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Por Adriana Novaes. Edição: Thiago Borges
Na periferia da Zona Sul de São Paulo, não é raro encontrar bebês com pouco mais de um mês já frequentando creches ou ficando com vizinhas, avós ou conhecidas para que as mães consigam trabalhar.
Segundo a Secretaria Municipal de Educação (SME) da capital paulista, a rede municipal tem 20.258 bebês entre 0 e 4 meses matriculados em centros de educação infantil (CEIs) ou unidades conveniadas. Até os 3 meses, são 12.359 bebês.
Para muitas mulheres, ficar em casa não é uma opção. O colo disputa espaço com a necessidade de pagar as contas.
Isso porque trabalhadoras informais, autônomas e microempreendedoras não conseguem exercer um direito básico: a licença-maternidade de 120 dias, garantida a mulheres que gestam ou adotam uma criança. Há, ainda, um empecilho para quem tem a guarda, mas não pelo processo regular de adoção.
Este é o tema da segunda reportagem desta edição da série Trampo é Trampo, que em 2026 aborda novos e velhos desafios impostos a quem trabalha por conta própria.
Pressão pra dar conta
Moradora do Capão Redondo, Vitória Viana, de 26 anos, estava sem trabalho e precisou voltar à rotina quando seu filho Leonel tinha poucas semanas de vida.
“Me vi com um bebê de dois meses no colo e nenhuma fonte de renda. Era a única opção possível”, explica.
No início, o filho Leonel acompanhava a mãe em longas jornadas pela cidade para executar o trabalho, que não tem vínculo empregatício.
“Ele ficava comigo no sling por horas, no ônibus, no metrô… e me olhava como se estivesse tudo bem”, diz Vitória, que aos 2 meses e meio do bebê resolveu matriculá-lo na creche.
“Assim que saí da creche, comecei a chorar. (…) Era como se uma parte do meu corpo estivesse faltando”, lembra Vitória. Hoje, Leonel tem 5 meses e continua frequentando a creche
“Eu não queria me desprender do meu pinguinho de gente, mas sentia o mundo me pressionando para dar conta.”
Impacto que não aparece no holerite
A obstetriz Juliana Santos explica que o retorno antecipado da mãe ao trabalho interfere diretamente na construção do vínculo e na amamentação – dois pilares fundamentais nos primeiros meses de vida.
“O bebê precisa de contato, de presença, de um adulto disponível. Isso influencia no desenvolvimento emocional e neurológico”, observa Juliana, que é consultora internacional em aleitamento humano e atende famílias periféricas na Casa Ângela, localizada no Jardim São Luís (Zona Sul).
O laço não desaparece, mas fica mais difícil com a separação precoce.
“O vínculo se fortalece na presença, na resposta ao choro, no contato. E isso ainda pode acontecer nos momentos em que estão juntos”, ressalta Juliana.
O leite secou
O tempo vira um recurso tão limitado quanto o dinheiro – e deixa marcas profundas.
Vitória sentiu as mudanças no próprio corpo e na relação com o filho.
“Devido a tanto estresse, meu leite começou a secar. Eu só precisava de mais tempo.”
Sem estrutura adequada, ela tentou manter a amamentação como podia: mesmo constrangida, coletava leite no trabalho e armazenava para dar ao filho. Ainda assim, a produção diminuiu e a rotina mudou completamente.
“Minha casa foi tomada por mamadeiras, fórmulas, gelo, sacos… coisas que eu não precisaria se pudesse estar com ele”, diz Vitória.
A lei distante da realidade
E quando você é uma mãe adotiva em relacionamento homoafetivo?
É o caso da empreendedora Maria Beatriz da Silva, de 31 anos.
Casada há sete anos com Kamilla Torres, ela e a esposa já desejavam a maternidade. Mas a chegada da filha Ayla, em 2024, aconteceu de forma inesperada: a criança chegou à família em uma situação delicada. Como a genitora e o genitor não podiam cuidar da bebê, o casal conseguiu a guarda unilateral pela Justiça.
Em um processo de adoção, que estabelece oficialmente o vínculo de filiação, as pessoas adotantes têm os mesmos direitos obtidos em relação a um pai ou uma mãe biológica. O direito inclui mães não gestantes em relações homoafetivas.
Porém, no caso da guarda legal, ela apenas assegura cuidados e responsabilidades sobre a criança. Essa diferença foi determinante no impasse envolvendo a licença-maternidade enfrentada por Maria Beatriz.
Na época, ela trabalhava como analista em uma empresa, que informou inicialmente que teria esse direito à licença-maternidade.
- Maria Beatriz, Kamilla e a bebê Ayla (arquivo pessoal)
- Maria Beatriz e bebê (arquivo pessoal)
“Eu estava com uma recém-nascida em casa. A maternidade já estava acontecendo”, conta.
Maria Beatriz chegou a ser afastada do trabalho, mas um mês depois descobriu que a orientação estava errada quando tentou solicitar o benefício no INSS e teve o pedido negado.
Foram quatro meses sem receber salário ou benefício.
Maria Beatriz seguiu trabalhando de casa, dividida entre reuniões e uma bebê que demandava presença integral.
“Eu vivia dois mundos ao mesmo tempo: reuniões, metas… e uma recém-nascida”, destaca.
Sem ter com quem deixar a filha e já acompanhada por um advogado, ela entrou com pedido de rescisão indireta na Justiça.
Hoje, Maria Beatriz empreende uma papelaria on-line com a irmã que funciona dentro de casa. A nova rotina permite que ela concilie o trabalho com as demandas da casa e os cuidados de Ayla – que, por opção do casal, ainda não frequenta a creche.
“Foi tudo muito intenso, sem preparação. Eu só pensava que ela precisava estar segura”, conta.
O reconhecimento institucional, no entanto, não acompanhou essa realidade.
Cuidar ou sobreviver
No caso de Maria Beatriz, foi a família que evitou que tudo desmoronasse.
“Minha mãe e minha irmã se revezavam para me ajudar. Sem isso, eu não teria conseguido”, diz ela.
Já Vitória precisou construir apoio possível dentro das limitações:
“Foi meu companheiro, a irmã dele e uma amiga que cuidou do meu filho por um tempo. Sem isso, eu não teria conseguido trabalhar.”
As organizações de saúde reforçam a importância do vínculo e da amamentação exclusiva nos primeiros seis meses de vida, mas a ausência de políticas públicas voltadas para trabalhadoras informais e outras pessoas cuidadoras evidencia um sistema que não acompanha a vida real.
“Não conheço políticas públicas que apoiem mulheres em trabalho informal nesse período”, afirma Juliana.
A primeira infância é prioridade, mas na prática depende da conta bancária, do tipo de contrato e da rede de apoio disponível.
Para Vitória, o problema não está na decisão individual, mas na estrutura:
“Querem a gente totalmente entregue ao trabalho, mas a gente também é mãe. E isso não é reconhecido (…) Do jeito que está, a gente precisa escolher entre cuidar e sobreviver.”








1 Comentário
Excelente informação, parabéns…