O espelho distorcido: Como a mídia moldou e despedaça o autismo

O espelho distorcido: Como a mídia moldou e despedaça o autismo

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Tempo de leitura: 6 minutos

Minha descoberta do autismo aos 43 anos lançou sobre mim uma questão crucial: o papel da mídia na formação e desconstrução dos estereótipos que cercam o Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Minha própria jornada, vivenciando esse diagnóstico tardio, revela como a representação midiática pode moldar percepções e, ao mesmo tempo, como a ausência de uma representação fiel pode perpetuar mal-entendidos e sofrimentos.

A televisão, na minha experiência, foi uma das principais fontes de informação sobre o autismo. A imagem que me foi apresentada era a do indivíduo “esquisito”, “que fala pra dentro”, com um olhar no vazio, muitas vezes retratado como um gênio superdotado.

Essa caricatura, embora presente no imaginário popular, está longe de abranger a complexidade e a diversidade do espectro autista.

Por toda a minha vida, essa representação limitada foi a única referência disponível. A frase “Você é autista? Não parece” ecoa a dissonância entre a imagem estereotipada e a minha própria experiência.

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A mídia, ao focar em um arquétipo específico, falha em mostrar a vasta gama de pessoas autistas, com suas diferentes habilidades, desafios e formas de se expressar.

A consequência dessa representação enviesada é profunda. Ela leva à invisibilidade de muitos autistas que não se encaixam nesse molde. Acreditamos que “autismo é aquilo que a TV mostra”, e, por isso, a possibilidade de autodiagnóstico ou de reconhecimento de sinais em nós mesmos ou em outros se torna mais remota.

A mídia tem o poder de construir narrativas, e, no caso do autismo, ela construiu uma narrativa muitas vezes simplista e focada em estereótipos. O “autista gênio”, ou o “só é autista o meu sobrinho de 8 anos” – são simplificações que não refletem a realidade de quem lida diariamente com as nuances do TEA.

A necessidade de suporte, por exemplo, que para mim se tornou evidente após o diagnóstico, é algo que a mídia raramente aborda de forma completa e realista, perpetuando a ideia de que todo autista se enquadra em um mesmo nível de necessidade.

A desconstrução desses estereótipos é um desafio urgente.

É preciso que a mídia amplie suas lentes e apresente uma visão mais abrangente e humana do autismo. Ao invés de focar apenas em personagens caricatos, é fundamental dar voz a pessoas autistas reais, com suas próprias histórias, lutas e conquistas.

A minha experiência tardia de diagnóstico, aos 43 anos, ilustra bem o impacto da falta de informação e da presença de estereótipos. Por anos, fui rotulado de “estranho”, “esquisito”, sem que a possibilidade de ser autista fosse sequer considerada.

A mídia, ao não apresentar um espectro mais amplo de representações, contribuiu para essa invisibilidade.

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A pandemia, como vivenciei, trouxe à tona a fragilidade das habilidades sociais para muitos, incluindo autistas não diagnosticados. A mídia poderia ter desempenhado um papel crucial ao informar sobre as dificuldades que muitos enfrentaram, mas a falta de uma compreensão mais profunda sobre o TEA e suas diversas manifestações limitou essa abordagem.

A boa notícia é que, gradualmente, estamos vendo uma mudança.

Mais pessoas autistas estão se manifestando, compartilhando suas experiências e desafiando os estereótipos. A internet e as redes sociais têm sido ferramentas poderosas para essa desconstrução, permitindo que autistas se conectem, compartilhem informações e eduquem o público de forma direta.

No entanto, a mídia tradicional ainda tem um papel fundamental a desempenhar. Ao produzir conteúdo de qualidade, com representações autênticas e diversas, ela pode ajudar a mudar a percepção pública sobre o autismo. É preciso ir além do sensacionalismo e da caricatura, buscando histórias reais, com suas complexidades e nuances.

A desconstrução dos estereótipos não é apenas uma questão de correção de informações, mas também de empatia e inclusão. Quando a mídia retrata o autismo de forma mais realista, ela contribui para que a sociedade compreenda melhor as necessidades e os desafios das pessoas autistas, promovendo um ambiente mais acolhedor e acessível.

Em resumo, a mídia tem sido historicamente um agente na construção de estereótipos sobre o autismo. No entanto, ela também possui o poder de desconstruir esses preconceitos e promover uma compreensão mais profunda e humana do TEA.

É fundamental que a mídia abrace essa responsabilidade, dando voz a diversas experiências autistas e apresentando uma imagem mais fiel e inclusiva do espectro.

A minha própria jornada, e a de tantos outros que receberam o diagnóstico tardiamente, reforça a urgência dessa mudança.

Sobre o autor

Fábio Kabral é escritor de ficção especulativa afrocentrada. Seus livros já publicados são: “Ritos de passagem” (Giostri, 2014, já esgotado), “O Caçador Cibernético da Rua 13” (Malê, 2017), “A Cientista Guerreira do Facão Furioso” (Malê, 2019), “O Blogueiro Bruxo das Redes Sobrenaturais” (Malê, 2021) e “Sopro dos Deuses: os Ancestrais do Amanhã” (Intrínseca, 2024). Além da escrita, realiza workshops, palestras e rodas de conversa sobre literatura, afrofuturismo, criação de universos fantásticos, mitologia e ancestralidade na ficção. Diagnosticado com autismo já adulto.

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