Levantamento da Periferia em Movimento analisa ocupações declaradas ao TSE para investigar a presença de trabalhadores na disputa e as diferenças de raça, espaço nos partidos e acesso ao Fundo Eleitoral
Agnes Sofia Guimarães
Quem chega à disputa eleitoral quando olhamos para profissões presentes no cotidiano das periferias?
Das 2.610 candidaturas registradas em São Paulo para as eleições de 2026, 174 estão em um recorte de ocupações selecionado pela Periferia em Movimento para investigar a presença da classe trabalhadora nas urnas.
São 6,7% dos nomes na disputa, mas concentram 2,8% dos R$ 3,635 milhões do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) registrados até o período analisado pela reportagem.
O recorte também revela diferenças na composição racial e na presença dentro dos partidos.
Pessoas negras representam 39,7% dessas candidaturas, percentual maior do que o da população negra no estado (30,4%).
E, enquanto em algumas legendas as ocupações analisadas correspondem a mais de um terço da chapa, em outras não chegam a 5%.
Os dados não permitem dizer que essas 174 candidaturas são, necessariamente, periféricas.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não informa o território de residência das candidaturas e uma profissão, sozinha, não determina classe social, renda ou pertencimento territorial.
O que o levantamento faz é mudar a lente do raio-X eleitoral: em vez de observar apenas as ocupações mais numerosas, aproxima o olhar de trabalhos de menor remuneração e de setores como serviços, transporte, comércio, cuidado, indústria e trabalho manual e técnico.
A partir desse recorte, é possível perguntar quem encontra espaço na disputa, em quais partidos e com quais condições financeiras para fazer campanha.
A seleção não significa que profissionais fora dessas categorias não sejam pessoas trabalhadoras ou não pertençam às periferias.
A metodologia funciona como uma lente para observar como determinadas posições no mundo do trabalho aparecem na eleição.

Das ruas e dos serviços para a disputa eleitoral
Entre as 174 candidaturas encontradas, 101 disputam uma vaga de deputada ou deputado estadual, o equivalente a 58% do recorte. Outras 67 concorrem a deputada ou deputado federal, ou 38,5%.
Há ainda quatro candidaturas a primeiro suplente e duas ao Senado.
Somadas, as disputas para deputada ou deputado estadual e federal concentram 96,5% do recorte.

O que está em disputa em 2026?
Presidente da República: chefia o Poder Executivo federal, administra o governo federal, propõe políticas públicas e orçamento e representa o país nas relações internacionais.
Governador ou governadora: chefia o Executivo estadual e é responsável pela administração de áreas estaduais, como segurança pública, parte da educação, saúde, transporte e infraestrutura.
Senador ou senadora: representa o estado no Senado Federal. Entre suas atribuições estão votar leis nacionais e analisar decisões que cabem especificamente ao Senado.
Deputado ou deputada federal: representa a população do estado na Câmara dos Deputados, vota leis nacionais, fiscaliza o governo federal e participa das decisões sobre o orçamento da União.
Deputado ou deputada estadual: atua na Assembleia Legislativa, vota leis estaduais, fiscaliza o governo do estado e participa das decisões sobre o orçamento paulista.
O espaço muda de partido para partido
A presença das ocupações analisadas varia bastante entre as legendas.
Em números absolutos, o partido Democracia Cristã (DC) reúne 21 candidaturas do recorte, seguido pelo Agir, com 19; Mobiliza, com 18; Missão, com 17; e Novo, com 13. Mas esses números são influenciados pelo tamanho das chapas. Quando a comparação considera qual parcela das candidaturas de cada partido pertence ao recorte, a fotografia muda.
No PSTU, seis das 16 candidaturas registradas em São Paulo estão entre as ocupações selecionadas, o equivalente a 37,5% da chapa.
Na Unidade Popular (UP), são seis entre 17, ou 35,3%. No Mobiliza, 18 das 67 candidaturas correspondem ao recorte, 26,9%.
Na sequência aparecem Democrata, com 22%; Agir, com 19,2%; Missão, com 14,3%; DC, com 12,7%; e PSOL, com 12,6%.
Em outras legendas, a participação é bem menor. As ocupações selecionadas representam 4,4% das candidaturas do MDB, 4,1% das do Republicanos, 3,8% das do União, 3,1% das do PT, 3% das do PL e 2% das do Podemos.
As diferenças não permitem concluir, sozinhas, que uma legenda represente mais ou menos as periferias.
Elas mostram, porém, quanto espaço essas ocupações específicas encontram na composição de cada chapa.

Quando muda a ocupação, muda também a cor da disputa
A composição racial é uma das diferenças mais marcantes entre o conjunto das candidaturas e o recorte feito pela reportagem.
Entre os 2.610 nomes registrados em São Paulo, 30,4% são pessoas pretas ou pardas, agrupadas nesta análise como negras.
Pessoas brancas representam 68,1%. Outros registros de raça/cor ou casos sem informação, 1,5%.
Quando a análise se restringe às 174 candidaturas das ocupações selecionadas, a participação negra sobe para 39,7%. A branca cai para 58%, enquanto outros registros correspondem a 2,3%.
São 9,3 pontos percentuais de diferença na presença negra entre os dois grupos.
Isso significa que o retrato das candidaturas paulistas fica mais negro quando a lente se aproxima de ocupações ligadas a setores de serviços, transporte, comércio, cuidado, indústria e trabalhos manuais e técnicos.

O resultado também ajuda a mostrar um limite de análises eleitorais baseadas apenas nos perfis mais numerosos.
Se empresários e advogados aparecem entre as ocupações mais frequentes na eleição paulista, observar outros setores do mundo do trabalho revela uma composição diferente daquela encontrada no retrato geral.
Estar na urna não significa disputar nas mesmas condições
A diferença aparece também quando o olhar passa da presença nas candidaturas para o financiamento das campanhas.
As 174 candidaturas analisadas correspondem a 6,7% de todos os registros em São Paulo, mas concentram 2,8% do valor do FEFC declarado até o período analisado.
A comparação ainda é um retrato inicial da eleição. Os dados de prestação de contas são atualizados durante a campanha e novos repasses podem alterar significativamente a distribuição. Por isso, os números não representam a divisão final do Fundo Eleitoral em São Paulo.
Ainda assim, eles permitem distinguir duas dimensões da representação política: ter um nome disponível para o eleitorado na urna e ter recursos para colocá-lo em circulação durante uma campanha.
O dinheiro influencia a capacidade de produzir materiais, contratar equipes, fazer comunicação, circular pelo estado e alcançar eleitores.
Por isso, observar apenas o número de candidaturas não é suficiente para entender as condições em que diferentes grupos entram na disputa.
Pessoas negras também têm participação menor no Fundo Eleitoral
A diferença racial também aparece nos primeiros registros de distribuição do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), conhecido como Fundo Eleitoral.
Formado por recursos públicos, o fundo é uma das principais fontes de financiamento das campanhas. O dinheiro é repassado aos partidos, que definem sua distribuição entre as candidaturas, respeitando regras estabelecidas pela legislação eleitoral e pelo TSE.
Para analisar essa distribuição, a reportagem considerou a classificação de raça/cor utilizada pelo próprio TSE para fins do FEFC. Foram comparadas as candidaturas classificadas como brancas, pretas ou pardas, reunindo pretos e pardos na categoria negra.
Nesse universo, 31,1% das candidaturas são negras e 68,9% são brancas. Entre os recursos do Fundo Eleitoral registrados na base do TSE até 24 de agosto, porém, candidaturas negras concentravam 27,6% do valor, enquanto candidaturas brancas recebiam 72,4%.
A participação das candidaturas negras nos recursos era, portanto, 3,4 pontos percentuais menor do que sua presença entre as candidaturas analisadas.

A diferença precisa ser interpretada dentro dos limites do levantamento.
O valor disponível na base ainda é parcial e não representa todo o financiamento que será distribuído durante a eleição.
O acompanhamento dos próximos registros poderá mostrar se a distância diminui, aumenta ou se mantém ao longo da campanha.
Como fizemos o levantamento
A Periferia em Movimento analisou os registros de candidaturas das eleições de 2026 em São Paulo disponibilizados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Entre as 2.610 candidaturas, foram identificados 174 nomes a partir de um recorte de ocupações declaradas ao TSE. A seleção contempla trabalhos de menor remuneração e ocupações de setores como serviços, transporte, comércio, cuidado, indústria, trabalho manual e técnico.
O recorte é uma construção da reportagem e não corresponde a uma classificação oficial de “classe trabalhadora” ou “periferia”.
Ocupação não determina renda individual, classe social, território de residência ou identidade periférica.
O levantamento utiliza essa variável como uma aproximação para investigar a presença de determinados segmentos do mundo do trabalho na disputa eleitoral.
Para as análises raciais gerais, pessoas declaradas pretas e pardas foram agrupadas como negras. Na comparação entre raça/cor e Fundo Eleitoral, foram utilizadas as classificações consideradas pelo TSE para fins do FEFC e comparadas as candidaturas brancas, pretas e pardas.
Os dados financeiros correspondem à prestação de contas disponível até 24 de agosto, portanto, são parciais.
Novos repasses e registros podem alterar os valores e percentuais apresentados ao longo da campanha.
Edição: Thiago Borges


