Com saberes ancestrais, projeto feminista periférico forma agentes populares de saúde

Com saberes ancestrais, projeto feminista periférico forma agentes populares de saúde

Na Zona Sul de São Paulo, Escola Feminista Abya Yala resgata práticas “das avós” para acolher e fortalecer mulheres e dissidências de gênero no cuidado à saúde integral

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Tempo de leitura: 7 minutos

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Por Leonardo Guimarães. Edição: Thiago Borges. Revisão: Aline Rodrigues

Carol França, de 45 anos, é uma agente de prevenção contra ISTs (infecções sexualmente transmissíveis) que, além dos tratamentos convencionais, incorpora práticas naturais para auxiliar o combate a outras enfermidades.

Carol França (arquivo pessoal)

Carol França (arquivo pessoal)

“A gente lida com muitas pessoas em situação de vulnerabilidade, então o impacto [dessas práticas] é muito grande. Você vai entregar uma camisinha e conversar sobre a prevenção [com a pessoa], vê que ela tem um machucado na perna e já pergunta se tem babosa na casa dela”, explica a moradora do Jardim Rosana (Zona Sul de São Paulo).

A folha da babosa cura feridas abertas, por exemplo. Se o problema é alergia, a indicação é aroeira. E assim, vão somando-se outras alternativas.

A experiência e autonomia de Carol para dar dicas de cuidados por meio de plantas fazem com que as pessoas a sua volta sejam receptivas, pedindo mais dicas para ela.

“Os saberes da minha avó não eram crendices”, diz ela, lembrando de costumes que vêm de casa.

Porém, mesmo sendo de família praticante da umbanda e rodeada por plantas medicinais, Carol levou muito tempo para se reapropriar de conhecimentos que já acessava em casa.

E isso aconteceu graças ao curso de agentes populares de saúde, promovido pela Escola Feminista Abya Yala, da qual ela participa há três anos.

A Escola Feminista atua desde 2019, com o objetivo de fortalecer mulheres e dissidências de gênero periféricas por meio do feminismo e de práticas ancestrais passadas de geração para geração.

“Foi se tornando ao longo do tempo um coletivo. O nome ‘escola’ vem desse formato que as reuniões acontecem”, observa Helena Silvestre, 42, idealizadora e coordenadora da iniciativa.

Os encontros semanais acontecem às quartas-feiras no Centro de Cultura Candearte, em Taboão da Serra (município da Grande São Paulo), e próximo de bairros da Zona Sul, como Campo Limpo e Capão Redondo.

Já o curso de agentes populares de saúde acontece em ciclos anuais, desde 2024. O aprendizado vai além do caderno e da caneta. É humano. Por meio de trocas de experiências e vivências, o coletivo reúne pessoas de diferentes perfis.

Manifestação da Escola Feminista Abya Yala no metrô Capão Redondo, em 2023

Manifestação da Escola Feminista Abya Yala no metrô Capão Redondo, em 2023

Ouvir e ser ouvida

Aos poucos, as participantes vão chegando: mães solo, avós, desempregadas, jovens, experientes, negras, brancas, brasileiras e imigrantes.

O cuidado entre integrantes do grupo começa logo que se encontram e se alimentam de um café organizado coletivamente, enquanto partilham vivências da semana. Já nesse momento é comum ocorrer identificação entre as histórias e um fortalecimento mútuo.

Com um cronograma pré-definido, o curso inclui compartilhar questões de saúde mental, leituras seguidas de debates e manejo de uma horta comunitária organizada pela Escola Feminista.

“A troca que eu tenho com essas mulheres melhora a minha vida em absolutamente todos os aspectos: empatia, o meu olhar com o outro. Eu tenho sensibilidades que antes eu não tinha”, destaca Carol.

Quando chegou na Escola Feminista, ela sofria com ansiedade em estado generalizado, tendo passado por todos os estágios: transtorno de estresse pós-traumático e episódios depressivos.

Érica Cassandy, Carol França e Dona Terezinha, no Encontro Geral do Abya Yala 2025, no Espaço Julita (arquivo pessoal)

Érica Cassandy, Carol França e Dona Terezinha, no Encontro Geral do Abya Yala 2025, no Espaço Julita (arquivo pessoal)

Carol não é a única. De acordo com o estudo Sonhos de Favela, divulgado este ano pelo Data Favela, 41% das mulheres de São Paulo chamam atenção para o cuidado com a saúde mental.

Com espaço aberto para ouvir e ser ouvida, o curso da Escola Feminista preencheu uma lacuna de três anos sem terapia e permitiu à Carol reorganizar uma vida inteira.

Ainda na primeira aula, ela sentiu que seria na Escola Feminista Abya Yala que encontraria forças para seguir.

Além de entender melhor as complexidades do território, Carol incorporou os saberes desde a vida pessoal até a profissional.

Depois de um luto intenso pela perda da mãe, ela se reaproximou das tias e compreendeu fatores que influenciaram sua trajetória.

Reencontro

O compartilhamento orgânico entre as participantes do curso fez com que Carol enxergasse que esses saberes (como chás ou remédios) não são superficiais, nem uma “bobeira”.

Hoje, ela fala do assunto com propriedade. “Foi um resgate ancestral”.

“Nossa avó estava certa, mas a gente só pensa em ‘Doril’. A pessoa tá com o peito cheio… Tem planta de eucalipto em todo lugar e dá pra fazer uma inalação, um escalda-pés”.

No trabalho em um Centro de Testagem e Aconselhamento de ISTs, o saber popular complementa o científico. Entre um atendimento e outro, Carol faz indicações de forma espontânea de práticas que podem ser úteis a pacientes.

“O meu compromisso é a gente voltar a valorizar os nossos saberes ancestrais”, finaliza.

Rainha, do Coletivo Mulheres do Noroeste, e seus sobrinhos, no Terminal Campo Limpo, a caminho da aula no Candearte (arquivo pessoal)

Rainha, do Coletivo Mulheres do Noroeste, e seus sobrinhos, no Terminal Campo Limpo, a caminho da aula no Candearte (arquivo pessoal)

Anotaí!

Quem participa do curso de Agentes Populares de Saúde se junta mensalmente com outras integrantes da Escola Feminista Abya Yala para um encontro mensal. Agora estão à frente de um evento anual que também chega em sua terceira edição.

O Encontro Abya Yala de Mulheres Periféricas, Dissidências e Alianças Vitais será realizado nos próximos dias 25 e 26 de julho, no Centro de Direitos Humanos e Educação Popular de Campo Limpo (CDHEP). O tema deste ano é “Mulheres que cuidam: onde encontram cuidado? Construir saúde é construir comunidade”.

As inscrições estão abertas por meio de formulário on-line (clique aqui).

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