Na semana da 4ª Semana Brasileira de Educação Midiática, organizada pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), a Coalizão de Mídias Periférica, Favelada, Quilombola e Indígena — articulação nacional que reúne 25 organizações de comunicação comunitaria, popular e independente em todas as cinco regiões do país — vem a público reafirmar seu posicionamento político e sua autoridade histórica na construção de um ecossistema informacional verdadeiramente democrático e antirracista.
A expressão “educação midiática” pode soar recente nas salas de conferência e nos formulários de grandes financiadores, mas o seu conceito e a sua prática já são desenvolvidos há décadas no coração das nossas periferias, favelas, quilombos e territórios indígenas.
Muito antes da consolidação das plataformas digitais e do debate sobre algoritmos, o letramento crítico da mídia, a formação cidadã, a desconstrução da violência simbólica e a denúncia do racismo estrutural já eram praticados por nossas rádios comunitárias, jornais de bairro, saraus, cursinhos populares, TVs educativas e mutirões de formação.
Para nós, a educação midiática não é uma novidade. Ela é um meio político fundamental para a garantia do direito à vida, ao território e à cidadania.
O nome é novo, mas quem faz sempre esteve aqui
A desinformação no Brasil não afeta a população de maneira homogênea. Ela atinge com mais força os corpos e territórios historicamente marginalizados.
No entanto, recusamos veementemente a narrativa paternalista e preconceituosa que retrata as periferias apenas como “vítimas passivas” ou “multiplicadoras analfabetas” de fake news.
Dados da nossa pesquisa inédita sobre consumo de notícias (acesse aqui) comprovam o oposto: a população das quebradas, favelas e territórios indígenas quer aprender a checar informações, quer saber diferenciar conteúdo verídico de desinformação e busca ativamente meios de se proteger da manipulação.
O gargalo não é a falta de interesse, mas sim as assimetrias de acesso à infraestrutura, a precariedade da conectividade e o distanciamento das agências tradicionais de checagem em relação ao cotidiano das pessoas.
Nossas 25 iniciativas operam justamente onde a mídia comercial falha: na criação de redes de confiança local, no jornalismo hiperlocal com escuta ativa e em pedagogias populares inspiradas na tradição freiriana e nas tecnologias ancestrais.
A pluralidade como força e método
Nossa atuação em educação midiática reflete a riqueza dos nossos territórios. Ela acontece:
– Nas escolas públicas e cursinhos populares, formando jovens para a leitura crítica das mídias;
– Nas ruas e praças, com faixas, lambe lambe, cartazes, panfletos, grafites, carros e bicicletas de som, bem como por meio da cultura e da literatura marginal;
– Nas rádios, podcasts e redes comunitárias, garantindo que idosos e trabalhadores rurais identifiquem golpes e boatos no WhatsApp;
– Nas comunidades quilombolas e territórios indígenas, unindo a defesa da terra ao uso estratégico de dados públicos e da Lei de Acesso à Informação (LAI).
Essa pluralidade prova que não existe uma solução única e padronizada para o Brasil. A educação midiática eficaz precisa respeitar os sotaques, as linguagens e a memória dos territórios de origem.
Presença em Brasília
Durante a 4ª Semana Brasileira de Educação Midiática, nossa delegação estará em Brasília para dialogar com o Governo Federal, universidades, organismos internacionais e atores do campo.
Entre as atividades, a Coalizão participa diretamente da reunião executiva “Educação Midiática no Ensino Superior”, do lançamento do “Guia para a Cobertura das Ações Governamentais: Diversidade e Pluralidade na Comunicação do Governo do Brasil” e da mesa temática “Diversidade e pluralidade na comunicação governamental”.
Além de participar de diferentes atividades do evento, nesta sexta (6/11) a Periferia em Movimento vai compor a mesa “Jornalismo e Educação Midiática como Infraestrutura Democrática no Brasil”. O debate acontece no Palácio do Planalto, sede do governo federal.
“Nós sempre combatemos a fake news com a educação midiática, antes de tudo, a notícia falsa de que as periferias, favelas, quilombolos e territórios indígenas não tem saberes, histórias, memórias e jeitos próprios de fazer jornalismo e educação”, aponta Aline Rodrigues, diretora de Relações Institucionais da Periferia em Movimento e integrante da comissão da Coalizão de Mídias na SBEM.
Reivindicando protagonismo e incidência política
A Coalizão não vai à capital federal apenas para assistir ao debate, mas para reivindicar nosso lugar na mesa como formuladores de políticas públicas e especialistas do assunto.
Defendemos e exigimos:
1. Reconhecimento histórico: a inclusão das organizações periféricas, faveladas, quilombolas e indígenas no centro da formulação da Estratégia Brasileira de Educação Midiática;
2. Financiamento estrutural e descentralizado: a destinação contínua de recursos públicos e filantrópicos para apoiar a sustentabilidade das mídias territoriais que realizam esse trabalho diário;
3. Soberania e autonomia narrativa: o combate ao modelo que nos trata como meros objetos de estudo ou público-alvo, afirmando nossa autonomia intelectual e pedagógica.
A democratização da comunicação só será real quando a produção de sentido e as diretrizes do país forem construídas com e a partir dos territórios.
A Educação Midiática brasileira tem história. E ela foi – e continua sendo – construída nos nossos territórios.



