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Por Khadja Ferraz.
Levar uma criança à creche, acompanhar um idoso na consulta médica, recorrer à igreja ou associação de bairro quando falta dinheiro, comida ou orientação.
As redes de solidariedade fazem parte do cotidiano das periferias. O problema aparece quando essa rede não consegue atender às necessidades.
Por isso, as redes de apoio dependem de políticas públicas para funcionar.
Nesta reportagem, a Periferia em Movimento buscou candidaturas de pessoas periféricas ao Poder Legislativo e de diferentes partidos e vertentes políticas. A candidata a deputada estadual Najara Costa (PC do B) e o postulante a deputado federal Vagner Fernandes (Republicanos) conversaram com a equipe.
Integração entre serviços
Vereadora em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, a candidata Najara Costa (PCdoB) diz que um dos maiores problemas está na falta de integração entre os serviços.
“Muitas vezes, a família precisa buscar cada atendimento separadamente, sem uma rede que acompanhe suas necessidades de forma integrada” – Najara Costa.
A Política Nacional de Cuidados, criada pela Lei nº 15.069/2024, reconhece o cuidado como direito e estabelece que sua implementação é dever do Estado, em corresponsabilidade com famílias, sociedade civil e setor privado.
A política reúne saúde, assistência social, educação, trabalho, renda e mobilidade.
A lei também prevê ações para reduzir a sobrecarga do trabalho de cuidado não remunerado, historicamente concentrado nas mulheres, e ampliar a corresponsabilidade entre homens e mulheres.
Para Najara, transformar as redes de apoio em política permanente passa por integrar os serviços e priorizar quem mais precisa. “Precisa ser política permanente, não ação temporária”, defende.
- Najara Costa, candidata a deputada estadual pelo PC do B (foto divulgação)
- Vagner Fernandes, candidato a deputado federal pelo Republicanos (foto divulgação)
Igreja e comunidade como parceiras
Em Parelheiros, no Extremo Sul de São Paulo, Vagner Fernandes (Republicanos), também defende que o Estado tenha mais responsabilidade pelos direitos básicos.
Ao mesmo tempo, o líder comunitário evangélico destaca o papel de igrejas e organizações que já atuam nos territórios.
“As igrejas e as organizações comunitárias têm um papel fundamental no atendimento às famílias mais vulneráveis de Parelheiros. Muitas vezes, elas são as primeiras a chegar onde o poder público ainda não conseguiu”, afirma.
Segundo ele, essas redes ajudam com alimentos, roupas, acolhimento, orientação e apoio a crianças e pessoas idosas. Mas ele diz que a atuação religiosa não deve substituir as políticas públicas.
“A solidariedade da comunidade não pode substituir a responsabilidade do poder público” – Vagner Fernandes.
A ideia também aparece na fala de Najara.
Para ela, igrejas e organizações sociais devem ser parceiras do poder público por conhecerem os territórios, mas sem ocupar o lugar do Estado.
Quando houver recursos públicos para essas entidades, Najara defende que tenha critérios públicos, seleção transparente, metas, prestação de contas e fiscalização.
Vagner defende regras para garantir que os recursos sejam aplicados de forma igualitária, independentemente da religião. “O cidadão atendido também não pode ser obrigado a participar de atividades religiosas”, afirma.
Da creche ao CAPS
O debate passa por serviços que precisam estar disponíveis antes que uma família chegue ao limite.
Além do Estado, Vagner acredita que organizações do território poder ser fortalecidas em parcerias para creches, atendimento à terceira idade e saúde mental.
“São direitos que precisam estar disponíveis para toda a população, de forma permanente, gratuita e com qualidade”, afirma.
Na saúde mental, ele propõe fortalecer a rede pública, com CAPS e unidades básicas preparadas para acolhimento psicológico, além de atendimento para crianças e adolescentes e acompanhamento das famílias.
Najara também coloca a saúde mental como prioridade e defende ampliar o atendimento psicológico e fortalecer os serviços próximos das comunidades.
Cuidado antes da emergência
Mais do que responder quando a família já está em crise, as duas candidaturas defendem uma rede capaz de identificar dificuldades antes que elas se agravem.
Najara aposta em serviços integrados.
Vagner propõe uma Rede de Proteção e Apoio Familiar, com fortalecimento dos CRAS e da atenção básica, atendimento psicológico e social e integração entre escolas, unidades de saúde, igrejas e organizações sociais.
As propostas conversam com a Política Nacional de Cuidados e, apesar das diferenças políticas e religiosas, há um ponto de encontro: famílias periféricas precisam de redes de apoio que não dependam apenas de favores.
Para Najara, o caminho passa pela “força das redes comunitárias”. Para Vagner, “solidariedade é fundamental, mas direito não pode ser favor”.
Edição: Thiago Borges. Fotos: Pedro Salvador (arquivo Periferia em Movimento)






