Coletivo Slam de Surdes valoriza Libras como expressão de arte

Coletivo Slam de Surdes valoriza Libras como expressão de arte

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Tempo de leitura: 7 minutos

Criado em 2018, o coletivo Slam de Surdes traz poesia para diferentes periferias de São Paulo e reivindica a presença de pessoas surdas nas políticas públicas da cidade.

Samara Almeida

Na praça Roosevelt, no centro de São Paulo, as mãos se movimentam, o rosto acompanha a expressão, o olhar conduz e o corpo participa da poesia. Em uma batalha do Slam de Surdes, o lugar principal da poesia não é a fala.

Quando o coletivo foi criado, já existiam diversos slams e batalhas de poesia espalhados pela cidade, mas a barreira da comunicação dificultava a participação de pessoas surdas nesses lugares. 

“Não esperamos que alguém criasse esse espaço para nós. Nós mesmos construímos”, afirma Lara Gomes, integrante da produção do coletivo.

Thais Martins, responsável pela produção geral, explica que o Slam nasceu da necessidade de construir um lugar em que pessoas surdas não precisem adaptar primeiro suas experiências ao universo ouvinte para depois ocupar a arte. 

“Queríamos a arte que nascesse em Libras, pensado por e com a comunidade surda ocupando todos os lugares como poetas, artistas, produção, organização e público”, reforça. 

Lara Gomes e Thais Martins, produtoras do Slam de Surdes. (Foto: Divulgação)

A proposta também destaca que a comunidade surda não é homogênea. No Slam de Surdes, estão pessoas com diferentes histórias e realidades, pessoas surdas negras, LGBTQIAPN+, mulheres, periféricas, mães etc. A escolha do nome “Surdes”, é para refletir essa diversidade, segundo Thais. 

O coletivo não possui uma sede própria. A produção depende de parcerias para realizar suas atividades, além de avaliações internas da própria equipe em relação a estrutura, acessibilidade, equipe, intérpretes, equipamentos e recursos.

A falta de uma sede, porém, fez da circulação uma característica do coletivo.

“Essa circulação acabou se tornando uma característica importante do Slam, porque permite que a gente encontre públicos diferentes e leve a poesia em Libras para lugares onde muitas pessoas talvez nunca tenham tido contato com uma produção artística protagonizada por pessoas surdas”, afirma Lara.

A escolha da praça Roosevelt como um dos palcos dos encontros não foi por acaso.

Conhecida por ser um ponto cultural de movimentos independentes na capital paulista, o local contribui para a visibilidade da comunidade surda na cena cultural.

Lugares como o Sesc e o Instituto Tomie Ohtake receberam o Slam de Surdes, além de programações culturais como o Festival Mário de Andrade, da Biblioteca Mário de Andrade, em 2024.

Para quem faz parte do coletivo, ocupar o palco também significa questionar quem produz cultura, quem à acessa e quem participa das decisões políticas destinadas à comunidade surda. 

“A comunidade surda não quer mais ser apenas público. Quer ser protagonista!” é o que diz Edinho Santos, poeta e educador de artes que participa do Slam de Surdes.

Para ele, durante muito tempo pessoas surdas foram colocadas no lugar de quem precisava apenas receber políticas, serviços ou produções culturais criadas por outras pessoas. O Slam, nesse sentido, inverte essa lógica.

“Quando pessoas surdas se organizam, criam poesia, fazem batalha de rima, ocupam a rua e colocam a Libras no centro da cena, isso também é organização política.” afirma Edinho. 

Como funcionam as batalhas

As batalhas seguem regras características do slam. Os poemas são autorais, e cada participante tem até três minutos para se apresentar, enquanto cinco jurados atribuem notas de 0 a 10. O uso de objetos, adereços ou recursos externos para favorecer a performance não é permitido. 

Especialmente no Slam de Surdes, a regra reforça a identidade central da poesia em Libras: o corpo é parte da linguagem. Além das batalhas competitivas, o projeto  promove o “Slam Aberto”, momento em que qualquer pessoa pode apresentar uma poesia fora da competição. 

Para Edinho, a experiência ajuda o público a reconhecer que está diante de uma forma original de arte, fora da ideia de tradução. 

“Ela está entrando em contato com uma cultura que tem sua própria língua, sua própria estética e sua própria forma de fazer arte.”, reflete. 

Acessibilidade não só em eventos

A experiência do Slam também ajuda a fomentar uma discussão sobre as oportunidades da cena cultural.

Lara Martins explica que não basta apenas contratar um intérprete de libras para tornar uma atividade acessível, e o coletivo ajuda a reconhecer o cenário estético que ultrapassa o uso da língua sinais. 

Elementos de iluminação, posição no palco, distância entre artistas e público, circulação e disposição das cadeiras podem interferir diretamente na compreensão da performance.

Decisões estéticas que, para ela, não são consideradas nas produções artísticas gerais

“A acessibilidade ainda é pensada depois que tudo já foi decidido”, lamenta. 

 O problema aparece também quando o assunto é reconhecimento profissional. Pessoas surdas ainda precisam explicar que podem estar em diferentes funções dentro da produção cultural. 

“Nós somos artistas, produtores, poetas, educadores, apresentadores, coordenadores. Não queremos apenas acessar a cultura que outras pessoas criaram. Nós também produzimos cultura”, afirma Tais Martins.

Os direitos precisam ser permanentes

Em janeiro de 2025, a Lei Municipal nº 18.224 passou a assegurar às pessoas com deficiência auditiva o direito ao atendimento em Libras nas repartições públicas do Poder Executivo da cidade de São Paulo.

A legislação prevê o atendimento por servidores capacitados ou por meio de recursos tecnológicos que permitam a comunicação em Libras por vídeo, em tempo real.

No âmbito estadual, o programa São Paulo São Libras, criado em 2023, registrou 9.963 atendimentos em 2025, segundo dados divulgados pelo governo estadual em dezembro daquele ano.

O número representa um crescimento de 21,4% em relação a 2024.

Embora indiquem avanços na criação de mecanismos institucionais de acessibilidade, a legislação e os dados de atendimento não permitem avaliar se o direito à comunicação em Libras está garantido de maneira contínua nos serviços públicos.

Para Edinho Santos, o desafio está em fazer com que a acessibilidade deixe de ser uma solução pontual e se torne uma condição permanente nos serviços públicos e na cidade.

“O coletivo não substitui política pública. Ele mostra a urgência dela”, reforça o poeta. 

Edição: Agnes Sofia 

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