Diante da falta de apoio do poder público e da fragilidade das redes comunitárias de solidariedade, mães e cuidadoras relatam como a sobrecarga cotidiana influencia suas expectativas e escolhas eleitorais em 2026.
Aquiles Marchel Argolo
Durante a pandemia de Covid-19, a sobrecarga do cuidado ganhou novos contornos para mulheres periféricas que precisaram conciliar a sobrevivência da família com a ausência de redes de apoio. Segundo a pesquisa Sem Parar, realizada pela organização de jornalismo de dados Gênero e Número e pela Sempreviva Organização Feminista (SOF), metade das 2.641 mulheres entrevistadas em 2020 passou a cuidar de alguém durante a crise sanitária. Para 65,4%, o trabalho doméstico e de cuidado dificultava muito o exercício de uma atividade remunerada.
Seis anos depois, a responsabilidade permanece concentrada sobre as mulheres. Uma nova edição da pesquisa, realizada em 2025, identificou que 43% das participantes eram as únicas responsáveis pelo cuidado de alguém, ante 30% em 2020.
Às vésperas das eleições, a persistência da sobrecarga recoloca uma pergunta: quem cuida das cuidadoras?
Para Kátia de Melo, 45 anos, moradora da Cidade Patriarca, na zona leste de São Paulo, a falta de respostas se traduz em uma rotina marcada pelo isolamento. Viúva e mãe solo de um adolescente autista, diagnosticado com esquizofrenia, e de uma menina de 12 anos, ela deixou o trabalho formal durante a pandemia porque não tinha com quem dividir os cuidados dos filhos.
“Minha rede de apoio mais presente era meu pai, mas ele faleceu há um ano também e desde então fico

Joseane e sua filha Mirian, de 10 anos. (Foto: Acervo Pessoal).
bem mais confinada em casa, cuidando deles. Raramente saio até para coisas básicas, como mercado, médico”, relata.
Há cinco anos, Kátia tenta acessar serviços e benefícios assistenciais, sem sucesso. O tratamento do filho é custeado com a ajuda de familiares, enquanto ela enfrenta dificuldades burocráticas para obter o reconhecimento dos diagnósticos e garantir o acesso aos direitos solicitados.
Quando questionada sobre o que espera das candidaturas nas eleições de 2026, Kátia demonstra pouca confiança na possibilidade de encontrar representantes atentos à realidade das mães solo periféricas, especialmente daquelas responsáveis pelo cuidado de crianças com deficiência.
“Não espero que haja candidatos conscientes da situação financeira e emocional de mães solo periféricas, ainda pior para as mães de crianças atípicas. Mais da metade dos lares hoje são chefiados por mães solo, maioria pretas como eu”, destaca.
Embora a proporção de mães solo seja inferior à mencionada por Kátia, os dados confirmam a dimensão racial da responsabilidade familiar. Segundo levantamento da Fundação Getulio Vargas (FGV), realizado a partir da PNAD Contínua, 51,7% dos lares brasileiros tinham mulheres como referência financeira no final de 2024. Entre elas, 53% eram negras. As mães solo representavam 12,3 milhões de mulheres, aproximadamente 30% das chefes de família.
Quando questionada sobre com quem pode dividir as responsabilidades do cuidado, Ednéia Gomes, 41 anos, é categórica: “Ninguém”.
Enfermeira e moradora do Jardim São Savério, na região sudeste de São Paulo, ela é mãe de Dandara, de 8 anos. Sem uma rede de apoio familiar, enfrenta sozinha os desafios de conciliar a criação da filha com o trabalho na área da saúde.
Apesar das dificuldades, Ednéia apresenta expectativas concretas sobre as respostas que espera do poder público após as eleições de 2026.
“Políticas públicas de apoio às mães, especificamente as mães solo, como creches com horário mais estendido, leis que apoiem e flexibilizem mais a carga horária de trabalho das mães e políticas de incentivo a empresas que contratam mães de crianças pequenas. Investimento em educação pública, SUS sem fila de espera e atendimento digno e humanizado nas urgências e emergências pediátricas”, enumera.

Ednéia e sua filha: enfermeira encontra desafios em conciliar trabalho dedicado à saúde e criação sem rede de apoio familiar. (Foto: Acervo Pessoal).
As reivindicações de Ednéia encontram correspondência em parte dos programas eleitorais. Segundo levantamento do Instituto Update, divulgado em setembro, sete das 12 candidaturas à Presidência analisadas apresentam propostas relacionadas às políticas de cuidado, incluindo a ampliação de creches e serviços públicos.
Embora algumas relacionem as medidas à autonomia econômica das mulheres e à redução da sobrecarga doméstica, outras abordam o tema principalmente pela perspectiva do apoio à maternidade e à família. Apenas três programas apresentam propostas que diferenciam as necessidades de grupos específicos de mulheres.
Para Kátia, a responsabilização feminina pelo cuidado está associada a um conjunto mais amplo de escolhas políticas que, em sua avaliação, perpetuam a vulnerabilidade das mulheres negras. A presença do tema nos programas eleitorais, portanto, não encerra seus questionamentos sobre a atuação do Estado.
“Por mais que eu tenha tentado sair do que o Estado espera e deseja para nós, mulheres pretas, a gente nasce com um alvo difícil de escapar. Acredito que assim como há um projeto de falência educacional, projeto de mobilidade ruim nas grandes cidades, projeto de genocídio e apagamento com a necropolítica, também existe um plano para que o aborto seja considerado crime, mas o abandono parental masculino seja perpetuado”, afirma.
Política Nacional de Cuidados: o desafio de chegar às periferias
A dificuldade de conciliar o cuidado com o trabalho remunerado atravessa a trajetória de Joseane, que deixou a vida profissional para assumir os cuidados integrais da irmã Maria Clara, pessoa com síndrome de Down. Além da irmã, ela é mãe de Mirian, de 10 anos, carinhosamente chamada de Mimi. Atualmente, a renda da família de seis pessoas depende principalmente do trabalho do marido.
“A pessoa para a vida pra cuidar de quem precisa e não tenho nenhum tipo de ajuda a não ser do meu marido que trabalha como um louco pra sustentar uma casa de 6 pessoas”, relata.
Para Joseane, a possibilidade de retomar uma atividade remunerada esbarra ainda em uma preocupação: perder o Benefício de Prestação Continuada (BPC), recebido pela irmã. O benefício assistencial, destinado a pessoas idosas de baixa renda e pessoas com deficiência que atendam aos critérios legais, considera a renda familiar entre os requisitos para sua concessão e manutenção.
“Eu não posso trabalhar por cuidar da minha irmã especial Maria Clara, pois se eu trabalhar automaticamente ela perde o benefício LOAS dela, que acho um absurdo”, afirma.
A preocupação relatada por Joseane encontra correspondência em uma discussão legislativa em andamento. O Projeto de Lei nº 1.812/2026, apresentado no Senado, propõe flexibilizar os critérios de avaliação da renda familiar para o acesso ao BPC. Entre as mudanças previstas estão a desconsideração de parte dos rendimentos provenientes de um novo emprego e a possibilidade de descontar despesas contínuas com tratamentos de saúde e tecnologias assistivas.
A proposta busca reduzir o risco de que a entrada de um integrante da família no mercado de trabalho comprometa a proteção assistencial de quem necessita do benefício.
A discussão integra um problema mais amplo: garantir proteção social a quem recebe cuidado sem comprometer a autonomia econômica de quem assume essa responsabilidade.
Instituída em dezembro de 2024, a Política Nacional de Cuidados reconhece o direito de cuidar, receber cuidado e exercer o autocuidado. A legislação estabelece que a responsabilidade deve ser compartilhada entre Estado, famílias, setor privado e sociedade civil, considerando as desigualdades de gênero, raça e território.
Entre as medidas previstas estão a ampliação de serviços como creches e centros-dia para pessoas idosas e pessoas com deficiência, além de iniciativas voltadas à conciliação entre trabalho remunerado e responsabilidades familiares.
Para mulheres como Joseane, Kátia e Ednéia, o desafio está em transformar o reconhecimento legal do cuidado em condições materiais que permitam dividir uma responsabilidade ainda concentrada no cotidiano familiar.
Amém ou axé: a religião como ponto de apoio
Quando os serviços públicos não conseguem atender às necessidades cotidianas das famílias, organizações religiosas e iniciativas comunitárias podem se tornar importantes redes de acolhimento nas periferias. Igrejas evangélicas e terreiros de religiões de matriz africana desenvolvem atividades que ultrapassam a prática religiosa, oferecendo desde alimentos até espaços de convivência e apoio a pessoas em situação de vulnerabilidade.

Katia e os filhos (Foto: Acervo Pessoal)
A presença das instituições religiosas acompanha mudanças no perfil da população brasileira. Segundo o Censo 2022, a proporção de evangélicos passou de 21,6% para 26,9% entre 2010 e 2022. No mesmo período, a participação de pessoas que declararam pertencer à umbanda ou ao candomblé passou de 0,3% para 1%. Os percentuais consideram a população com dez anos ou mais.
Na rua onde mora Joseane, uma igreja evangélica e um terreiro compartilham o território e desenvolvem iniciativas de apoio à comunidade.
O pastor, que pediu para não ter o nome divulgado por desconfiar da imprensa, conta que a igreja oferece cestas básicas a fiéis em situação de necessidade, mas prefere não detalhar as demais atividades sociais realizadas pela instituição.
“A gente faz muita coisa. Quando uma irmã precisa, damos alguma coisa, mas o mais importante é encher a pessoa da palavra de Deus e assim ela se sentir renovada para conseguir o que almeja”, conta.
Já o terreiro comandado por Pai Cláudio recebe mensalmente pessoas em situação de vulnerabilidade econômica para um almoço comunitário. A iniciativa, porém, enfrenta limitações financeiras. Segundo ele, os terreiros, antes numerosos no bairro Malvinas, na periferia de Guarulhos, atualmente se resumem a um, reduzindo a capacidade de mobilização das redes locais de solidariedade.
“A gente faz o que pode para ajudar algum desvalido, muitas vezes meninas que aparecem grávidas e desesperadas porque não sabem o que fazer. Só que a gente mesmo anda em tempo de vacas magras. Não temos o luxo das igrejas evangélicas, né, filho?”, reflete Pai Cláudio.
A atuação comunitária das instituições religiosas convive com sua participação no debate político. Em períodos eleitorais, a relação entre fé e voto ganha visibilidade, embora o pertencimento religioso não signifique necessariamente adesão às orientações políticas de lideranças espirituais.
Entre as cuidadoras ouvidas pela reportagem, as experiências mostram diferentes maneiras de relacionar religiosidade e escolha eleitoral.
Para Kátia, que é do candomblé, a religião não determina seu voto. Segundo ela, a consciência racial e de gênero tem maior peso na avaliação das candidaturas.
“Sempre tento votar em candidatos pretos e nunca ajudei a eleger nenhum candidato da direita e da extrema- direita, porque tenho total ciência do posicionamento deles para pessoas como eu e tudo que eu represento”, afirma.
Ednéia, por sua vez, considera a utilização de referências religiosas nas campanhas um motivo para rejeitar determinadas candidaturas.
“Se não votar em crente ou quem cita Deus ou qualquer religião em campanha política for uma influência, sim, influencia. Eu prefiro não votar em candidatos com essas bandeiras”, explica.
Evangélica, Joseane afirma que o pertencimento religioso não deve orientar suas escolhas eleitorais. Para ela, conhecer as candidaturas é uma condição fundamental para decidir o voto.
“Não influenciam meu voto porque se eu não conhecer quem são os candidatos e quem vão assumir o poder, não podemos colocar qualquer um no poder. Temos que conhecer, estudar bem quem são”, destaca.
Edição: Agnes Sofia Guimarães


