Mais de 2 milhões de pessoas foram afetadas por despejos e remoções forçadas nos últimos cinco anos no Brasil, segundo o relatório da Campanha Despejo Zero publicado este ano.
Em 2025, a Periferia em Movimento acompanhou a luta pelo direito à moradia e os desafios enfrentados pela população periférica de São Paulo para garantir não apenas um teto, mas também os direitos básicos que deveriam vir junto com ele.
Com o fim da suspensão promovida pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que havia interrompido todas as desocupações durante a pandemia, os processos de reintegração de posse voltaram a ocorrer de maneira contundente e violenta.
Famílias e movimentos sociais se mobilizam contra despejos de mais de meio milhão de pessoas
Os dados apontam que o problema tem recortes de gênero e raça: 66% das pessoas atingidas são negras e 62% são mulheres, em sua maioria de baixa renda.
Além da falta de acesso ao saneamento básico, dificultada pela ausência de regularização das ocupações, os moradores também enfrentaram o adoecimento mental provocado pelo medo, ansiedade e a incerteza em relação ao futuro.
Crise climática
As mudanças climáticas continuam avançando em ritmo acelerado. Nas periferias, esse cenário se agrava devido ao racismo ambiental, conceito que descreve as injustiças sociais e ambientais que recaem de forma desproporcional sobre etnias e populações mais vulneráveis, geralmente localizadas em regiões periféricas.
Em fevereiro de 2025 a população do Jardim Pantanal, na zona Leste de São Paulo, enfrentou uma enchente que tomou o bairro por mais de uma semana.
Muitas pessoas passaram a temer a perda de suas casas em uma área com quase 50 anos de ocupação, alvo de uma proposta do prefeito Ricardo Nunes (MDB) apresentada como solução para o problema.
Sob as águas da desigualdade: Remover vítimas de enchentes do Jardim Pantanal é racismo ambiental?
Acesso à água
A falta de acesso à água tratada e ao saneamento básico adequado também é uma realidade constante em ocupações e bairros periféricos sem infraestrutura, e seus efeitos aparecem diretamente na saúde e no cotidiano da população.
Diante desse cenário, os moradores recorrem a soluções improvisadas, como caminhões-pipa, poços rasos, “gatos” e apoio de familiares.
Mesmo assim, a falta de controle na captação e no armazenamento compromete a qualidade da água e coloca em risco a saúde de quem dela depende, favorecendo o surgimento de doenças como diarreias, febres entéricas e hepatite A, entre outras, geralmente transmitidas pela ingestão de água ou alimentos contaminados.
O relatório do Ranking do Saneamento 2025, estudo do Instituto Trata Brasil baseado em dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS 2023), aponta 100% de atendimento urbano com abastecimento de água e 99,38% de coleta de esgoto no município de São Paulo.
Em tese, não haveria paulistano sem acesso à rede, já que a cidade figura entre as 20 melhores no ranking geral do estudo. No entanto, a realidade expõe o que os indicadores não revelam: nos bairros localizados nos extremos da cidade ainda existem casas sem a mínima estrutura de saneamento.
Enquanto a Sabesp fala em eficiência e investimento – R$ 11,5 bilhões entre 2019 e 2023, segundo o ranking –, moradores periféricos convivem com a ausência de um direito básico.


