Às vésperas das eleições, pessoas que votam em São Paulo relatam dificuldade de enxergar nas urnas um caminho para enfrentar problemas estruturais.
Isabela do Carmo
Natural de Governador Mangabeira, no interior da Bahia, Isabel Santana, conhecida como dona Bel, começou a trabalhar ainda criança e estudou até a quarta série.
Aos 19 anos, migrou para o Sudeste. Passou onze meses no Rio de Janeiro antes de se mudar para São Paulo, onde vive até hoje.
Na capital paulista, a costureira morou primeiro no Jardim São Savério e conheceu diferentes faces da desigualdade nos territórios por onde passou.
Hoje, vive no Jardim São Luís, na Zona Sul, onde as chuvas provocam alagamentos nas proximidades de um atacadista do bairro.
Ventanias fortes já destelharam imóveis, e dona Bel conta que chegou a ficar cinco dias sem energia elétrica.
A violência é outra preocupação. Em 2019, seu estabelecimento foi assaltado duas vezes.
Ao longo dos anos, sua relação com a política mudou.
Isabel já votou nulo e hoje se diz “descrente” das promessas eleitorais.
“Quando eu era mais jovem, considerava a época política uma maravilha. As campanhas eleitorais eram um evento para quem morava no interior. No entanto, quando cheguei à cidade grande, encontrei outros problemas, como pessoas vivendo em situação de rua”, reflete dona Bel.
A descrença de dona Bel aparece em um momento de baixa confiança.

A costureira Isabel Santana já votou nulo por se sentir “descrente” sobre a política. (Foto: Isabela do Carmo)
Pesquisa Datafolha realizada em setembro mostra que 45% dos eleitores brasileiros não confiam nos partidos políticos e outros 44% confiam apenas um pouco.
O sentimento de incerteza vai além das instituições: 53% dizem ter medo do futuro do país e 64% se sentem inseguros em relação a ele.
‘Eu perdi a fé nos políticos. Eles prometem muitas coisas mas, na prática, não cumprem nada disso’., desabafa dona Bel.
A desigualdade entre os territórios pode contribuir para esse sentimento.
Segundo o Mapa da Desigualdade de São Paulo, a remuneração média mensal do emprego formal variava de R$ 2,2 mil em Artur Alvim a R$ 8,5 mil em São Domingos.
No transporte público, uma viagem no horário de pico levava, em média, 25 minutos em Pinheiros e 71 minutos em Marsilac. A distância aparece até na idade média ao morrer: 82 anos em Alto de Pinheiros e 58 em Anhanguera.
Futuro que some do cotidiano
Para a jornalista, pesquisadora e ativista Juliana Gonçalves, o sentimento de descrença pode explicar o que ela define como ‘privatização forçada da vida’, quando a perda de confiança nas instituições também se reflete no cotidiano no momento em que muitas famílias, por exemplo, recorrem ao serviço privado em busca da qualidade e rapidez de atendimento que o público não oferece.
É o caso da consulta particular, do plano de saúde, da escola ou de outros serviços que passam a pesar no orçamento.

Juliana Gonçalves defende o Bem Viver. Foto: Fernando Cavalcanti
‘Quem pode pagar compra proteção. Quem não pode fica submetido à precariedade’, afirma Gonçalves.
A jornalista também aponta para o ‘encolhimento do horizonte de futuro’.
Quando boa parte da renda está comprometida com aluguel, comida, transporte, contas e dívidas, o planejamento de longo prazo dá lugar à preocupação com o fim do mês. Reforma da casa, curso, viagem, projeto profissional ou até planos de ter filhos podem ser adiados.
As mudanças climáticas também contribuem para a falta de perspectivas do futuro. O calor extremo também revela disparidade de experiências.
“Temperatura também é desigualdade social’, destaca Juliana. Uma casa sem árvores, com pouca ventilação ou telhado que absorve calor pode comprometer o sono, a saúde e a produtividade.
Ao mesmo tempo, o uso maior de ventiladores e outros equipamentos aumenta a conta de energia, justamente quando o orçamento já está pressionado.
O Bem Viver como possível saída
Diante das dificuldades para projetar o futuro, Juliana Gonçalves defende o Bem Viver como outro horizonte possível.
O conceito tem origem em modos de vida de povos originários da América Latina, especialmente andinos, mas ganhou contornos próprios no movimento de mulheres negras no Brasil, ao incorporar referências da ancestralidade africana e afro-brasileira e do feminismo negro.
Um marco desse processo foi a Marcha das Mulheres Negras de 2015, realizada em Brasília contra o racismo, a violência e pelo Bem Viver.
Dez anos depois, o conceito voltou ao centro da mobilização nacional, desta vez associado à reparação pelas desigualdades produzidas pela escravização e pelo racismo.
Para o movimento, o Bem Viver funciona como um projeto coletivo de futuro que questiona uma ideia de desenvolvimento centrada apenas no crescimento econômico e no consumo.
Juliana, que integra a coordenação da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo e pesquisa o tema, ressalta que o Bem Viver não deve ser confundido com felicidade ou conforto individual. Ele depende da garantia de condições materiais e coletivas para uma vida digna.
O conceito passa por trabalho e renda, mas envolve ainda tempo, moradia, alimentação saudável, saúde, transporte, segurança, áreas verdes, cultura, lazer e descanso.
Jai Lara também relaciona o Bem Viver à dimensão coletiva. Para ele, o conceito também ajuda a pensar na participação comunitária, que também encontra desafios estruturais para acontecer na prática.

‘Nas periferias essa possibilidade esbarra na desigualdade e na ausência de políticas públicas’, afirma.
Segundo Jai, as redes de solidariedade são importantes, mas não podem substituir o Estado. Para ele, quando comunidades precisam resolver sozinhas problemas de infraestrutura, saúde, segurança ou alimentação, a capacidade de organização coletiva deixa de ser apenas uma potência e passa a funcionar como resposta à ausência de direitos.
Edição: Agnes Sofia


