Entre o Scroll e o Silêncio: como adolescentes da periferia aprendem sobre sexualidade na era das redes sociais

Entre o Scroll e o Silêncio: como adolescentes da periferia aprendem sobre sexualidade na era das redes sociais

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Tempo de leitura: 7 minutos

Adolescentes de diferentes periferias e especialistas em educação sexual indicam que a formação sobre gênero e sexualidade também passa pelas redes de apoio que as juventudes conseguem acessar.

Por Aquiles Marchel Argolo. Edição: Agnes Sofia Guimarães

O celular de Mayra Gabrielle, 15 anos, é um portal para um universo de tutoriais de cabelo, unhas decoradas e histórias de fatos reais no TikTok. As curiosidades sobre sexo e relacionamento ficam restritos aos papos com amigas. “Não costumo pesquisar sobre assuntos relacionados à sexualidade na internet”, diz a moradora da periferia de Guarulhos.

Sua afirmação é um retrato de uma geração que, ao contrário do que se imagina, nem sempre transforma o algoritmo em fonte primária de educação sexual.

Para compreender onde jovens das periferias buscam informações sobre gênero e sexualidade, a Periferia em Movimento ouviu adolescentes de localidades distintas, e especialistas que atuam com educação sexual e proteção de crianças e adolescentes. 

A partir das conversas com as juventudes da periferia, o que se desenha é um mapa complexo: o TikTok e o Instagram são celeiros de entretenimento, mas não necessariamente de informação sobre sexo.

A escola aparece como um espaço de potencial não realizado. A família, quando presente, é o porto seguro,  mas, para muitos, a navegação é solitária.

“Quando surgem dúvidas em relação ao corpo, à sexualidade, aos conflitos emocionais, às mudanças da puberdade, aos hormônios, à primeira menstruação, à menarca, à poluição noturna dos meninos, enfim, eles acabam recorrendo à internet em busca de respostas. Isso acontece porque esses assuntos, na maioria das vezes, não são falados dentro de casa.”, defende a Daniela Barbosa, assistente social da Rede de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes do Extremo Sul de São Paulo.

Para a especialista, o uso da internet como fonte de conhecimento acontece a partir da ausência de oportunidades enfrentadas pela juventude quando estão longe das telas.

Escola está ausente do debate

Embora os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) prevejam a educação sexual como tema transversal desde a década de 1990, os adolescentes ouvidos pela reportagem afirmam que esse espaço ainda é pouco ocupado pelas escolas. As conversas, quando acontecem, costumam ser pontuais e raramente avançam para discussões sobre relacionamentos ou consentimento.

A percepção também aparece na trajetória profissional de Daniela Barbosa. Ao longo de quase duas décadas de atuação na Rede de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes do Extremo Sul de São Paulo, ela afirma que as escolas ainda demonstram resistência para tratar do tema.

“Ao longo de quase 17 anos de atuação na Rede de Enfrentamento, acredito que realizamos atividades em apenas cinco escolas. De modo geral, percebemos que ainda existe muito receio em abordar essa temática.”

Ela lembra de uma experiência que marcou sua trajetória. Depois que uma adolescente participou de uma oficina da Rede e compartilhou, em sala de aula, o que havia aprendido, a escola convidou a equipe para conversar com outros estudantes.

Jovem com perfil aberto em redes sociais. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

“Durante a atividade, foi como se um gatilho tivesse sido acionado. Outras adolescentes se emocionaram e passaram a compartilhar suas vivências. Aquele momento evidenciou o quanto situações de abuso e violência estão presentes no cotidiano de muitos meninos e meninas e, ao mesmo tempo, permanecem silenciadas dentro das escolas. Foi uma experiência que mostrou o quanto esses espaços de diálogo são necessários e podem representar uma oportunidade de acolhimento, escuta e proteção.”, celebra.

Na falta de uma aula, Pedro Tosta, 16 anos, da periferia de Florianópolis, adota uma rota mais pragmática. Ele relata tirar dúvidas sobre sexo e relacionamento no Google e em IAs generativas. “Pesquiso no Google ou em IAs tipo o Chat GPT ou o Grok, que é mais completo.”, explica.

O estudante já ouviu falar dos red pills, grupos e influenciadores que difundem discursos misóginos e defendem uma visão de superioridade masculina nas redes sociais, mas diz que não consome esse tipo de conteúdo. 

“Ouvi falar que eles têm uma visão bem errada sobre mulheres. Esses dias vi uma capa de um vídeo que estava escrito ‘trate uma mulher como um morador de rua’ achei engraçado pelo absurdo.” E completa: “Não vai agregar muito na minha vida.”

Sobre os red pills, Mayra nunca ouviu falar. O movimento feminista, por outro lado, é uma palavra que conhece, ainda que de longe: “Embora eu não entenda muito, sei que é importante para defender as mulheres.”, reflete.

Quando o direito não chega para todo mundo

As trajetórias de Mayra, Pedro, Marcos e Matheus mostram que o acesso à informação sobre sexualidade ainda depende, em grande medida, das oportunidades que cada adolescente encontra ao longo da vida. Enquanto alguns contam com espaços de diálogo em casa ou em projetos sociais, outros precisam recorrer sozinhos à internet ou às amizades para esclarecer dúvidas.

No Brasil, a educação sexual integra os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) desde 1998 como um tema transversal, mas sua implementação permanece desigual entre as escolas. Em 2025, a Lei nº 15.211, conhecida como ECA Digital, ampliou mecanismos de proteção para crianças e adolescentes nas plataformas digitais, como a verificação de idade e ferramentas de acompanhamento para famílias.

A legislação representa um avanço na proteção online, mas não substitui políticas públicas voltadas à educação sexual e ao fortalecimento das redes de apoio.

Para Daniela Barbosa, a prevenção começa antes mesmo de uma situação de violência.

“Falar sobre sexualidade não é incentivar o início da vida sexual. Falar sobre sexualidade é falar sobre o corpo, sobre emoções, sentimentos, limites, respeito, autocuidado, consentimento e desenvolvimento. É falar sobre quem somos, sobre como nos percebemos e sobre como nos relacionamos com o mundo.”, reforça

Enquanto isso, os adolescentes ouvidos pela reportagem seguem construindo seus próprios caminhos. Matheus encontra espaço para conversar em casa. Pedro recorre às ferramentas de inteligência artificial quando tem dúvidas. Marcos busca referências nas experiências que viveu e Mayra prefere conversar com as amigas. As trajetórias são diferentes, mas revelam um desafio comum: garantir que o acesso à informação de qualidade sobre sexualidade não dependa apenas da iniciativa individual ou das condições de cada família.

 

 

 

 

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