Mulheres têm papel primordial na urbanização de bairros periféricos, aponta pesquisadora da quebrada

Mulheres têm papel primordial na urbanização de bairros periféricos, aponta pesquisadora da quebrada

Camila Lima

Camila Lima

Urbanista do Capão Redondo resgata história de mulheres do Jardim Macedônia, que estiveram na linha de frente pelas conquistas do bairro

Por Camila Lima. Edição: Thiago Borges. Montagem de capa: Rafael Cristiano. Fotos: Acervos Família Garcia / Família Morais

Você já parou para pensar qual a história do seu bairro? Como as ruas foram asfaltadas ou o que foi preciso pra existir um postinho de saúde, escola, comércios de itens básicos de sobrevivência? E mais: já se perguntou quem são as pessoas que fizeram tudo isso acontecer?

Criada no Jardim Macedônia, distrito do Capão Redondo (zona Sul de São Paulo), a urbanista Ana Cristina da Silva Morais foi buscar respostas para essas perguntas e fez uma retrospectiva sobre o próprio território em sua especialização pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). E o que essa pesquisa revelou é o papel primordial das mulheres na construção e urbanização das quebradas, ainda que sejam pouco representadas em espaços institucionais.

Ana Cristina fez uma viagem no tempo, que vai até o final dos anos 1970, comecinho dos 1980.

No interior do Brasil, meninas e mulheres adultas enfrentavam dificuldades devido à distância percorrida para chegar às escolas. O risco de sofrer alguma violência no caminho era colocado como justificativa para não estudar e, em geral, o papel delas era resumido aos cuidados da casa ou ajuda na roça.

Com a industrialização de São Paulo, famílias numerosas migraram para a capital paulista em busca de trabalho e ocuparam principalmente áreas mais distantes do centro, com pouca ou nenhuma urbanização. Bairros surgiram em pouco tempo, como é o caso do Jardim Macedônia.

Em sua pesquisa, Ana Cristina entrevistou pessoas como dona Geraldina Garcia e dona Elizabete Neves, que lutaram por conquistas para todo o bairro.

Conhecida como Geralda, a primeira deixou a vida rural no Paraná e veio morar com parentes no Cangaíba (zona Leste). Depois, mudou-se para o Macedônia. Já Elizabete saiu da Bahia casada e com crianças para viver em um lote de terra que o marido comprou no bairro novo após indicações de amigos.

“A decisão de mudar para a cidade grande e articulação desse processo era responsabilidade do homem, seja pai da família ou irmão mais velho. Cabia à mulher somente aceitar e acompanhar a família”, nota Ana Cristina, que integra o Centro de Estudos Periféricos (CEP), vinculado à Unifesp e formado por pessoas que vivem e atuam em quebradas paulistanas. O CEP é coordenado pelo pesquisador Tiaraju D’Andrea, que orientou o trabalho de Ana Cristina.

O chefe de família trabalhava fora. À mulher, cabiam os afazeres da casa, ainda que muitas delas tivessem dupla jornada e, em geral, atuassem como empregadas domésticas para ajudar a complementar a renda. O medo da violência no trajeto voltou a ser uma constante na vida de muitas delas. Afinal, havia uma única linha de ônibus que saía da entrada do bairro rumo a Pinheiros.

O investimento em infraestrutura não acompanhou o ritmo de expansão do território, que passou de uma paisagem com casas distantes, sem portões nem muros no começo dos anos 1970 para moradias aglomeradas dentro de uma década. A energia elétrica chegou apenas em 1973, enquanto a água encanada foi instalada em 1979 – até então, a população dependia de poços. E as crianças não tinham escolas por perto.

Transformações

Havia um caldo prestes a entornar no início dos anos 1980.

O País vivia uma crise econômica e a ditadura estava enfraquecida e, assim como em outras periferias paulistanas, a Igreja Católica teve uma função importante na articulação da população do Macedônia.

Em visitas às moradoras, freiras também entendiam que essas mulheres donas de casa não tinham só demandas individuais como também as coletivas. Dessa movimentação, pela primeira vez moradoras locais chegaram à liderança da Sociedade de Amigos do Bairro, até então capitaneada por homens – ainda que eles fosse minoria nas lutas cotidianas.

A organização concentrou doações de roupas e alimentos para as famílias, organizou cursos de corte e costura, entre outros. Essas necessidades vividas e relatadas pelas mulheres pautaram o recém-criado Partido dos Trabalhadores (PT), que levou as queixas para a política institucional. Com a articulação, o Jardim Macedônia conquistou um sacolão e uma mercearia comunitária, além de creches e hospital na região.

Em 1988, as periferias elegeram como prefeita a então petista Luiza Erundina, mulher nordestina, que entre outras medidas pavimentou o Macedônia. E em 1989, a expectativa era grande com as primeiras eleições presidenciais em mais de 3 décadas. Mas o candidato petista Luiz Inácio Lula da Silva acabou derrotado, e isso implicou na diminuição do protagonismo das classes populares por meio dos movimentos sociais, sindicatos e partidos.

Tanto o PT quanto a Igreja Católica se distanciaram dessas bases, que perderam força e impactaram mulheres que estavam em algum espaço de representação. “Quando é pra assumir cargos principalmente de mais destaque, a mulherada não vai conseguindo acessar muito por conta do trabalho doméstico, da demanda com filhos e de ter que conciliar com trabalho fora”, explica a pesquisadora.

Ainda assim, a pesquisa de Ana Cristina mostra que apesar das tentativas isso não apaga o papel fundamental delas na transformação do Jardim Macedônia e de outras periferias da cidade de São Paulo.

Colaboração

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