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Por Khadja Alves. Edição: Thiago Borges. Foto em destaque: Viviane Lima.
“Eu nunca pensei em ser escritora”, diz Suzi de Aguiar Soares, que recentemente publicou seu primeiro livro.
Formada em Letras e apaixonada por cozinha, em “Palavras e Sabores – Receitas Afetivas de Suzi Soares” a autora reúne receitas simples e relatos de quem passou por sua mesa ao longo da vida.
“Só o ato de você fazer sua própria comida já é uma resistência.”
Com o domínio dos aplicativos de delivery, comidas instantâneas e receitas gourmetizadas, ela lembra que seguir a tradição é contrariar o sistema.
“Convidar amigos para comer na sua casa, compartilhar uma mesa, conversar. Isso as pessoas não têm mais feito, né?”, comenta Suzi, que colocou esses encontros em palavras no papel.
A intenção nunca foi essa, entretanto.
Sentada diante de uma estante cheia de livros, com cabelos já grisalhos e uma aparência gentil, Suzi explica que sua trajetória sempre foi focada nos bastidores da produção cultural.
Em seus 60 anos recém-completados, ela passou os últimos 15 na produção do Sarau do Binho e da FELIZS (Festa Literária da Zona Sul), importantes referências de promoção e circulação da literatura feita nas periferias.
Depois de colecionar obras de amizades que ela direta ou indiretamente apoiou na publicação, agora é a vez de Suzi ser a protagonista em um palco em que sempre atuou por trás das cortinas.
A ideia do livro surgiu quando apareceu a oportunidade de participar de um edital. O incentivo para publicar veio de quem frequentava sua casa e seu antigo bar, e que constantemente pediam por suas receitas.
A publicação traz ingredientes de uma vida marcada por palavras e sabores, como o próprio título sugere.
Ponto de partida
Filha de Augusta e José, Suzi no Jardim Monte Kemel e se criou no Campo Limpo, Zona Sul da capital paulista.
Na infância de Suzi, o bairro era bem diferente de hoje. “O Campo Limpo não tinha espaços culturais naquela época. Nós tínhamos que ir para Santo Amaro ou para Pinheiros para acessar uma biblioteca”, recorda.
Ao concluir os estudos básicos, Suzi adiou o sonho da faculdade por falta de recursos financeiros e difícil acesso.
Foi ainda na escola, ela conheceu Robinson Padial, o Binho, seu companheiro de vida.
Logo depois da eleição de Fernando Collor como Presidente do Brasil, Binho decidiu sair do País e foi morar na Inglaterra. Nesse período, o casal manteve o namoro à distância, por meio de cartas
“Tenho todas essas cartas guardadas aqui comigo”, diz Suzi, que depois de um tempo pediu demissão do banco onde trabalha, fez as malas e embarcou para Londres para reencontrar Binho.
- Cartas correspondidas entre Suzi e Binho (arquivo pessoal)
- Cartas correspondidas entre Suzi e Binho (arquivo pessoal)
A primeira receita
Longe da família e dos sabores brasileiros, Suzi passou a aprender receitas por meio de cartas enviadas pela mãe. Ela queria reproduzir os pratos que faziam parte de sua infância.
“Tem a memória afetiva. Eu queria fazer do jeito que minha mãe fazia.”
Não estamos falando de receitas luxuosas ou gourmets, mas de pratos cotidianos: arroz, feijão, carne moída ou até mesmo o brigadeiro de panela tradicional. “Eu gosto do trivial”, resume.
A primeira receita foi justamente o feijão. Augusta escrevia cartas detalhando cada etapa do preparo, inclusive o uso da panela de pressão. Mas a correspondência levava quase um mês para chegar. Entre uma carta e outra, Suzi errava, improvisava e aprendia na prática.
A cozinha acabou se tornando uma ponte entre Londres e São Paulo. Suzi recebia amizades do Brasil para comer em casa. Ela transformava a culinária em acolhimento e, a partir disso, o livro já surgia sem que percebesse.
De volta pra casa
Suzi e Binho voltaram ao Brasil com ela grávida de cinco meses. O casal investiu as economias em um pequeno bar em frente à escola onde haviam estudado. Dali, nasceria o Bar do Binho.
“O Binho sempre teve umas ideias muito malucas, né? Por que não abrir um bar aqui?”
A propaganda anunciava que ali estavam “o pior pastel, a pior cerveja e o pior atendimento de São Paulo”. A brincadeira despertou curiosidade do público.
Logo, o bar se transformou em algo maior.
Ali, nasceram muitas receitas, encontros e a Noite da Vela, que reunia música, poesias e conversas. Anos depois, o evento que sempre acontecia às segundas-feiras ganhou oficialmente o nome de Sarau do Binho, iniciativa cultural da qual Suzi é produtora até hoje.
Enquanto as poesias rolavam no microfone, Suzi aprimorava suas receitas, pois, segundo ela, nunca pensou em ser escritora. “O Binho costuma dizer que eu escrevo muito bem, mas ele é um puxa-saco sem tamanho, então…”
O livro
As amizades sempre pediam para que Suzi compartilhasse receitas na internet, mas ela não gostava muito da ideia.
“Eu acho injusto com quem não tem o que comer. É uma ostentação até, né? Então eu não costumo publicar.”
Com a oportunidade recente, Suzi se convenceu a publicar um livro. Para construir a obra, ela reuniu receitas que preparava no Bar do Binho e em casa.
Ela também pediu às pessoas próximas para escreverem depoimentos sobre as lembranças ligadas àquelas comidas.

A capacidade de transformar encontros em vínculos também é percebida por quem convive com ela. Para Diana Sales, pesquisadora responsável pelo prólogo do livro, “Suzi tem uma grande aptidão para oferecer, compartilhar e criar redes de cuidado.”
Enquanto a entrevista chega ao fim, percebo que, mais do que autora de um livro de receitas ou uma mulher com boas histórias, Suzi é uma bela construção de cada pessoa que se sentou à sua mesa, que elogiou sua comida e, mais do que isso, uma junção de afetos que distribuiu e teve o prazer de receber durante quase seis décadas.
Depois de conhecer melhor a autora é impossível não dar uma chance aos seus afetos culinários. “Palavras e Sabores: Receitas Afetivas de – Suzi Soares” está disponível para compra no site da LiteraRUA.






