Trabalhadoras das periferias de SP contam como é voltar para casa de madrugada; especialista explica por que o tema não deve se resumir ao policiamento
Há três anos, a autônoma Gabriela Ferreira saía todos os dias, à meia-noite em ponto, do Hospital da Mulher, no Centro de São Paulo. Se atrasasse, podia chegar em casa só às 4h da manhã, por causa da menor oferta de transporte público naquele horário. Antes mesmo de deixar o trabalho, ajeitava o taser debaixo da blusa.
“A gente tem que sair com cara de doida”, diz Gabriela, que na época morava no Jardim Santo André, na zona leste da capital, e fazia sozinha o trajeto de volta para casa.
O hospital ficava nos Campos Elísios, em frente ao Terminal Princesa Isabel, próximo de onde ficava a Cracolândia. O caminho de volta envolvia ônibus, espera em um ponto vazio em Sapopemba e, nos melhores dias, uma carona de um motorista que passava por ali a caminho da garagem da empresa, onde deixava o veículo.
“Ele me via sempre no ponto e parou uma vez: ‘Você tá sozinha? Sobe aí’”, lembra. Ela ficou um ano nessa rotina.
A produtora de moda Amanda Conceição, 25, moradora da divisa entre Campo Limpo e Taboão da Serra, na zona sul, vivia um dilema parecido quando trabalhava em um bar na Santa Cecília, também no centro da cidade.
O horário de saída era 1h30, às vezes 2h da manhã. O transporte público não chegava perto de casa.
“Morando na zona sul, nenhuma das linhas que nos atende funciona de madrugada”, afirma.
Para voltar, tinha de recorrer a dois carros por aplicativo: um até Pinheiros, onde pegava o único ônibus que atendia à sua região naquele horário, e outro do Terminal Campo Limpo até sua casa. A conta chegava a cerca de R$ 600 por mês, tirados do próprio salário. “Eu pagava para trabalhar.”
Sem nenhum equipamento específico de autoproteção, Amanda improvisava.
Numa época em que não tinha dinheiro para o carro por aplicativo, saía com uma garrafa de vidro com água na mão. “Se alguém tentasse alguma coisa, essa garrafa na cabeça já é algo”, diz.
O auxílio-transporte do empregador não cobria o aplicativo. A falta de alternativa pública segura moldava cada decisão do trajeto. Ficar esperando ônibus no centro da madrugada não era opção. “Eu prefiro gastar R$ 20 de Uber do que ficar esperando sozinha, à mercê de qualquer situação”, defende.
Dados indicam que a insegurança muda trajetos na cidade
Os relatos de Gabriela e Amanda encontram correspondência nos dados. Segundo o relatório Medo do Crime e Eleições 2026, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), 57% dos brasileiros afirmam ter mudado algum comportamento nos 12 meses anteriores à pesquisa por medo da violência.
Entre as mulheres, o impacto é maior: 40,9% deixaram de sair à noite por medo da violência, 37,8% deixaram de sair com o celular por medo de assalto e 56,8% têm medo de andar sozinhas pela própria vizinhança depois de anoitecer.
Nas cidades com mais de 500 mil habitantes, 13,2% dos entrevistados afirmaram ter tido o celular furtado ou roubado nos 12 meses anteriores à pesquisa.
O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado neste ano pela mesma organização, aponta que a cidade de São Paulo registrou, em 2025, a terceira maior taxa de roubos e furtos de celulares entre os municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes.
Nas cidades com mais de 500 mil habitantes, 13,2% dos entrevistados afirmaram ter tido o celular furtado ou roubado nos 12 meses anteriores à pesquisa.
O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado neste ano pela mesma organização, aponta que a cidade de São Paulo registrou, em 2025, a terceira maior taxa de roubos e furtos de celulares entre os municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes.
Os riscos do punitivismo nas eleições
É nesse cenário que a segurança pública chega ao debate eleitoral de 2026. O próprio relatório do FBSP alerta para os limites de propostas que reduzem o enfrentamento da violência ao endurecimento penal e ao confronto policial. Ao discutir respostas concentradas em aspectos penais e de tipificação diante da atuação de facções, o estudo as classifica como “reativas e inócuas” para um fenômeno mais complexo.
A percepção sobre a presença do crime organizado ajuda a dimensionar essa complexidade. Entre moradores de municípios de regiões metropolitanas, excluídas as capitais, 46% afirmam perceber a presença de grupos criminosos organizados no próprio bairro. Nas capitais, o percentual chega a 55,9%.
Para Dina Alves, advogada criminalista e pesquisadora de direitos humanos, o risco no debate eleitoral está justamente em transformar a demanda por segurança em sinônimo de respostas exclusivamente punitivas, que para ela são insuficientes e abrem portas para outros problemas para a população periférica.
“Precisamos perguntar quais políticas efetivamente reduzem a violência e quais apenas ampliam o encarceramento e a letalidade”, diz.
Segundo ela, mesmo demandas por mais policiamento podem expressar necessidades mais amplas. “Quando a população pede mais policiamento, muitas vezes está dizendo que o Estado está ausente. Está dizendo: queremos poder circular, trabalhar, dormir, estudar e viver sem medo.”
Decisões individuais que não substituem o Estado
As estratégias de proteção individual e comunitária são diversas. No caso de Gabriela, o taser que carregava debaixo da blusa veio do pai, segurança profissional, acompanhado de um aviso: “Só use para legítima defesa. Cuidado para não matar ninguém com isso.”
Apesar de nunca ter precisado usá-lo, carregava o aparelho todos os dias, menos pelo que ele faria do que pelo barulho que produzia.
“A gente se sente um pouquinho mais segura. Só um pouquinho, porque para fazer alguma coisa você tem que encostar na pessoa. E isso é arriscado.”

Dina Alves, advogada e pesquisadora, alerta para o perigo do punitivismo para pensar em segurança pública nas hora do voto.
Dina Alves destaca que quando estratégias como essas se tornam necessárias para atividades cotidianas, parte da responsabilidade pela segurança acaba transferida para a própria trabalhadora.
“Quando uma mulher precisa carregar uma garrafa de vidro para conseguir voltar para casa em segurança, alguma coisa muito grave está acontecendo na nossa sociedade. Quando ela precisa gastar parte do próprio salário com Uber para não caminhar sozinha de madrugada, estamos diante de uma transferência de responsabilidade do Estado para a própria trabalhadora.”, explica.
Amanda saiu do bar no ano passado. O cansaço, para além do horário, segundo ela, era de carregar sozinha o custo de uma cidade que não enxerga quem a mantém acordada.
“Pensa em quantas pessoas trabalham de madrugada para manter São Paulo viva. Não é como se não fosse ninguém para pegar as linhas de madrugada.”, desabafa.
Mobilidade desperta esperança, mas com limitações
Uma mudança recente trouxe ânimo para quem trabalha de madrugada em São Paulo. Desde dezembro de 2025, as linhas 1-Azul, 2-Verde, 3-Vermelha e 15-Prata do Metrô passaram a funcionar 24 horas nas madrugadas de sábado para domingo, em caráter experimental. Em março de 2026, o projeto foi prorrogado por mais seis meses.
Amanda comemorou quando soube. Até perceber que as linhas sobre trilhos que atendem sua região não faziam parte da operação.
A Linha 5-Lilás, um dos principais acessos sobre trilhos à zona sul da capital, não integra a operação 24 horas e funciona regularmente até a meia-noite.
O mesmo ocorre com a Linha 9-Esmeralda, que se estende até Varginha, no extremo sul da cidade. As linhas 4-Amarela e 8-Diamante e as linhas operadas pela CPTM também não integram a operação experimental do Metrô durante toda a madrugada.
Para Dina, a mobilidade é um exemplo de outras condições que não podem estar ausentes no debate.
“Não adianta dizer que determinada região possui policiamento se a trabalhadora precisa caminhar vinte minutos no escuro até chegar ao ponto de ônibus”, afirma. “Mobilidade também é uma política de prevenção da violência.”
SPTrans, CPTM e as concessionárias responsáveis pelas linhas citadas foram procuradas para explicar a oferta de transporte público durante a madrugada e os critérios para a participação — ou não — na operação noturna sobre trilhos. Não houve resposta até o fechamento desta reportagem.
Serviços de apoio
Ligue 180: Central de Atendimento à Mulher. Serviço gratuito, disponível 24 horas, para orientação, acolhimento e encaminhamento de denúncias de violência contra mulheres.
Disque 100: canal nacional para denúncias de violações de direitos humanos. Serviço gratuito e disponível 24 horas.
Delegacias de Defesa da Mulher (DDM) em São Paulo
Centro
- 1ª DDM – Centro — Rua Vieira Ravasco, 26, Cambuci. Tel.: (11) 3275-8000. Funcionamento: 24 horas.
Zona Sul
- 2ª DDM – Sul — Av. Onze de Julho, 89, Saúde. Tel.: (11) 5084-2579. Funcionamento: 9h às 18h.
- 6ª DDM – Sul — Rua Sargento Manoel Barbosa da Silva, 115, Campo Grande. Tel.: (11) 5521-6068 / 5686-8567. Funcionamento: 9h às 18h.
Zona Oeste
- 3ª DDM – Oeste — Av. Corifeu de Azevedo Marques, 4300, Jaguaré. Tel.: (11) 3768-4664. Funcionamento: 9h às 18h.
- 9ª DDM – Oeste — Av. Menotti Laudisio, 286, Pirituba. Tel.: (11) 3974-8890. Funcionamento: 9h às 18h.
Zona Norte
- 4ª DDM – Norte — Av. Itaberaba, 731, Freguesia do Ó. Tel.: (11) 3976-2908. Funcionamento: 9h às 18h.
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- 8ª DDM – Leste — Av. Osvaldo do Valle Cordeiro, 190, Jardim Marília. Tel.: (11) 2742-1701. Funcionamento: 24 horas.
Edição: Agnes Sofia Guimarães


