No mês de conscientização sobre direitos da pessoa idosa, grupo enfrenta invisibilidade nas estatísticas oficiais enquanto lida com estigmas e barreiras de acesso a direitos no dia a dia
Raquel Athaide
Aos 42 anos, o pedagogo Luiz Fernando Prado Uchoa é um homem trans, morador do Jardim Ipanema, em Guarulhos. Para ele, a solidão familiar é um dos principais fatores que o fazem sentir a passagem do tempo.
Quando um homem trans tem um vínculo familiar, é uma rede que poucos têm. Porque a maioria rompe.”, desabafa.
Apesar dos altos índices de violência direcionado ao grupo, a população trans está envelhecendo no país.
Historicamente, a expectativa de vida de pessoas trans no Brasil tem sido estimada em 35 anos, número frequentemente atribuído à Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA).
Embora amplamente difundido para chamar a atenção para a violência e a vulnerabilidade social enfrentadas por essa população, o dado não tem origem em um levantamento demográfico que permita comprovar essa expectativa de vida.
A estimativa foi associada a relatos de ativistas e passou a circular em estudos e publicações sobre o tema.
Os levantamentos da ANTRA, por sua vez, mostram que a violência letal atinge principalmente pessoas trans jovens, mas a idade das vítimas de assassinato não pode ser confundida com a expectativa de vida de toda a população trans.
Um estudo publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em 2025, identificou 312 pessoas trans entre 60 e 64 anos e outras 1.349 entre 50 e 59 anos em registros administrativos referentes a 2023.
Embora os números não representem toda a população trans brasileira, ajudam a evidenciar trajetórias de envelhecimento que recebem pouca atenção nas políticas públicas.

Luis Fernando Prado Uchôa. (Foto: Acervo Pessoal)
Em 2026, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) retomou uma pesquisa nacional para investigar as condições de vida de travestis e mulheres trans mais velhas, com atenção às pessoas a partir dos 50 anos.
Mas se a legislação brasileira considera idosa a pessoa com 60 anos ou mais, pessoas trans enfrentam vulnerabilidades sociais e de saúde que tornam o envelhecimento diferente do vivido por pessoas cisgênero.
O sentir-se mais velho pode chegar até mesmo da idade considerada oficial para a pessoa idosa, explica Lorenzo Godoy, consultor jurídico do Instituto Brasileiro de Transmasculinidades (IBRAT).
“A violência, a exclusão e a falta de acesso à saúde fazem com que muitas pessoas trans não cheguem à velhice como conhecemos.”, reflete.
Desprezo de profissionais da saúde
Esther Antunes é travesti, diretora de teatro e tem 66 anos. Ela conta que hoje enfrenta o envelhecimento com medo e com a sensação de se sentir em isolamento até mesmo entre a comunidade LGBTQIAPN+.
“Há uma indiferença com as travestis mais velhas. Quando olham para a gente, olham com desprezo, até nos atendimentos médicos”, conta Esther.
Maya Schneyder, mulher preta e trans de 48 anos, também sente a falta de acolhimento do sistema de saúde.
“A gente vai ao SUS e descobre que não há um profissional especializado e, quando há, ele se nega a prestar atendimento para os corpos trans, com a justificativa de não saber lidar com esses tipos de corpo.”, reclama.

Esther Antunes. (Foto: Acervo Pessoal)
Para o geriatra Milton Crenitte, coordenador médico do Ambulatório Trans 40+, o despreparo não deveria ser aceito como justificativa, já que existem manuais de acesso gratuito, como o da Prefeitura de São Paulo, com o protocolo de atendimento a pessoas trans, com diretrizes específicas e que podem ser aplicadas no Sistema Único de Saúde.
O protocolo da Secretaria Municipal da Saúde da cidade de São Paulo reconhece que a velhice trans soma o preconceito contra a idade ao preconceito contra a identidade, o que aumenta o isolamento, o risco de ruptura com a família e o medo de procurar atendimento.
O documento admite que a falta de preparo das equipes é uma barreira.
O acesso começa pela UBS, onde a equipe deve avaliar moradia, renda, rede de apoio e acionar a assistência social quando necessário.
Sobre a hormonização, o protocolo explica que há pouca evidência científica sobre a segurança do tratamento em idosas e pede condutas individualizadas.
“A primeira coisa é a gente pensar qual é o hormônio e qual é a via mais segura para cada pessoa e faixa etária.”, Crenitte reforça.
O médico também defende que a hormonização e o acompanhamento estejam na UBS do bairro, e não apenas em grandes centros.
No Sistema Único de Saúde (SUS), a Portaria nº 2.803/2013 organiza o atendimento a pessoas trans, que pode envolver acompanhamento nas UBS e em serviços especializados.
Porém, há uma possível barreira para pessoas com mais de 75 anos: a tabela SIGTAP, usada para registrar os procedimentos realizados pelo SUS, estabelece um limite de idade para o registro da hormonização, até 75 anos e 11 meses.

Maya Schneyder (Foto: Acervo Pessoal)
Para Lorenzo Godoy, houve avanços, mas o acesso continua desigual e insuficiente. “O Processo Transexualizador do SUS ainda é regido por uma portaria de 2013, com poucos serviços habilitados e longas filas”, explica. Na periferia, o obstáculo é ainda maior: “Os serviços de referência se concentram em poucas regiões da cidade, e manter um acompanhamento regular exige tempo e dinheiro de transporte que muitas dessas pessoas não têm.”, alerta.
Sobre os serviços, a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES-SP) informa que o Centro de Referência e Treinamento DST/Aids-SP mantém o Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais (ASITT), que atende pessoas com 50 anos ou mais. A unidade também desenvolve o Grupo Vida Ativa, voltado a pessoas trans e travestis com HIV a partir dos 50, em parceria com a Unifesp.
A Secretaria Municipal da Saúde, por sua vez, informa que atende a população idosa LGBTQIAPN+ pela Rede Sampa Trans e pela Atenção Básica, com equipes que seguem o protocolo da cidade e recebem capacitações regulares sobre as especificidades dessa população.
A aposentadoria que não chega para todos
Quando o assunto é aposentadoria, Maya apresenta descrença no processo. “Eu não acredito que uma pessoa trans com mais de 40 anos vai conseguir uma aposentadoria, porque ela nem vai ter tempo de vida para aquilo”, opina.
Luiz Fernando Prado vê essa descrença antes mesmo da contribuição. “Essa população não tem uma ideia de planejar futuro, porque a gente não se vê vivo devido a uma série de fatores de insegurança”, afirma.
Em nota, o INSS informou que, desde a decisão do STF na ADI 4275, é possível alterar nome e gênero no registro civil, mas que a mudança não tem efeito imediato na Previdência, que segue regras próprias.
Como não há regulamentação específica, o órgão usa o gênero do cadastro previdenciário para definir os critérios de aposentadoria. O INSS diz não ter dados sobre segurados trans nem protocolo de atendimento para pessoas trans idosas nas agências.
Segundo o advogado previdenciário Victor Cerqueira Lima, quem tem pouca ou nenhuma contribuição pode recorrer ao Benefício de Prestação Continuada (BPC/LOAS), benefício assistencial que, em geral, exige 65 anos ou deficiência e comprovação de renda familiar per capita de até um quarto do salário mínimo. Ele reconhece, porém, que o INSS ainda impõe barreiras.
“Ultimamente o INSS tem sido bem burocrático quanto a isso.”, denuncia.
Quem acolhe quem envelhece
No setor público, a Prefeitura de São Paulo informa que os cinco Centros de Referência e Cidadania LGBTI+ atenderam 310 pessoas trans com mais de 50 anos desde dezembro de 2024.
Já os quatro serviços de acolhimento exclusivos da cidade abrigam atualmente apenas uma pessoa com mais de 60 anos.
Diante do alcance limitado das respostas governamentais, entidades comunitárias assumem um papel vital.
A EternamenteSOU, organização voltada para a defesa de direitos, acolhimento e cuidado psicossocial de pessoas idosas LGBTQIAPN+, tenta incluir essa população invisibilizada.
Esther Antunes reconhece a importância do trabalho, mas aponta lacunas.
“Ainda observamos uma dificuldade de levar as travestis para lá”, observa
A própria entidade admite os limites.
“Nós somos uma entidade que não recebe apoio financeiro de ninguém, do Estado, nada disso. A gente trabalha com emendas quando tem, doações e tudo mais”, conta Luís Baron, presidente da ONG.
Em São Paulo, o projeto do Consultório na Rua atende mulheres trans e travestis a partir dos 35 anos.
Luiz Fernando lembra que mesmo os serviços voltados à população trans ainda são limitados em relação a todos os recortes do grupos.
“A gente ainda não está falando o suficiente das velhices trans masculinas”, destaca.
Edição: Agnes Sofia Guimarães


