Entre o primeiro emprego e o corre: o que os planos de governo propõem para a juventude periférica viver do próprio trabalho

Entre o primeiro emprego e o corre: o que os planos de governo propõem para a juventude periférica viver do próprio trabalho

Qualificação, carteira assinada, empreendedorismo, redução da jornada e aumento da renda aparecem entre as respostas das candidaturas ao Governo de SP e à Presidência.

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Tempo de leitura: 10 minutos

Por Christiane Figueiredo

Conseguir o primeiro emprego costuma ser um grande marco da juventude.

Mas entrar no mercado é só o começo. Para milhões de jovens, trabalhar significa equilibrar emprego e estudo, encarar salários baixos, informalidade e rotinas exaustivas ou buscar um jeito de fazer renda por conta própria.

Segundo a PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) do IBGE, em 2025, 17,5% dos brasileiros de 15 a 29 anos não estavam ocupados, estudando ou fazendo qualificação. Entre as mulheres, eram 22,8%, contra 12,4% dos homens.

Entre jovens pretos ou pardos, 19,8%, diante de 14% dos brancos.

É nesse cenário que as candidaturas ao Governo de São Paulo e à Presidência apresentam diferentes caminhos para trabalho e renda.

Na disputa pela Presidência, a reportagem considera as propostas de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), que lideram as pesquisas de intenção de voto, e de Samara Martins (UP) e Hertz Dias (PSTU), incluídos por seus vínculos com as periferias, em linha com o recorte editorial da Periferia em Movimento.

Para o Governo de São Paulo, foram analisados os programas de todas as candidaturas.

Da escola para o trabalho

Uma das saídas mais presentes nos planos é criar uma ponte entre os estudos e a primeira vaga.

Entre as candidaturas ao Governo de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) aposta no Qualifica SP, com ações voltadas ao primeiro emprego, à qualificação e ao empreendedorismo.

O plano também prevê capacitação em áreas da economia criativa e digital para jovens de 16 a 29 anos de regiões periféricas e vulneráveis, com prioridade para quem não estuda nem trabalha e para egressos do ensino médio público.

Fernando Haddad (PT) propõe aproximar o ensino médio da formação profissional por meio do Centro Paula Souza, das Etecs e Fatecs.

Nos territórios mais atingidos pela violência, prevê programas de mentoria e primeiro emprego para jovens mais expostos ao recrutamento pelo crime, além de um Alistamento Civil Remunerado para jovens em situação de vulnerabilidade.

Vivian Mendes (UP) propõe ampliar a qualificação profissional, fortalecer Etecs e Fatecs e criar programas de incentivo ao primeiro emprego com direitos trabalhistas.

Carlos Machado (PCB) prevê ampliar Etecs e Fatecs, integrar a formação profissional à política de reindustrialização e ampliar programas de primeiro emprego para jovens.

Na disputa pela Presidência, Lula (PT) propõe fortalecer a aprendizagem profissional e continuar a expansão dos Institutos Federais, priorizando periferias urbanas e municípios com baixa oferta de cursos técnicos.

Flávio Bolsonaro (PL) propõe ampliar a educação técnica no ensino médio em parceria com o setor produtivo.

Para facilitar a entrada no mercado de trabalho, prevê um contrato específico para jovens de 18 a 24 anos em busca do primeiro emprego, com redução do custo de contratação para as empresas.

Samara Martins (UP) prevê uma política nacional de aprendizagem e estágios com formação, remuneração e direitos, além de emprego formal para jovens.

Hertz Dias (PSTU) propõe ampliar a formação técnica conectada às vocações econômicas regionais, com orientação de carreira e aprendizagem profissional.

Conseguir vaga é uma coisa. A rotina de trabalho é outra

Ter emprego garante renda, mas não necessariamente estabilidade. Por isso, jornada, direitos e trabalho por aplicativo também aparecem nos programas.

Entre as candidaturas ao Governo de São Paulo, Vera Lúcia (PSTU) propõe reduzir a jornada de trabalho para ampliar os postos formais.

Para trabalhadores de aplicativos, defende remuneração mínima por hora, contribuição das plataformas à Previdência e a criação de uma plataforma pública estadual de transporte e entregas administrada pelos trabalhadores.

Vivian Mendes (UP) defende o fim da escala 6×1, a redução da jornada sem corte salarial e a regulamentação do trabalho por plataformas digitais com garantia de direitos.

Carlos Machado (PCB) trata a plataformização como uma forma de precarização associada à ausência de direitos, à instabilidade e aos baixos salários.

Izadora Dias (PCO) defende jornada máxima de 35 horas semanais e salário-desemprego equivalente ao último salário recebido.

O documento da candidatura se apresenta como um “programa de luta”, e não como um plano administrativo tradicional.

Na disputa pela Presidência, Lula (PT) incorpora ao programa a redução da jornada para 40 horas semanais, sem corte salarial, e o fim da escala 6×1, dando continuidade à proposta encaminhada por seu governo ao Congresso em 2026.

Para quem trabalha por aplicativos, propõe um sistema de proteção com regras sobre remuneração, condições de trabalho e direitos trabalhistas e previdenciários, além de transparência dos algoritmos.

Flávio Bolsonaro (PL) propõe ampliar a possibilidade de jornadas flexíveis e defende que empresas e trabalhadores possam negociar diretamente as condições de trabalho, dentro dos limites da lei.

Para quem trabalha por aplicativos, o programa afirma que pretende preservar as oportunidades de renda oferecidas pelas plataformas e assegurar proteção social e previdenciária.

Samara Martins (UP) propõe jornada de 30 horas semanais, sem redução salarial, com escala 4×3 ou turnos de seis horas.

Para trabalhadores de aplicativos, defende salário mínimo por hora, acesso à seguridade social e transparência dos algoritmos.

Quando trabalhar significa criar a própria renda

Para boa parte da juventude, a renda não vem de um contrato assinado. Vem do comércio, de serviços, das entregas por aplicativo ou do trabalho autônomo.

É aí que crédito, cooperativismo e empreendedorismo entram em cena, embora representem caminhos diferentes.

Entre as candidaturas ao Governo de São Paulo, Tarcísio de Freitas propõe ampliar linhas de crédito e microcrédito por meio da Desenvolve SP e do Banco do Povo.

Haddad prevê ampliar o acesso ao crédito, apoiar a formalização e facilitar a participação de pequenos negócios nas compras públicas.

Vivian Mendes propõe crédito público e apoio a cooperativas, empreendimentos solidários e trabalhadores autônomos.

Na disputa pela Presidência, Lula propõe ampliar políticas para trabalhadores autônomos e pequenos empreendedores, com crédito produtivo e qualificação, além de fortalecer cooperativas e iniciativas da economia popular e solidária.

Flávio Bolsonaro apresenta o Minha Primeira Empresa, voltado a jovens que querem abrir o próprio negócio, com simplificação da formalização, capacitação pelo Sistema S e acesso a crédito e serviços da Caixa.

Hertz Dias propõe ampliar o crédito produtivo e as garantias para pequenos negócios, acompanhados de capacitação gerencial e digital, além de facilitar a participação desses empreendimentos nas compras públicas.

O salário no fim do mês e o custo de vida

Existe uma conta que atravessa o emprego formal, o bico e o corre autônomo: quanto o dinheiro rende depois de pagar as despesas de casa?

Entre as candidaturas ao Governo de São Paulo, Vera Lúcia propõe reduzir impostos sobre alimentos, gás e energia.

Carlos Machado defende maior tributação sobre patrimônio e grandes heranças, enquanto Izadora Dias propõe reduzir impostos sobre o consumo e aumentar a cobrança sobre grandes fortunas.

Diversas candidaturas mencionam salário mínimo (Foto: Agência Brasil)

Na disputa pela Presidência, Lula defende manter a política de valorização real do salário mínimo e implementar medidas previstas na reforma tributária para reduzir o peso dos impostos sobre o consumo das famílias de menor renda, como a alíquota zero da cesta básica e o cashback.

Samara Martins propõe aumento imediato de 100% do salário mínimo e, posteriormente, uma política de valorização acima da inflação, tendo como referência o custo de vida calculado pelo Dieese.

Flávio Bolsonaro não apresenta no plano uma política específica de aumento do salário mínimo.

O programa propõe reduzir impostos sobre bens e serviços considerados essenciais, com mudanças na reforma tributária aprovada.

Candidaturas ao Governo de São Paulo

CandidaturaPrincipais propostas sobre juventude, trabalho e renda
Tarcísio de Freitas (Republicanos)Qualificação, primeiro emprego, economia digital, empreendedorismo e microcrédito
Fernando Haddad (PT)Formação profissional, primeiro emprego, crédito e apoio a pequenos negócios
Vera Lúcia (PSTU)Primeiro emprego com direitos, redução da jornada e direitos para trabalhadores de aplicativos
Vivian Mendes (UP)Formação profissional, primeiro emprego, redução da jornada e apoio a cooperativas
Carlos Machado (PCB)Formação profissional, primeiro emprego, reindustrialização e economia solidária
Izadora Dias (PCO)Jornada de 35 horas, proteção à renda e tributação de grandes fortunas

Candidaturas à Presidência

CandidaturaPrincipais propostas sobre juventude, trabalho e renda
Lula (PT)Aprendizagem profissional, Institutos Federais, jornada de 40 horas e proteção no trabalho por aplicativos
Flávio Bolsonaro (PL)Ensino técnico, contrato para primeiro emprego, jornada flexível e Minha Primeira Empresa
Samara Martins (UP)Aprendizagem com direitos, jornada de 30 horas, direitos no trabalho por aplicativos e aumento do salário mínimo
Hertz Dias (PSTU)Formação técnica, aprendizagem profissional, crédito e pequenos negócios

Edição: Agnes Sofia 

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