Em luto pelo filho, Cleimara do Prado é acolhida por outras mães de vítimas da violência policial

Em luto pelo filho, Cleimara do Prado é acolhida por outras mães de vítimas da violência policial

Depois de perder Felipe na Operação Verão, em 2024, a moradora do Guarujá encontrou apoio no Movimento Independente Mães de Maio

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Tempo de leitura: 9 minutos

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Por Viviane Lima. Edição: Thiago Borges

Há mais de dois anos, falta um pedaço em Cleimara do Prado.

“Antes, eu tinha vida dentro de mim, havia alegria. Mas quando um filho morre, morre uma parte da gente junto”.

Felipe e sua filha (arquivo pessoal)

Cleimara do Prado (arquivo pessoal)

Em fevereiro de 2024, a designer de sobrancelhas de 57 anos perdeu o filho Philipe do Prado Nascimento, que tinha 29 anos na época.

Ele foi morto na Operação Verão, em uma das violentas ações policiais realizadas no Guarujá (SP) e outras cidades do litoral paulista.

Cleimara parou de trabalhar e só vivia na cama depois do ocorrido.

“Eu não tinha mais alegria, era uma coisa horrível. Eu fiquei depressiva”, recorda-se ela, que conheceu o Movimento Independente Mães de Maio.

Desde os Crimes de Maio de 2006, que resultaram em aproximadamente 500 mortes de civis no Estado de São Paulo, o movimento mobiliza e acolhe outras mães e familiares de vítimas da violência do Estado.

“As Mães de Maio representam minha vida, a vida do meu filho. Hoje em dia, eu tenho com quem falar. A gente troca as nossas ideias sem julgamento”, comenta.

Neste mês das mães, em que os crimes de maio completam duas décadas, a Periferia em Movimento destaca o enfrentamento de mulheres na série de perfis “Mães na Luta”.

Período cruel

Felipe e sua filha (arquivo pessoal)

Philipe e sua filha (arquivo pessoal)

Philipe, filho de Cleimara, era garçom e fazia trabalhos informais como ajudante de pedreiro e descarregava peixes no Entreposto de Pesca.

Brincalhão e querido por quem o conhecia, sua filha tinha 9 anos quando ele morreu.

Na ocasião, Philipe estava no apartamento de um amigo localizado no bairro Santa Cruz dos Navegantes, mesma região onde Cleimara mora.

“Os policiais da COE (Comandos e Operações Especiais) invadiram o apartamento e fuzilaram três pessoas: meu filho, o rapaz que morava lá e outro rapaz que a polícia tava procurando”, explica a mãe de Philipe.

A Baixada Santista sofria com a Operação Verão, segunda fase da Operação Escudo. Juntas, as operações desencadeadas pelas polícias paulistas deixaram um rastro de 84 mortes na região.

A Operação Escudo teve início em julho de 2023, após a morte de um soldado da ROTA (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), no Guarujá. Até setembro daquele ano, quando chegou ao fim, 28 mortes foram registradas, segundo o “Mapa da Letalidade Policial por Batalhão” do Fórum Popular de Segurança Pública e Política de Drogas do Estado de São Paulo (FPPDSPSP).

Já a Operação Verão durou de dezembro de 2023 a abril de 2024, com o registro de 56 mortes decorrentes de intervenção policial, como aponta o relatório.

“O ano de 2023 e 2024 foi cruel. Os policiais desceram para a Baixada e foi [morto] quem tinha culpa no cartório e quem não tinha”, diz Cleimara.

“O meu filho foi de gaiato nessa, porque ele não tinha nada a ver, ele não fazia parte de facção nenhuma”.

Luto que adoece

Cleimara e o filho Felipe (arquivo pessoal)

Cleimara e o filho Felipe (arquivo pessoal)

A dor de Cleimara ultrapassou as barreiras emocionais.

No processo de luto, ela perdeu parte da saúde e acredita que as duas coisas estão diretamente vinculadas.

“Eu voltei a fazer tratamento psicológico. Hoje em dia tenho fibromialgia, que é a pior dor que tem, e acho que isso tem muito a ver com a dor que eu passei”.

Conforme a definição da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), do Ministério da Saúde, a fibromialgia causa dor crônica, fadiga, sono e outros sintomas como alterações de memória e atenção, ansiedade, depressão e alterações intestinais.

Por conta disso, Cleimara não consegue mais trabalhar. O marido, que é aposentado, segue em atividade para conseguir sustentar a casa.

“A gente não quer que ninguém passe a dor que a gente tá passando. Mas só vivendo essa dor, esse luto é que você sabe como é que é”, diz Cleimara.

“Agora eu estou tentando viver sem a presença do meu filho. Mas é duro”.

Movimento de cura

Cleimara diz que “nasceu para cuidar”. Além de Philipe, ela tem mais uma filha e um filho em idade adulta.

“Eu acabei ficando para trás um pouco, porque a gente cuida dos outros e esquece da gente”, comenta.

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Cleimara (à esquerda) e família (foto arquivo pessoal)

Mas demorou um tempo para ela retomar o olhar para si. Com a falta de explicações e notícias sobre o caso de seu filho, Cleimara ficou debilitada e com sentimento de impotência.

Foi quando se aproximou das Mães de Maio. “Elas conseguiram me tirar de cima da cama”, diz.

Cleimara já conhecia a mobilização desde a morte de Philipe, quando a advogada Ana Marques, que atua em casos de violência policial, falou a ela sobre uma reunião das Mães de Maio.

Um ano depois, no início de 2025, uma integrante do movimento ligou para Cleimara chamando-a para participar do movimento.

“Elas me acolheram e a gente tem uma troca muito bonita. Então, elas representam tudo para mim, porque com as Mães de Maio eu fico sabendo das coisas do meu filho, se foi dado algum andamento nas investigações”, declara Cleimara, que explica que isso lhe traz um certo consolo.

Além de direcionamento jurídico, Clemara comenta que ter um espaço seguro de fala e escuta também faz com que ela se sinta apoiada.

“Eu fiz parte das reuniões, uma mãe fala, outra mãe fala, a psicóloga fala. Isso já é uma grande ajuda”, afirma.

A luta é pra sempre

Participar do movimento mudou seu modo de pensar e agora ela consegue se posicionar e se expressar melhor diante de questionamentos feitos por causa da situação em que seu filho foi morto.

“Eu não tô defendendo bandido nenhum. Eu tô brigando pelo direito que as pessoas têm [à vida]. Não tem só um lado da história, toda história tem dois lados”, pontua.

Cleimara aponta que, mesmo na situação em que alguém tenha cometido um crime, a polícia não teria o direito de matar: “que prendessem, que fosse para julgamento”.

Por meio do movimento Mães de Maio, Cleimara encontrou força e sentido para transformar sua dor em luta.

“Quero ajudar os outros e a mim mesma, sair de casa, deixar de tá deprimida e lutar, junto com as outras mães, para que isso não aconteça mais”.

Atualmente, ela também participa do EnfrentAção, projeto das Mães de Maio implementado com o Centro de Arqueologia e Antropologia Forense (CAAF) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O projeto pesquisa e promove intervenções a partir da escuta de mães e familiares de vítimas da violência do Estado.

“A importância desse projeto é que a gente divulgue quem [os] nossos filhos eram. Porque eles não eram isso que falam”, conta.

Segundo Cleimara, o inquérito sobre o caso de Philipe foi arquivado. Agora, como avó, ela reivindica uma indenização do Estado para pagar os estudos e acompanhamento psicológico da filha dele.

“Nada vai reparar, nada vai trazer meu filho de volta. Mas ele deixou uma filha e ela precisa de ajuda (…) A luta nunca para. A luta é para sempre”.

Ato do Cordão da Mentira, que relembrou os 20 anos dos Crimes de Maio em São Paulo (foto Viviane Lima)

Ato do Cordão da Mentira, que relembrou os 20 anos dos Crimes de Maio em São Paulo (foto Viviane Lima)

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