As eleições são um momento fundamental da vida democrática. Para a Coalizão de Mídias Periférica, Favelada, Quilombola e Indígena, falar sobre democracia nesse período significa também falar sobre quem tem acesso à informação, quem produz informação, quais vozes conseguem participar do debate público e em quais condições jornalistas, comunicadoras e comunicadores exercem o seu trabalho nos diferentes territórios brasileiros.
Por isso, durante as Eleições de 2026, a Coalizão de Mídias torna público seu posicionamento em defesa do direito à informação, da democracia, da justiça racial, dos direitos humanos, da diversidade, da justiça climática e ambiental, dos direitos das mulheres e da liberdade de imprensa.
Não existe democracia sem direito à informação
A pesquisa “Dos territórios indígenas às periferias: retratos da desinformação e do consumo de notícias para reimaginar a justiça informacional no Brasil”, realizada pela Coalizão de Mídias, evidencia que o acesso à informação, as relações de confiança, o consumo de notícias e as experiências com a desinformação são atravessados pelas desigualdades existentes no país.
Essas desigualdades também são raciais, territoriais, econômicas, sociais, culturais e tecnológicas.
Durante um processo eleitoral, isso importa ainda mais.
Ter acesso a informações confiáveis, compreensíveis, contextualizadas e conectadas às realidades dos territórios interfere diretamente nas condições que cada pessoa possui para compreender o que está em disputa, conhecer propostas, acessar direitos, participar do debate público e exercer plenamente sua cidadania.
Por isso, para nós, enfrentar a desinformação não significa apenas reagir a conteúdos falsos.
Significa disputar as condições pelas quais a informação circula no Brasil.
Significa fortalecer as redes de confiança construídas nos territórios. Reconhecer quem produz jornalismo a partir das periferias, favelas, quilombos, aldeias, comunidades tradicionais, cidades, campos e regiões historicamente invisibilizadas. Garantir educação midiática. Defender políticas públicas de comunicação. Ampliar o acesso à informação pública. E proteger quem exerce o direito de informar.

Jéssica Alves e Carolaine Nunes, Agentes de Integridade da Informação da Periferia em Movimento, batem de porta em porta para ouvir população (foto Periferia em Movimento)
Não somos neutros diante de violações de direitos
A Coalizão de Mídias é formada por organizações que produzem jornalismo, comunicação e educação midiática a partir de territórios marcados por desigualdades, mas também por resistência, produção de conhecimento, organização política e construção de outras possibilidades de futuro.
É a partir desse lugar que nos posicionamos.
Somos contra o racismo e todas as formas de violência racial.
Somos contra a violência contra as mulheres, a misoginia e o feminicídio. Defendemos o direito das mulheres à vida, à dignidade, à autonomia, à segurança e a uma vida livre de todas as formas de violência.
Somos contra a LGBTfobia, o capacitismo, a xenofobia e todas as formas de discriminação e violência que negam direitos e dignidade às pessoas.
Somos contra a destruição ambiental, o desmatamento e processos que ameaçam a vida, os territórios, as águas, as florestas e as populações que historicamente cuidam e dependem desses espaços.
Defendemos os direitos dos povos indígenas, das comunidades quilombolas, das populações periféricas, faveladas, ribeirinhas e dos povos e comunidades tradicionais.
Defendemos a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa e o direito de jornalistas e comunicadores exercerem seu trabalho sem ameaças, perseguições, assédio ou violência.
Defendemos o direito à informação como um direito fundamental para o exercício da cidadania e da democracia.
Esses princípios não surgem apenas em períodos eleitorais. Eles fazem parte da atuação cotidiana das iniciativas que constroem a Coalizão de Mídias e orientam a forma como compreendemos o papel da comunicação e dos jornalismos na sociedade.
Nossa solidariedade ao Tapajós de Fato
É também a partir desses princípios que manifestamos nossa solidariedade ao Tapajós de Fato, mídia territorial de Santarém, no oeste do Pará, que integra a Coalizão de Mídias.
Em setembro de 2026, tornou-se pública a decisão do veículo de não realizar a cobertura sistemática das eleições deste ano, depois de anos de ameaças, perseguições e episódios de violência enfrentados por integrantes de sua equipe.
Para a Coalizão de Mídias, é inaceitável que jornalistas, comunicadoras e comunicadores tenham que escolher entre exercer seu trabalho e preservar a própria vida.
Quando uma mídia deixa de realizar uma cobertura eleitoral porque não existem condições de segurança para suas e seus profissionais, todo território perde.
Perdem as moradoras e os moradores que deixam de ter acesso a informações produzidas a partir de seu território. Perdem as comunidades cujas pautas deixam de ocupar o debate público. Perde o jornalismo. E perde a democracia.
Nossa solidariedade ao Tapajós de Fato é também uma defesa de todos os jornalistas, comunicadoras e comunicadores e mídias territoriais que enfrentam ameaças, intimidações, perseguições, violência política, ataques digitais e outras formas de violência por exercerem o direito de informar.
Nenhuma e nenhum jornalista ou comunicadora/comunicador deveria precisar silenciar ou se retirar do seu território para permanecer vivo.
Proteger quem informa precisa ser uma responsabilidade pública e uma prioridade democrática.
Reforçamos às candidaturas que a comunicação popular e comunitária e o jornalismo precisam ser prioridade também depois das eleições. Os territórios não podem ser procurados apenas durante a campanha em busca de apoio e fortalecimento de candidaturas. Esperamos diálogo permanente, compromisso com a defesa de jornalistas, comunicadoras e comunicadores e posicionamento diante das violências que sofremos. Esse compromisso precisa aparecer também no exercício do mandato.
O que defendemos nestas eleições
Nas Eleições de 2026, queremos contribuir para que algumas questões sejam tratadas como estruturais no debate público brasileiro.
Defendemos que o direito à informação seja reconhecido e fortalecido por políticas públicas, considerando que as desigualdades informacionais atingem de formas diferentes os diversos territórios e grupos sociais do país.
Defendemos o fortalecimento das mídias periféricas, faveladas, quilombolas, indígenas, comunitárias e territoriais, com políticas de financiamento, publicidade pública, editais e outros mecanismos que contribuam para sua sustentabilidade e autonomia.
Defendemos a educação midiática como política pública permanente, capaz de fortalecer a autonomia das pessoas para acessar, compreender, analisar criticamente, produzir e compartilhar informações.
Defendemos políticas de integridade da informação construídas também a partir dos territórios, reconhecendo as redes locais de confiança, os conhecimentos produzidos pelas comunidades e as diferentes formas pelas quais a desinformação atravessa a vida das pessoas.
Defendemos políticas efetivas de proteção integral de jornalistas e comunicadores, que considerem segurança física e digital, proteção de dados e fontes, enfrentamento ao assédio e à violência política, cuidado psicossocial e mecanismos institucionais capazes de responder a ameaças e ataques.
Defendemos uma democracia comprometida com o enfrentamento à violência contra as mulheres e ao feminicídio, com políticas públicas que protejam a vida, a dignidade, a autonomia e os direitos das mulheres.
E defendemos uma democracia na qual racismo, LGBTfobia, violência contra as mulheres, feminicídio, destruição ambiental, violência política, ataques à imprensa e outras violações de direitos não sejam naturalizados, relativizados ou tratados como parte aceitável do debate eleitoral.
Territórios precisam estar no centro da democracia
Ao longo das Eleições de 2026, as iniciativas que integram a Coalizão de Mídias seguirão produzindo jornalismo, realizando ações de educação midiática, ouvindo seus territórios e colocando em circulação informações conectadas às realidades de periferias, favelas, quilombos, territórios indígenas e diferentes regiões do país.
Nossa atuação parte de uma convicção:
Informação é direito.
E garantir esse direito exige reconhecer que democracia não se constrói apenas no momento do voto.
Democracia também se constrói garantindo que diferentes populações tenham condições de acessar informações de qualidade, produzir suas próprias narrativas, participar do debate público e cobrar do Estado respostas para os problemas que atravessam suas vidas.
Colocar os territórios no centro das eleições é também colocá-los no centro da democracia.
Em 2026, a Coalizão de Mídias reafirma seu compromisso com o direito à informação, com a liberdade de imprensa, com os direitos humanos, com os direitos das mulheres, com a justiça racial, social, climática e ambiental e com uma democracia construída a partir da diversidade e da realidade dos territórios brasileiros.




