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Por Viviane Lima. Edição: Thiago Borges
“A dor da perda de um filho é muito grande, algo imensurável. Mas a dor da injustiça se compara.”
E no acúmulo da dor, Arlene Dantas luta pela responsabilização dos assassinos de seu filho.
Em outubro de 2022, a baiana de 47 anos perdeu seu único filho, João Vitor de Avila Carvalho, então com 18 anos.
João foi brutalmente torturado até a morte durante uma abordagem policial, na periferia da Zona Norte de São Paulo. As imagens foram registradas pelas câmeras corporais dos próprios policiais.
O jovem tinha TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), além de outros distúrbios, e tomava muita medicação psiquiátrica. Na ocasião, também tratava de uma dependência química.
Naquele dia, João saiu de casa sem tomar a medicação, teve um surto psicológico na rua e não voltou mais.
“Eu gostaria que o meu filho fosse lembrado como alguém que precisou de ajuda e que foi morto injustamente pelo Estado”, desabafa Arlene.
Desde maio, mês das mães e em que os crimes de maio completaram duas décadas, a Periferia em Movimento destaca o enfrentamento de mulheres na série de perfis “Mães na Luta”.
Sonhos interrompidos
Arlene se mudou da Bahia para São Paulo em 2009, após se separou do pai de João. O filho tinha 6 anos de idade.
Como mãe solo, Arlene sempre focou no trabalho e cuidados com João, que passou por vários tratamentos psicológicos. “Eu vivia para dar o melhor para o meu filho, o meu sonho de vida era proporcionar uma vida melhor para ele.”
Por isso, desde criança João desejava retribuir o cuidado recebido e proporcionar uma vida melhor para a mãe. A intenção do filho eracomprar duas casas, morar em um dos imóveis com a mãe e o padrasto e alugar o outro para que Arlene tivesse uma renda e deixasse de trabalhar.
Dos 15 aos 17 anos, João passou por um período conturbado e acabou se afastando da escola, mas sonhava em retornar aos estudos, concluir o ensino médio e estudar Psicanálise.
“Ele falava assim: ‘Ah, minha mãe, eu queria muito entender o que as pessoas pensam’”, diz Arlene.
Se dedicar intensamente ao trabalho foi a forma que Arlene encontrou de lidar com a dor de perder o filho. Em uma escala 6×1, ela trabalha com vendas no comércio varejista. “O meu trabalho me preenche muito e é algo que eu gosto de fazer.”
Peregrinação em busca do filho
No dia seguinte ao desaparecimento de João, Arlene e o marido começaram as buscas.
Primeiro, procuraram pelo bairro. Em seguida, foram até a delegacia mais próxima de casa. Por fim, seguiram para o Hospital Geral de Vila Nova Cachoeirinha (HGVNC), onde afirmaram que João não estava lá.
Após passar em outros prontos-socorros da região, o casal retornou ao Hospital Cachoeirinha, para onde uma testemunha da abordagem garantiu que os policiais haviam levado o jovem.
Arlene precisou exigir falar com o diretor do hospital para que atendentes localizassem o João.
“Tinha lá o nome dele, as características, e quem o levou sabia que ele se chamava João Vitor”.
O filho de Arlene sempre andava com uma cópia da identidade no bolso.
Ainda no hospital, ela foi informada que João tinha morrido de infarto do miocárdio. No entanto, a versão no Instituto Médico Legal (IML) era outra.
“O agente que me atendeu no IML falou assim: ‘Infarto? Os órgãos dele não tinham nenhum sinal de infarto’”, diz Arlene.
Arlene não foi autorizada a fazer o reconhecimento do corpo no IML. Sem registrar boletim de ocorrência (B.O.) até então, ela desconhecia os procedimentos e não teve orientação.
“Eu estava em estado de choque”.
Hoje, ela pensa em retomar o sonho de cursar Direito para “ajudar outras mães, ajudar pessoas que, assim como eu, não podem ter um advogado desde o início. Para diminuir um pouco das injustiças que nós sofremos”.
Crime revelado: um procedimento normal?
Após enterrar o filho, Arlene ficou acamada por uma semana. Nesse período, ela se questionou sobre as reais causas da morte de João e procurou uma advogada.
Ainda em 2022, a Rede Apoia (núcleo da Defensoria Pública que investiga violência policial) entrou em contato com Arlene.
A partir disso, ela começou a participar da rede e se articular com movimentos sociais de saúde mental e de mães de vítimas da violência policial.
Foi por meio da Rede Apoia que Arlene ficou sabendo de fato o que tinha acontecido com João. A iniciativa investigou e obteve acesso às câmeras corporais usadas pelos policiais, que continham vídeos com imagem e som.
“No boletim de ocorrência, eles [os policiais] falaram que o meu filho foi encontrado jogado na rua, cheio de escoriações. Mas, nas imagens, nós vimos uma sessão de tortura”, declara.
Em 2024, o Ministério Público arquivou o inquérito sobre o caso de João, alegando que “aquilo seria um procedimento normal usado pela Polícia Militar”.
Mesmo assim, ela tem esperança de que a justiça seja feita, e luta pela retratação do Estado e para que os culpados sejam punidos.
“Eu, uma pessoa leiga, que não entendo de leis, que entendo pouco de direitos humanos, me pergunto todos os dias: ‘A tortura acabou de fato? A ditadura acabou?’ Porque mesmo com todas as imagens, ouvir que aquela forma de abordagem é normal é algo bem assustador”, desabafa.
Embora um pouco afastada dos movimentos sociais atualmente, foi nos coletivos em que ela encontrou acolhida e força para lutar.
“A nossa luta é pelas novas gerações, para que outras mães não venham sofrer”.







3 Comentários
Somos mulheres protagonistas em luto e justiça.
Nossos filhos não existem mais, calaram a sua voz ..
Mas nós mães estamos aqui e vamos gritar e incomodar e sufocar até que a justiça seja feita ..
Ninguém vai nus calar.
Somos mães que sofremos tortura diariamente buscando justiça.