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Laura Vitória, de 28 anos, opera um estúdio de fotografia ‘sem estúdio’ no Grajaú, Extremo Sul de São Paulo: ela recebe uma foto de rosto, descreve o cenário em um comando (prompt) de inteligência artificial e a ferramenta gera uma nova imagem.
Os pedidos da clientela variam. Ela já inseriu pessoas em festas de aniversário, formaturas, criou fotos de perfil, ensaios corporativos e até sensuais. “Uma mulher queria um ensaio sensual e começou a me mandar fotos com os seios de fora”, diz. Nesse caso, a própria ferramenta barrou a aplicação.
Cada imagem gerada custa em média R$ 60. A venda começa na rede social, é negociada no WhatsApp e finalizada em menos de 24 horas. Recentemente, Laura celebrou o faturamento de mais de R$ 60 mil.
Laura faz parte de um contingente que não para de crescer: tanto nas periferias de São Paulo quanto na região central, bancas de pastéis, salões e pequenos comércios usam a inteligência artificial para criar materiais de divulgação. No iFood, boa parte das fotos de pratos não são fotos, mas imagens geradas por IA.
Todo mundo quer o seu pedaço da inteligência artificial – inclusive, a capa desta matéria foi gerada com IA.
- Enquanto comércios criam panfletos com IA, no Ifood até pratos de comida são produzidos por software
Este é o tema da terceira reportagem desta edição da série Trampo é Trampo, que em 2026 aborda novos e velhos desafios impostos a quem trabalha por conta própria. A matéria surge a partir do ‘Café com Pauta’, encontro presencial realizado pela Periferia em Movimento com o público para discutir temas de interesse.
Crescimento real
No Brasil, 74% das micro, pequenas e médias empresas já usam alguma ferramenta de inteligência artificial, segundo pesquisa de 2023 da Microsoft.
Hoje, esse número deve ser ainda maior – e quem preencheu a demanda foi o mercado.
Cursos e produtos digitais sobre IA movimentaram mais de R$ 140 milhões em 2025 na plataforma Hotmart, um crescimento de 700% em dois anos, segundo a própria empresa. São quatro mil empreendedores ensinando IA para outros empreendedores.
Laura não começou pelo estúdio. Ela trabalhava em regime CLT e migrou para o marketing digital, mas não conseguiu crescer e foi atrás de outro produto. Há oito meses, encontrou a fotografia por IA, quando a tecnologia ainda era ‘novidade’ e o mercado tinha espaço.
No começo, ela e o marido Anderson usavam a plataforma Discord para fazer mudança de rostos, mas o resultado ficava desproporcional.
Depois, Laura migrou para o Real Vision Studio, que tem um conjunto de ferramentas que utiliza uma ‘engenharia de prompt reversa’ para gerar ensaios realistas com as fotos.
Segundo o próprio site, o público principal são ‘mulheres que desejam consolidar sua marca, elevar sua presença e criar conteúdos memoráveis com autonomia total’.
Como funciona?
A cliente envia uma foto de rosto e uma referência do que deseja. Laura descreve tudo no prompt – qual é a pose, o cenário, o estilo da roupa – e a ferramenta entrega as imagens.
“Se a cliente falar assim: ‘Ó, Laura, eu sou gordinha mas eu preciso que você me deixe magrinha’, então a gente altera no prompt e faz a foto conforme ela pede”.
Ela envia a imagem gerada com marca d’água para aprovação e cobra metade do valor antecipadamente. Quando a cliente escolhe, ela recebe o restante do pagamento e entrega a foto em alta qualidade. Se tiver algum problema, Laura refaz o serviço ou reembolsa o que foi pago.
A maioria das clientes de Laura são mulheres “que têm bastante distorção de imagem”, segundo a empreendedora. Nem sempre elas se reconhecem no resultado porque, apesar de não alterar a fisionomia, a foto de IA fica ‘boa demais’ para parecer real.
Apesar da inovação, esse é um mercado já saturado e Laura mira em novos produtos.
“Agora, tem a onda de músicas com inteligência artificial. A pessoa manda a história dela, qual o tipo de música que quer, se é para namorada, mãe, homenagem, aniversário, e a gente usa um aplicativo que cria uma melodia com a letra”.
E os dados pessoais?
Apesar das oportunidades de negócio, o uso de IA acende um alerta: como garantir a proteção de dados?
“Quando você compra a ferramenta de IA, eles mostram um rótulo dizendo que não vão usar as fotos”, diz Laura.
Ela confia nisso. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) garante o anonimato. Mas os termos das plataformas são opacos e as fotos passam pelo hub de ferramentas antes do resultado final.
Ainda assim, para a própria segurança, Laura sempre solicita autorização para o uso das imagens.
“Se o cliente falar assim: ‘as fotos que você me enviou com IA eu não quero que você use’, a gente apaga da base e dos notebooks.”
A costureira e o algoritmo

Sandra Penna, artesã que utiliza IA para aplicar roupas que produz em modelos geradas por computação
Sandra Penna, moradora do Jardim Vergueiro (Zona Sul), tem 62 anos e costura há mais tempo do que consegue lembrar. Por décadas, a agulha ficou para o fim de semana.
Quando parou de trabalhar com carteira assinada, há cinco anos, ela montou o Pennatelier na própria casa. No ateliê, ela customiza peças únicas com jeans descartado e diferentes tecidos, que rendem participações em desfiles de moda.
Desde março, Sandra usa o Gemini para gerar imagens e posts mais atrativos para o Instagram. Ela tira fotos das roupas em cima da cama e pede para a ferramenta do Google aplicar em fotos de modelos fictícia.
Ela diz que ainda está aprendendo, mas indica a ferramenta para amigas empreendedoras porque é simples, prática e gratuita.
Quando perguntada se a tecnologia a preocupa, Sandra responde: “Indiretamente. Me preocupa por tudo que ela pode causar. Nem sei como explicar direito.”
Sandra não está sozinha nessa imprecisão.
Máquina de expectativas e frustrações
Marina Frid, do DeepLab da University College Dublin (na Irlanda), pesquisa como plataformas digitais afetam trabalhadores informais, autônomos e microempreendedores.
Num primeiro momento, a tecnologia parece equilibrar o jogo.
“Você tem uma impressão de oportunidade, de igualdade, mas o sistema já é enviesado, em forma de pirâmide”, diz Marina.
Nas versões gratuitas das ferramentas, os dados das pessoas que usam não estão protegidos contra a reutilização: a empreendedora entrega fotos, hábitos e informações do seu negócio sem saber o que acontece depois.
“A urgência de utilizar é sempre maior do que o tempo de estudo para entender exatamente o que está acontecendo e quais são as implicações (…) As pessoas abraçam a tecnologia e só depois vão sentir os efeitos.”
O grupo de pesquisa dela acompanhou mais de 40 mil aspirantes ao empreendedorismo digital nas periferias brasileiras. Apenas 1,4% desse total superou 5 mil pessoas seguindo suas páginas em quatro meses, mesmo postando com frequência.
O relatório “Mídias Sociais como Plataforma de Trabalho Digital”, publicado em dezembro de 2024, alerta que mulheres negras de baixa renda são o público mais atraído pela promessa de renda extra no digital – e o que menos consegue crescer na plataforma.
E quando o fracasso chega, o ecossistema oferece uma explicação: ‘falta de esforço’, ‘falta de mentalidade’.
E mesmo quem mantém o ritmo não está em pé de igualdade. Os algoritmos concentram visibilidade em poucos perfis.
“Você cria uma pirâmide dentro da pirâmide (…) Uma desigualdade dentro da desigualdade”, diz Marina.
O mesmo acontece com as ferramentas de IA.
- Artesã tira fotografia de peças de roupa em cima da cama e, com Gemini, aplica fotos em imagens de modelos sugeridas por IA para postar em redes sociais (reprodução Instagram)
- Artesã tira fotografia de peças de roupa em cima da cama e, com Gemini, aplica fotos em imagens de modelos sugeridas por IA para postar em redes sociais (reprodução Instagram)
Digital e informal
A maioria de quem aspira a empreender na internet permanece invisível, segundo o DeepLab. São negócios pequenos demais para contar, informais demais para regulamentar. Uma economia inteira funcionando dentro de plataformas privadas, não documentada e não regulamentada – por enquanto.
Na última quarta-feira (20/5), o Presidente Lula (PT) assinou decretos que atingem as big techs, com normas sobre violência contra mulheres e criando um órgão para controlar obrigações fixadas no Marco Civil da Internet.
O objetivo é ampliar a responsabilidade das plataformas no país sobre o que circula nos canais.
Enquanto isso, Laura explora as chances de fazer dinheiro.
“Qualquer pessoa pode aprender a mexer e anunciar”, atesta Laura.
Com mais concorrentes cobrando menos e entregando pior, a clientela caiu. Mesmo assim, Laura diz que ganha em dois dias o que demorava um mês para receber como CLT.










