Desde que a morte nos separou: entre a dor e a redescoberta individual, viúvas tentam se reinventar após o luto

Desde que a morte nos separou: entre a dor e a redescoberta individual, viúvas tentam se reinventar após o luto

Mulheres das periferias da Zona Sul paulistana sentem o luto no corpo, no trabalho e no afetos, mas também encontram autonomia

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Por Adriana Novaes. Edição: Thiago Borges

O Dia dos Namorados, data comercial celebrada nesta sexta-feira (12/6), é mais um momento que marca o intervalo entre a falta e a necessidade de continuar para Maria Erivania de Oliveira, de 38 anos.

Há um ano e meio, a diarista que vive no Capão Redondo (Zona Sul de São Paulo), tenta se reorganizar depois da morte do marido Wagner Rodrigues Figueiredo, que faleceu aos 36 anos.

Enquanto cria sozinha um filho de 11 anos e outro de 6, ela convive com a sensação de que parte da própria vida ficou suspensa no instante em que a rotina compartilhada deixou de existir.

Maria Erivânia em foto com o marido Wagner e filhos (arquivo pessoal)

Maria Erivânia em foto com o marido Wagner e filhos (arquivo pessoal)

“Dou risada por fora, mas com o coração sangrando”, diz ela, sem pressa, como quem descreve algo que já virou parte do corpo, e não apenas da memória.

O luto se mistura ao trabalho, ao cuidado dos filhos e às tarefas do cotidiano que continuam chegando, mesmo quando tudo por dentro parece parado.

A viuvez segundo os gêneros

Perder um companheiro pode reorganizar completamente a vida de quem fica, mas homens e mulheres atravessam a viuvez de formas diferentes. É o que diz um estudo publicado em fevereiro de 2026, pelas universidades de Boston (Estados Unidos), e de Chiba (Japão).

Se os homens viúvos apresentam maior risco de desenvolver depressão, demência e até mortalidade após a perda da parceira, muitas mulheres que ficam sem o companheiro demonstraram maior capacidade de adaptação ao longo do tempo, especialmente fora das responsabilidades domésticas e familiares.

Nas periferias de São Paulo, no entanto, isso pode significar trabalho, sobrecarga, sobrevivência e solidão.

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Luto privado de direitos 

Casada por 13 anos, o dia de Maria era marcado por pequenos gestos como mensagens de bom dia, perguntas sobre o trabalho, alguém esperando sua chegada em casa.

No lugar disso, ficaram o silêncio e julgamento de outras pessoas, como se até o direito de sofrer precisasse ser disputado.

Maria Carolina Rissoni Andery, responsável técnica do Instituto Risan (divulgação)

Maria Carolina Rissoni Andery, responsável técnica do Instituto Risan (divulgação)

Em contextos periféricos, esse sofrimento passa por urgências práticas, já que muitas mulheres vivem um “luto privado de direitos”, segundo a psicóloga Maria Carolina Rissoni Andery, responsável técnica do Instituto Risan.

A especialista, que é doutora em Psicologia Clínica e mestre em Psicologia Social, destaca que o luto não se limita à dor emocional e pode aparecer como insônia, alterações de apetite, ansiedade, dificuldades de concentração e desorganização mental.

E se a viúva não consegue interromper a rotina para elaborar a perda, o luto muitas vezes é vivido entre uma obrigação e outra da rotina.

Para a também psicóloga clínica Paloma de Abreu Silva Dias, muitas mulheres periféricas entram em estado constante de sobrevivência emocional após a perda.

Retomada precoce

A ideia de “seguir em frente” nem sempre nasce de um desejo interno de reconstrução, mas de pressões econômicas e sociais que exigem rapidez na retomada da vida.

No caso de Maria, os filhos se tornaram o principal ponto de sustentação nos primeiros meses após a perda.

“Quando ele faleceu, eu procurava alguma maneira de me encontrar com ele, de morrer, de fazer algo pra estar perto dele. Tenho certeza de que, se não fossem meus filhos, eu estaria com o Wagner onde ele estivesse”.

Maria descreve uma sensação de culpa, como se qualquer movimento em direção à leveza ou ao prazer precisasse ser negociado com a memória do companheiro.

Maria Erivânia em foto com o marido Wagner e filhos, no estádio do Morumbi (arquivo pessoal)

Maria Erivânia em foto com o marido Wagner e filhos, no estádio do Morumbi (arquivo pessoal)

“Eu ainda estou trabalhando isso dentro de mim”.

Para Paloma, o sentimento é comum em processos de viuvez. A psicóloga explica que o luto saudável não significa esquecer o companheiro, mas aprender a seguir existindo sem apagar a importância daquela relação.

Oportunidade de mudança

Se para Maria a viuvez ainda é atravessada pela dor e pela tentativa constante de reconstrução, para Vergínia Carolina de Assis o acontecimento abriu outro caminho: a percepção de uma autonomia que não existia no casamento.

Aos 68 anos, a moradora do Grajaú (Extremo Sul) foi casada por 19 e está viúva há 29.

Mãe de dois filhos e avó de duas netas, foi depois da perda do  marido Cícero Cordeiro de Assis, então com 43 anos, que Vergínia experimentou novas possibilidades.

Ela passou a ter uma relação diferente consigo mesma, com a casa e com o dinheiro que passou a administrar sozinha.

“Hoje eu gosto da viuvez, porque domino meu dinheiro e não tenho ninguém buzinando no meu ouvido”, diz ela.

Até a morte, Vergínia vivia uma solidão dentro do relacionamento, como se o casamento não significasse companhia ou divisão de responsabilidades domésticas.

“Na minha época, mulher se casava pra cuidar dos filhos e do marido”, afirma ela, que antes do casamento era vendedora e se tornou dona de casa.

Mãos dadas de Neuza Nascimento (ela/dela), à esquerda da foto; e Marly Teixeira (ela/dela), à direita.

“A prejudicada da história fui eu, porque fiquei sem dinheiro e totalmente dependente dele”, diz Vergínia, que desde então se mantém com a pensão de viúva.

Hoje, ela valoriza momentos como dormir tranquila, cuidar da casa sem cobranças externas, passear com as irmãs ou simplesmente aproveitar a própria companhia.

Verginia também decidiu que não quer relacionamentos – não por falta de desejo de afeto, mas porque encontrou na solitude uma forma mais leve de existir.

“Desde a primeira semana da viuvez, eu falei que não ia arrumar outro amor.”

A redescoberta de si

Paloma de Abreu Silva Dias, psicóloga (arquivo pessoal)

Paloma de Abreu Silva Dias, psicóloga (arquivo pessoal)

Paloma explica que muitas mulheres acabam descobrindo formas de autonomia que nunca imaginaram possuir antes da viuvez.

“Muitas aprendem a administrar a vida financeira, tomar decisões sozinhas e reorganizar a própria rotina. Isso não significa que a dor foi positiva, mas mostra como o ser humano desenvolve recursos internos em situações muito difíceis”, analisa.

Maria Carolina aponta que a viuvez pode provocar uma reorganização profunda da identidade, porque ninguém atravessa a perda de alguém importante sem rever a própria forma de existir no mundo.

Nesse processo, muitas mulheres passam a lidar com diferentes versões de si: entre quem eram antes da relação, quem se tornaram dentro dela e quem começam a descobrir depois da ausência.

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Mas o luto não segue uma linha reta e pode alternar momentos de reconstrução e felicidade com períodos de tristeza intensa e saudade profunda.

Por isso, o apoio coletivo pode fazer diferença no processo de reconstrução emocional.

“O luto tende a pesar mais quando a mulher sente que precisa carregar tudo sozinha. O acolhimento da comunidade, da família ou de amigos ajuda a reduzir a sensação de abandono e isolamento”, afirma Paloma.

Entre trajetórias que se cruzam sem se repetir, como as de Maria e Vergínia, o que aparece não é uma resposta única sobre o que a viuvez significa para mulheres periféricas.

Os diferentes caminhos são atravessados por desigualdades que moldam a forma como cada mulher consegue continuar existindo depois da perda.

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