Fotos e reportagem por Jefferson Rodrigues

Artes: Rafael Cristiano. Orientação de reportagem: Gisele Brito. Edição de texto: Thiago Borges

Quando quer curtir um lazer, Thiago Félix, de 25 anos, pega sua bicicleta e vai para a rua. Morador do Parque Fernanda (região do Capão Redondo, zona Sul de São Paulo), ele se arrisca por 2,8 quilômetros na Estrada de Itapecerica até chegar à ciclovia da avenida Carlos Caldeira Filho. E mesmo na via considerada adequada para pedalar, ele encontra problemas. 

“As ciclovias daqui são tortas, têm muito lixo. Nessa ciclovia, por exemplo, você anda reto e de repente tem que desviar o caminho e não tem nenhuma sinalização para isso. Então, para o lazer, eu prefiro [pedalar no] Centro”, enfatiza Thiago, atualmente desempregado, que só não usa a bicicleta para outras finalidades por conta da falta de segurança nas periferias. 

Thiago Félix (foto: Jefferson Rodrigues)

Ao circular pelas ruas das periferias de São Paulo, é nítido o aumento de pessoas que estão utilizando a bicicleta. Por outro lado, há diversos fatores que contribuem ou atrapalham para que mais pessoas utilizem a bicicleta como meio de transporte no dia a dia – a começar pela distribuição da malha viária na cidade. 

No ano passado, a organização Ciclocidade apontou que há uma concentração de infraestrutura na região Centro-Sul de São Paulo, mais precisamente nas subprefeituras da Ipiranga (16,3%), Vila Mariana (12,4%), Sé (11,3%) e Lapa (10,4%). Na subprefeitura do Campo Limpo, onde mora Thiago, estão apenas 2,84% das ciclovias. 

Segundo a Rede Social Brasileira Por Cidades Justas e Sustentáveis, essas regiões que concentram a malha cicloviária são as em que a população possui renda acima da média paulistana, com ganhos passando dos R$ 3 mil por mês.

Arte: Rafael Cristiano

Diálogo

Para Marcivan Barreto, da Central Única das Favelas em São Paulo, há uma necessidade de diálogo maior com o poder público para que se criem mais ações de mobilidade nas periferias e que a segurança viária nesses territórios seja expandida.

Felipe Claro, um dos responsáveis por um estudo realizado pelo projeto Conexões Territoriais da Ciclocidade, é preciso fazer um trabalho de base sobre segurança no trânsito. 

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“Tudo parece que se resume em colocar uma faixa na avenida dizendo ‘respeite o pedestre’, ou então fazer uma ação na escola levando as crianças para uma aula da CET que acontece uma vez na vida e depois nunca mais”, observa. “Isso tem que fazer parte do currículo efetivamente das escolas. Cabe entender que segurança viária é só um elemento de composição de todo esse comportamento que as pessoas deveriam ter dentro da coletividade”.

Uma alternativa para motivar o uso da bicicleta nas periferias é ampliar o compartilhamento de bikes, a exemplo do que já é feito em São Paulo, com distribuição em estações na região central. É o que defende Ana Carboni,  diretora presidenta da União de Ciclistas do Brasil. Para ela, isso facilitaria pequenos deslocamentos entre casa e metrô, por exemplo.

Ligação com a cidade

Após 3 anos sem novas estruturas cicloviárias, no ano passado a Prefeitura de São Paulo anunciou um novo Plano Cicloviário. A proposta prevê 173 quilômetros de novas conexões e 310 quilômetros de reformas e melhorias em estruturas já existentes. O investimento é de R$ 325 milhões, além de um projeto de recapeamento orçado em R$ 250 milhões. Desde então, 139 quilômetros de vias já foram entregues e mais de 56 quilômetros foram recapeados ou reformados, como as ciclovias Artur de Azevedo (em Pinheiros), Corifeu de Azevedo Marques (Butantã) e George Corbisier (Jabaquara).

Ciclovia na avenida Carlos Caldeira Filho (foto: Jefferson Rodrigues)

Para a escolha desses endereços, a administração municipal levou em conta riscos que ciclistas correm devido à falta de sinalização em cruzamentos, degradação do pavimento e volume de utilização. Enquanto nessas regiões vemos essas melhorias, não há muitas informações de investimento nas periferias. Além disso, as infraestruturas existentes nas quebradas existem principalmente nas vias principais dos territórios. 

“A gente precisa de muitas conexões nas periferias de São Paulo”, observa Jô Pereira, fundadora do projeto Pedal na Quebrada e diretora geral da Ciclocidade. Moradora do Jardim Ester, no Rio Pequeno, ela alega que existe uma malha cicloviária muito pequena nessas ruas internas e que é preciso avançar ainda mais. 

“Esses outros quilômetros [planejados] precisam estar espalhados nessas conexões dos bairros. Não adianta só colocar na região central das periferias e nas grandes avenidas […] A gente não quer andar só nas grandes avenidas. A gente quer andar nas quebradas, nos lugares onde o caminho vai ser mais curto e isso também é uma inteligência de deslocamento”, completa. 

*Jefferson Rodrigues é participante do “Repórter da Quebrada – Uma morada jornalística de experimentações”, programa de residência em jornalismo da quebrada realizado pela Periferia em Movimento por meio da política pública Fomento à Cultura da Periferia de São Paulo

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