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Ao chegar na rua Manuel Guilherme dos Reis, o som orquestrado seguindo a orientação do maestro invade os ouvidos. A melodia pertence à família das cordas e não vem da música erudita, mas do cavaco e do banjo, instrumentos tradicionais da música periférica brasileira.
Nesta rua, conhecida como 27, que adolescentes do Grajaú encontram novas oportunidades. Essa é a atmosfera ao adentrar a Casa 27, extensão social do tradicional Pagode da 27, que no domingo (31/5) celebrou duas décadas de história em um show no Parque Villa-Lobos com mais de 10 mil pessoas.
Desde 2022, a Casa 27 promove atividades para crianças e adolescentes com o objetivo de ampliar conhecimentos por meio da literatura, aulas de inglês, treinos de futebol de base e, mais recentemente, com a Orquestra de Cavaco, Banjo e Percussão – a primeira do Brasil.
“Quando eu saio na rua com o instrumento na mão e com a camiseta da 27, eu não sou só mais um garoto do Primavera-Interlagos. Eu sou o João da Orquestra da 27”, conta, com entusiasmo, João Alberto Pinho Clementino de Andrade, de 18 anos.
Samba de raiz
A ideia de criar a orquestra surgiu em 2021, a partir da provocação do parceiro Helder Oliveira, e ganhou força com os demais integrantes da própria comunidade. Entre eles, Ricardo Rabelo, um dos fundadores do grupo, que além de músico também é luthier – profissional que constrói instrumentos de corda, como cavaquinho e banjo.
Ao lado de Leandro Carvalhal, também músico do Pagode da 27, Rabelo desenvolveu a proposta de uma orquestra voltada ao samba de raiz, unindo formação musical e luthieria.
No final de novembro de 2024, eles conduziram adolescentes de 12 a 18 anos no processo de construção dos próprios instrumentos que seriam utilizados nas aulas.
“A orquestra não se resume apenas ao ensino musical ou à prática da percussão e dos instrumentos harmônicos. Existe todo um trabalho desenvolvido desde o início, que passa pela construção dos instrumentos, pelas aulas de música e, agora, pela inserção dessas canções no repertório da orquestra”, explica Leandro.
O projeto teve apoio do Programa VAI (Valorização de Iniciativas Culturais), política pública municipal de origem popular voltado ao fomento de iniciativas culturais periféricas.
O apoio foi concluído oficialmente em setembro de 2025, mas as aulas e encontros seguiram acontecendo de forma independente, a partir da articulação entre Leandro, Júlio Cesar Costa (coordenador da Casa 27) e de adolescentes participantes.
“Eu acho que o grande impacto do projeto é justamente ampliar as possibilidades para esses jovens, por isso a resistência. Aqui, eles conhecem a luthieria, que pode se tornar uma profissão; têm contato com a música, que também é um caminho profissional; e até com a possibilidade de, futuramente, se tornarem professores. Mais do que formar músicos, a nossa maior vontade é oferecer opções para eles”, destaca Leandro.
Disciplina e novos caminhos
Quando o assunto é música, o grupo de adolescentes da orquestra se sente em casa.
O samba, muitas vezes considerado uma música antiga, segue despertando ouvidos atentos. Frequentemente relacionado ao improviso e à construção “de ouvido”, o gênero aqui ganha novos contornos dentro da Orquestra de Cavaco e Banjo da Casa 27.
Entre aulas de teoria musical, ensaios coletivos e a rotina de estudos dos instrumentos, adolescentes passaram a lidar com uma dinâmica marcada pela disciplina e organização.
“A orquestra moldou muito da minha rotina, porque me ensinou a administrar melhor o meu tempo. Antes, eu só ia para a escola e fazia meu curso de inglês. Quando comecei a frequentar as aulas aqui, precisei conciliar tudo isso”, conta Marcella Sigoli, 17 anos, uma das adolescentes do projeto.
Para a jovem, aprender um instrumento exige constância e dedicação no dia a dia:
“Aqui, a gente aprende que não adianta chegar só no sábado para tocar. Precisa praticar durante a semana, tirar um tempo do dia para estudar e aplicar o que aprendeu, porque, no próximo encontro, a gente consegue evoluir mais.”
Para João Alberto, o sentimento de pertencimento aumentou significativamente depois de ter contato com outras pessoas de idade próxima à sua, gostos e curiosidades em comum.
A orquestra também mudou a maneira como adolescentes enxergam a si mesmos e o território onde vivem. Entre ensaios, apresentações e rodas de samba, o grupo passou a se conectar com a coletividade, a memória do samba e a identificação com a própria quebrada.
A experiência ganhou ainda mais significado a partir do contato com sambistas mais velhos, os “nego véio”, como costumam dizer dentro do samba. Muitos deles lembram à nova geração que aprender um instrumento e acessar uma formação musical ainda é uma oportunidade distante para grande parte da juventude periférica.
A fala atravessou integrantes da orquestra como um exercício de consciência e valorização do espaço que ocupam hoje e se chamam de “Filhos da 27”, que traduz a relação construída com o projeto na formação.
“Somos frutos daqui”, resume João Alberto.
Construção comunitária
Júlio César, coordenador da Casa 27, destaca que o espaço se tornou um ambiente seguro para as pessoas que frequentam tanto o samba quanto as atividades do local. Para ele, isso revela um processo de autoeducação acontecendo no cotidiano da quebrada.
“Ao longo do tempo, foi surgindo uma mudança no olhar sobre a roda de samba. Mais do que um espaço de lazer, ela passa a ser entendida como parte de uma movimentação cultural e comunitária mais ampla. A celebração, muitas vezes estigmatizada quando acontece nas periferias, ganha outro significado: reunir pessoas para ouvir samba, conversar, rir e ocupar o território também é construção social”, afirma Júlio.
Nesse sentido, o coordenador reforça que a própria roda de samba já é um trabalho social.
Há duas décadas ocupando o bairro, o Pagode da 27 criou vínculos, fortaleceu pertencimentos e abriu caminhos para outras ações culturais e educativas que hoje acontecem na Casa 27.
Mais que músicos, a Orquestra de Cavaco e Banjo da Casa 27 vem formando continuidade. Além de ensaios, rodas de samba e instrumentos construídos pelas próprias mãos, adolescentes passam a ocupar um lugar histórico na comunidade que os cerca: o de manter viva a memória do samba.
Edição: Thiago Borges







