradicionais da Cordilheira dos Andes e reivindica um novo marco civilizatório para a sociedade, com correspondência em filosofias como o “ubuntu” da África do Sul e que remete às relações existentes antes do colonialismo europeu no continente americano. O conceito questiona e combate a busca pelo desenvolvimento que só acentua as desigualdades no capitalismo, mas também pontua o fracasso dos socialismos que existiram até agora. “O Bem Viver é fortalecer cada vez mais os espaços locais, se voltar à coletividade e criar alternativas de uma vida digna que nunca é individual, sempre coletiva”, explica Juliana.

“Tem toda uma logística de vida que é condicionada ao trabalho”, complementa Alex Barcellos, educador em economia solidária e produtor cultural da Agência Solano Trindade, a falta de planejamento estratégico para gerar trabalho nos territórios periféricos é um erro. “Estamos falando de saúde pública, de qualidade de vida por conseguir acordar num horário mais oportuno, de se alimentar melhor”, aponta.

Alex lembra que as empresas não estão aptas a compreender os impactos de grandes deslocamentos diários na vida do trabalhador, ocasionando agravantes na saúde física e mental dessas pessoas. Por outro lado, a economia solidária surge como possibilidade de um arranjo produtivo pautado nas pessoas, em suas potencialidades e necessidades, e não no lucro por si só. Saiba mais aqui e aqui.

(Foto Thiago Borges / Periferia em Movimento)
(Foto: Thiago Borges / Periferia em Movimento)

Potências econômicas

Uma forma de romper o ciclo vicioso da concentração de riquezas e manutenção das desigualdades é pensar no desenvolvimento econômico local, que considere as periferias não apenas como bairros-dormitório como também fomentando outros arranjos produtivos, aproveitando os potenciais existentes nesses territórios.

A agricultora Valéria Macoratti se mudou de Guaianases para o Grajaú nos anos 1990, onde atuou em escolas locais. E desde 2007, ela e sua companheira Vânia mantêm um sítio na Chácara Santo Amaro. Em 2011, junto a outros produtores locais, fez um curso de agricultura orgânica em um projeto bancado pela Prefeitura. Como resultado, surgiu a Cooperativa Agroecológica dos Produtores Rurais e de Água Limpa da Região Sul de São Paulo (Cooperapas), com objetivo de facilitar a compra de insumos, capacitação dos agricultores e venda dos produtos orgânicos.

(Foto Thiago Borges / Periferia em Movimento)
Valéria, agricultora orgânica e presidente da Cooperapas, que atua nas áreas de proteção ambiental. (Foto Thiago Borges / Periferia em Movimento)

Localizada em área de preservação ambiental e rodeada de mananciais, na zona rural de São Paulo, atualmente a Cooperapas reúne 38 cooperados – quem não produz alimentos sem agrotóxicos está em processo de transição – e fornece alimentos para restaurantes e postos de venda no centro da cidade, além da merenda em escolas municipais. “A gente acaba priorizando a vocação para a terra. E se precisa de mão de obra, contratamos localmente”, pontua Valéria. “A cooperativa tem todo potencial pra crescer e gerar mais empregos na região”.

Segundo Valéria, a próxima meta é criar meios de venda para moradores da própria região, facilitando o acesso a alimentos orgânicos. Um experimento disso já é realizado pelo CSA (Comunidade que Sustenta Agricultura) criado pela Ecoativa (um espaço sociocultural na Ilha do Bororé) com agricultores locais. A ideia é fomentar um grupo de consumo responsável na região.

Já o comerciante Edu Graja viu na abertura do próprio negócio uma oportunidade de ser dono de seu tempo. Como técnico em eletrônica, era normal sair de casa às 05h da manhã e retornar somente às 20h. “O impacto era muito pesado porque não tinha disponibilidade de desenvolver outras atividades, entrava nesse looping diário”, diz. Há cerca de uma década, Edu pediu para ser demitido e, com o dinheiro da rescisão, abriu uma doceria com sua companheira no Jardim Eliana.

DU Pub, ponto de encontro no Extremo Sul de São Paulo (Foto: Divulgação)

Com horário mais flexível e atuação como agente cultural na região, ele percebeu a possibilidade de unir a cena underground local a uma proposta de entretenimento para os moradores. Assim, Edu mudou de rumo: abriu o DU Pub, um espaço que valoriza manifestações culturais de raíz e oferece hambúrgueres e cervejas artesanais. “Pra quem não conhece o cenário, começa a ter uma nova expectativa sobre alguns conceitos de entretenimento, que pode ser de boa qualidade”, observa.

O Nois por Nois (foto em destaque na capa) é um exemplo que nasce dessas possibilidades. A iniciativa articula coletivos de cultura e outras vertentes que atuam no Grajaú em uma rede para fomentar a economia solidária e o desenvolvimento local com a realização de eventos para a comunidade. Essa efervescência artística da região e a valorização de uma identidade no território também são o pano de fundo da Graja Beer, a cerveja artesanal do Grajaú. Leandro Andrade, conhecido como Sequelle, explica que a ideia de criar uma cerveja própria surgiu em meados de 2016. “Nossa proposta é utilizar uma plataforma popular e consolidada (cerveja) para discutir assuntos que acreditamos ser pertinentes e promovam a reflexão e motivação nas pessoas de nossa comunidade”, diz Sequelle.

Num primeiro momento, a Graja Beer queria discutir a arte como forma de crítica e livre expressão. Ao ver que isso poderia ser associado à bebida, aglutinaram outros temas potenciais de discussão, como o consumo consciente do álcool, o pertencimento, autoestima e as marcas locais – não por acaso, o rótulo é estampado com uma foto da avenida Belmira Marin, principal artéria local. “Se conseguirmos criar uma forma independente, solidária e justa de geração de renda, conseguiremos mudar alguns aspectos negativos em nossa sociedade. Ao mesmo tempo que acredito que todos tenham direito aos recursos da cidade, também acredito que as pessoas precisam ter tempo para usufruir desses meios”, ressalta Sequelle.

Graja Beer e A Queijaria na Quebrada: parceria para expor e vender produtos artesanais locais (Foto: Divulgação)

Presente em dezenas de estabelecimentos da região a um preço médio de R$ 15 a garrafa, a Graja Beer repassa um percentual das vendas para apoiar ações culturais, além de criar um espaço coletivo com [email protected] da Billings, organização que trabalha com vivências náuticas na represa, e A Queijaria na Quebrada – outra iniciativa local. Aberta em dezembro de 2017 como trabalho de conclusão do curso “Filhos do queijo”, que forma jovens no mundo do queijo artesanal brasileiro, a loja vende queijos artesanais a um preço justo no Parque América. “O objetivo é fomentar pequenos produtores da região não somente de queijos, como de outros produtos também para que todos tenham direito à comida de qualidade”, explica Jade Ramos, 22 anos, uma das responsáveis do projeto. Fora a conscientização sobre a alimentação, ela acredita que o projeto ajuda a clientela a se reconectar com o bairro.

Essa reconexão também está presente no Ateliê Daki, que como o próprio nome sugere busca valorizar os agentes culturais locais. Criado em 2014 no Jardim Reimberg por sete artistas que tinham o sonho e a necessidade de ter um lugar para criar e produzir suas obras,o espaço inclui ateliê, residência artística, estúdio, laboratório e galeria de artes.

“Existe uma sociedade que vende a ideia de que a periferia tem apenas que sobreviver, morar aqui e sair pro centro pra trabalhar”, observa o grafiteiro Ayco Dany, um dos fundadores do Daki. “O Ateliê traz a proposta de descentralizar a arte com uma galeria pra quebrada, possibilitando o acesso de pessoas que estão à margem desse sistema de arte”, aponta. Além dos eventos abertos, rodas de conversa e oficinas, o Ateliê Daki facilita que uma pessoa tenha uma obra de arte em sua casa com o parcelamento da venda de telas, por exemplo.

Exposição no Ateliê Daki (Foto: Periferia em Movimento)

Políticas públicas

Para Alex Barcellos, fazer com que o dinheiro circule nas quebradas não pode depender exclusivamente de seus moradores. Afinal, empregos – formais ou informais – já são gerados por bares, lanchonetes e com o comércio ambulante. Porém, o desenvolvimento local passa pelo reconhecimento das potencialidades e necessidades locais. Além da indústria, do comércio e dos serviços, a presença do Estado com a garantia de direitos – seja com creches, escolas, postos de saúde e outras iniciativas – também possibilita que mais pessoas trabalhem perto de casa. “O poder público é quem deveria pensar políticas para melhorar isso”, aponta.

No plano de metas para a gestão entre 2017 e 2020, a Prefeitura se propõe a gerar oportunidades de inclusão produtiva por meio das ações de qualificação profissional, intermediação de mão de obra e empreendedorismo, para 70 mil pessoas que vivem em situação de pobreza, especialmente para a população em situação de rua. Outra meta prevê criar meios para fortalecer a abertura de empresas na área da economia criativa.  Questionada pelo Periferia em Movimento, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico não atendeu às solicitações. “É terrível estar em 2018 e não ter propostas de desenvolvimento do bairro, porque à medida em que você desenvolve outras coisas caminham juntas”, finaliza Alex Barcellos.

Esta reportagem faz parte do projeto #NoCentroDaPauta, uma realização dos coletivos Alma Preta, Casa no Meio do Mundo, Desenrola e Não me Enrola, Imargem, Historiorama, Periferia em Movimento e TV Grajaú, com patrocínio da Fundação Tide Setubal.

Cerca de 30 reportagens serão publicadas até o final de outubro com assuntos de interesses da população das periferias de São Paulo em ano eleitoral. Acompanhe os sites e as redes sociais dos coletivos e não perca nada!