Sem licença-maternidade, mães periféricas voltam ao trabalho ainda no puerpério

Sem licença-maternidade, mães periféricas voltam ao trabalho ainda no puerpério

Creches de São Paulo têm mais de 20 mil bebês até 4 meses de idade, o que evidencia pressão por sobrevivência sobre mulheres. Burocracias também dificultam os direitos de quem assume a guarda legal de crianças. Confira na segunda reportagem da série 'Trampo é Trampo', neste mês dos trabalhadores.  

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Tempo de leitura: 8 minutos

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Por Adriana Novaes. Edição: Thiago Borges

Na periferia da Zona Sul de São Paulo, não é raro encontrar bebês com pouco mais de um mês já frequentando creches ou ficando com vizinhas, avós ou conhecidas para que as mães consigam trabalhar.

Segundo a Secretaria Municipal de Educação (SME) da capital paulista, a rede municipal tem 20.258 bebês entre 0 e 4 meses matriculados em centros de educação infantil (CEIs) ou unidades conveniadas. Até os 3 meses, são 12.359 bebês.

Para muitas mulheres, ficar em casa não é uma opção. O colo disputa espaço com a necessidade de pagar as contas.

Isso porque trabalhadoras informais, autônomas e microempreendedoras não conseguem exercer um direito básico: a licença-maternidade de 120 dias, garantida a mulheres que gestam ou adotam uma criança. Há, ainda, um empecilho para quem tem a guarda, mas não pelo processo regular de adoção.

Este é o tema da segunda reportagem desta edição da série Trampo é Trampo, que em 2026 aborda novos e velhos desafios impostos a quem trabalha por conta própria.

Vitória e Leonel (foto arquivo pessoal)

Vitória e Leonel (foto arquivo pessoal)

Pressão pra dar conta

Moradora do Capão Redondo, Vitória Viana, de 26 anos, estava sem trabalho e precisou voltar à rotina quando seu filho Leonel tinha poucas semanas de vida.

“Me vi com um bebê de dois meses no colo e nenhuma fonte de renda. Era a única opção possível”, explica.

No início, o filho Leonel acompanhava a mãe em longas jornadas pela cidade para executar o trabalho, que não tem vínculo empregatício.

“Ele ficava comigo no sling por horas, no ônibus, no metrô… e me olhava como se estivesse tudo bem”, diz Vitória, que aos 2 meses e meio do bebê resolveu matriculá-lo na creche.

“Assim que saí da creche, comecei a chorar. (…) Era como se uma parte do meu corpo estivesse faltando”, lembra Vitória. Hoje, Leonel tem 5 meses e continua frequentando a creche

“Eu não queria me desprender do meu pinguinho de gente, mas sentia o mundo me pressionando para dar conta.”

Juliana Santos (arquivo pessoal)

Juliana Santos (arquivo pessoal)

Impacto que não aparece no holerite

A obstetriz Juliana Santos explica que o retorno antecipado da mãe ao trabalho interfere diretamente na construção do vínculo e na amamentação – dois pilares fundamentais nos primeiros meses de vida.

“O bebê precisa de contato, de presença, de um adulto disponível. Isso influencia no desenvolvimento emocional e neurológico”, observa Juliana, que é consultora internacional em aleitamento humano e atende famílias periféricas na Casa Ângela, localizada no Jardim São Luís (Zona Sul).

O laço não desaparece, mas fica mais difícil com a separação precoce.

“O vínculo se fortalece na presença, na resposta ao choro, no contato. E isso ainda pode acontecer nos momentos em que estão juntos”, ressalta Juliana.

Vitória e Leonel (foto arquivo pessoal)

Vitória e Leonel (foto arquivo pessoal)

O leite secou

O tempo vira um recurso tão limitado quanto o dinheiro – e deixa marcas profundas.

Vitória sentiu as mudanças no próprio corpo e na relação com o filho.

“Devido a tanto estresse, meu leite começou a secar. Eu só precisava de mais tempo.”

Sem estrutura adequada, ela tentou manter a amamentação como podia: mesmo constrangida, coletava leite no trabalho e armazenava para dar ao filho. Ainda assim, a produção diminuiu e a rotina mudou completamente.

“Minha casa foi tomada por mamadeiras, fórmulas, gelo, sacos… coisas que eu não precisaria se pudesse estar com ele”, diz Vitória.

A lei distante da realidade

E quando você é uma mãe adotiva em relacionamento homoafetivo?

É o caso da empreendedora Maria Beatriz da Silva, de 31 anos.

Casada há sete anos com Kamilla Torres, ela e a esposa já desejavam a maternidade. Mas a chegada da filha Ayla, em 2024, aconteceu de forma inesperada: a criança chegou à família em uma situação delicada. Como a genitora e o genitor não podiam cuidar da bebê, o casal conseguiu a guarda unilateral pela Justiça.

Em um processo de adoção, que estabelece oficialmente o vínculo de filiação, as pessoas adotantes têm os mesmos direitos obtidos em relação a um pai ou uma mãe biológica. O direito inclui mães não gestantes em relações homoafetivas.

Porém, no caso da guarda legal, ela apenas assegura cuidados e responsabilidades sobre a criança. Essa diferença foi determinante no impasse envolvendo a licença-maternidade enfrentada por Maria Beatriz.

Na época, ela trabalhava como analista em uma empresa, que informou inicialmente que teria esse direito à licença-maternidade.

“Eu estava com uma recém-nascida em casa. A maternidade já estava acontecendo”, conta.

Maria Beatriz chegou a ser afastada do trabalho, mas um mês depois descobriu que a orientação estava errada quando tentou solicitar o benefício no INSS e teve o pedido negado.

Foram quatro meses sem receber salário ou benefício.

Maria Beatriz seguiu trabalhando de casa, dividida entre reuniões e uma bebê que demandava presença integral.

“Eu vivia dois mundos ao mesmo tempo: reuniões, metas… e uma recém-nascida”, destaca.

Sem ter com quem deixar a filha e já acompanhada por um advogado, ela entrou com pedido de rescisão indireta na Justiça.

Hoje, Maria Beatriz empreende uma papelaria on-line com a irmã que funciona dentro de casa. A nova rotina permite que ela concilie o trabalho com as demandas da casa e os cuidados de Ayla – que, por opção do casal, ainda não frequenta a creche.

“Foi tudo muito intenso, sem preparação. Eu só pensava que ela precisava estar segura”, conta.

O reconhecimento institucional, no entanto, não acompanhou essa realidade.

Cuidar ou sobreviver

No caso de Maria Beatriz, foi a família que evitou que tudo desmoronasse.

“Minha mãe e minha irmã se revezavam para me ajudar. Sem isso, eu não teria conseguido”, diz ela.

Já Vitória precisou construir apoio possível dentro das limitações:

“Foi meu companheiro, a irmã dele e uma amiga que cuidou do meu filho por um tempo. Sem isso, eu não teria conseguido trabalhar.”

As organizações de saúde reforçam a importância do vínculo e da amamentação exclusiva nos primeiros seis meses de vida, mas a ausência de políticas públicas voltadas para trabalhadoras informais e outras pessoas cuidadoras evidencia um sistema que não acompanha a vida real.

“Não conheço políticas públicas que apoiem mulheres em trabalho informal nesse período”, afirma Juliana.

A primeira infância é prioridade, mas na prática depende da conta bancária, do tipo de contrato e da rede de apoio disponível.

Para Vitória, o problema não está na decisão individual, mas na estrutura:

“Querem a gente totalmente entregue ao trabalho, mas a gente também é mãe. E isso não é reconhecido (…) Do jeito que está, a gente precisa escolher entre cuidar e sobreviver.”

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1 Comentário

  1. Regina Souza de Oliveira Brito disse:

    Excelente informação, parabéns…

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