Como mães e cuidadoras periféricas lidam, no dia a dia, com o uso de telas na criação das crianças?
Essa é a pergunta central da pesquisa “O Teto e a Tela: conversas sobre cuidado, tecnologia e famílias periféricas”, realizada pelo Observatório das Mulheres Periféricas (OMPerifa) e o Nós, mulheres da periferia, em parceria com o Instituto Salve Quebrada. Clique aqui para acessar na íntegra.
O estudo ouviu 15 mães e cuidadoras dos distritos Jabaquara, Jardim Ângela, Pedreira e Cidade Ademar, na zona sul de São Paulo, além do município de Diadema.
A pesquisa revela que a hiperconexão digital não é resultado de escolha individual, mas consequência direta da sobrecarga das mulheres, da ausência de políticas públicas de cuidado e da falta de infraestrutura urbana e cultural nos territórios.
“A tela pra ele é mais à noite, que aí é a hora que eu já estou um caco. Eu deito na cama e só existo e falo: ‘Assiste aí até você dormir’. E aí eu me culpo muito por essa parte. Porque é quando eu tô, basicamente, só o bagaço da laranja” – relato de uma das mães participantes de roda de conversa sobre o tema.
“Existe uma narrativa que responsabiliza as famílias, especialmente as mães, pelo uso excessivo de telas. O que a pesquisa mostra é que essas decisões acontecem dentro de um contexto de cansaço extremo, falta de rede de apoio e ausência de políticas públicas de cuidado”, avalia Franciellen Carneiro, coordenadora geral da pesquisa.
Dados que revelam as ausências
Dentre as participantes da pesquisa, 93% são mulheres negras, muitas delas mães solo, responsáveis pelo sustento e cuidado da família.
Segundo o Mapa da Desigualdade 2025, os distritos habitados por elas apresentam os seguintes dados:
– Em três dos quatro distritos, mais da metade da população se autodeclara preta ou parda, e as mulheres são maioria (acima de 52%);
– Acesso quase inexistente ao transporte de massa: entre 0% e 0,05% da população é atendida por metrô ou trem;
– Infraestrutura cultural escassa, com número de centros culturais e cinemas próximo de zero;
– Baixa cobertura de internet móvel, com apenas 1,69 a 4,82 antenas por 10 mil habitantes.
Nesse contexto, marcado por desigualdades estruturais e pela centralidade das mulheres na organização da vida cotidiana, o estudo revela que:
– A internet está presente nos lares de todas as participantes, mas marcada por planos pré-pagos limitados e baixa qualidade de conectividade, especialmente em áreas com poucas antenas de sinal;
– As crianças utilizam a internet diariamente, sobretudo para vídeos e jogos, em contextos onde faltam praças seguras, centros culturais e equipamentos públicos de lazer;
– A tela do celular aparece como substituta do espaço público ausente, funcionando como janela para entretenimento, informação e até cuidado.
“Às vezes [deixar a criança interagindo com a tela] é o tempo de você lavar uma louça (…) O motivo principal é ser a babá que a gente não tem”, sintetiza uma das mães.
Mudança de perspectiva
Ao deslocar o debate sobre telas do comportamento individual para as condições estruturais, a pesquisa propõe uma mudança de perspectiva: discutir tecnologia nas periferias exige discutir cuidado, cidade e desigualdade.
“A hiperconexão digital nas periferias é um sintoma social: ela ocupa o vazio deixado pelo analógico. Não se trata apenas de tempo de tela, mas das condições que obrigam mães e cuidadoras a recorrerem às tecnologias em meio à falta de políticas de cuidado e de espaços seguros para suas famílias”, conclui Franciellen Carneiro.




