Festa Literária de Heliópolis: em primeira edição, evento celebra literatura periférica com 20 estreantes

Festa Literária de Heliópolis: em primeira edição, evento celebra literatura periférica com 20 estreantes

Com distribuição de vales para instituições locais comprarem livros de editoras independentes, FEHELIPA conecta segunda favela mais populosa de São Paulo a circuito de feiras literárias nas periferias

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Tempo de leitura: 10 minutos

Texto e fotos por Khadja Ferraz. Edição: Thiago Borges

“Eu não era branco, não era velho e não era rico. Aí, na minha cabeça, eu não ia publicar nunca!” 

A frase do escritor, ator e entusiasta da arte PC Marciano resume uma realidade que impulsiona iniciativas como a Festa Literária de Heliópolis (FEHELIPA), realizada no último domingo (26/4).

Em sua primeira  edição, o evento reuniu 20 autoras e autores estreantes, além de editoras independentes, coletivos culturais, artistas e a população da comunidade.

Realizada na Praça Padre Pedro Balint, no Sacomã (Zona Sudeste de São Paulo), a festa também celebrou o encerramento do projeto Litera Helipa, iniciativa da Editora Gráfica Heliópolis (EGH) dedicada ao fortalecimento da produção literária nas periferias.

Em conversa com a Periferia em Movimento, o idealizador PC Marciano nos contou que planejava ter uma feira desde a criação da editora, em 2018. Porém, o coletivo não tinha maturidade suficiente para dar andamento a isso.

Depois de muitas pesquisas e mais de 150 títulos publicados, ele afirma que este “é o momento certo”.

Como tudo começou? 

PC Marciano e sua companheira Elaine Vital (Foto por: Khadja Ferraz)

PC Marciano e sua companheira Elaine Vital (Foto por: Khadja Ferraz)

Quando criança, PC tinha dificuldade com a fala, e a escrita foi o caminho para que ele se comunicasse de forma mais efetiva. Desde então, se envolveu com o teatro, com a música e seguiu escrevendo um pouco de tudo – poemas, contos, roteiros de cinema, entre outros.

Em meados de 2008, conquistou uma bolsa de estudos para cursar Letras. Foi na faculdade que conheceu uma professora que admirava seus textos. Ainda assim, havia um livro que ele nunca tinha mostrado a ela.

O motivo? A obra já havia sido enviada a diversas editoras e recusada por todas. Para PC, a conclusão era simples: O livro era ruim! Mas a professora explicou que a questão nunca foi a qualidade do livro.

“O meu CEP não ‘ajudava’, a minha família não ‘ajudava’, minha cor não ‘ajudava’, nada de mim ‘ajudava’ (…) Não é que meu livro era ruim. É que eu não fazia parte daquele perfil editorial. O mercado é seletivo” – PC Marciano, fundador da EGH e idealizador da FEHELIPA.

E é aí que inicia o seu mapeamento em Heliópolis atrás de pessoas que escreviam , dando o primeiro passo para o que anos depois daria início ao “Litera Helipa”.

Como foi a feira?

A FEHELIPA recebeu mais de 20 editoras independentes, além de uma tenda dedicada a autores e autoras independentes..

“Quando a gente fala de eventos de literatura periférica, essa disputa do imaginário às vezes parece longe”, aponta Israel Neto, autor e editor da Editora Kitembo.

Para ele, a presença de editoras independentes é ir contra esse pensamento e afirmar que todos podem sonhar.

A fim de ampliar a economia criativa e fortalecer quem iniciou na literatura recentemente, foram distribuídos mais de R$ 18 mil em vouchers para instituições locais que atendem crianças em vulnerabilidade, mulheres vítimas de violência doméstica, pessoas LGBTQIAPN+, pessoas pretas e com deficiência.

 “É um movimento de ter vários lugares onde a gente consegue se reconhecer e se conectar, uma forma efetiva do que ouvimos por muito tempo: o ‘ninguém solta a mão de ninguém’”, ressalta Lucas Becerra, representante da Impacto Agasias – Clube LGBT de Teatro, uma das instituições a receber vouchers.

O evento homenageou o rapper Sabotage, e sua filha Tamires Sabotage subiu ao palco para receber um troféu em reconhecimento ao trabalho artístico do pai, que sempre citou Heliópolis em suas letras.

E entre os 20 novos autores presentes na feira, a Periferia em Movimento conversou com duas mulheres de gêneros literários diferentes, mas que se encontram e se identificam através das barreiras impostas à literatura feminina periférica.

Clique nas abas e conheça as autoras:

“Cada poesia carrega amor, sonhos e muita resistência. Ali estão minhas vivências, minhas lutas e a minha história materializada em páginas que posso tocar e compartilhar com outras pessoas”.

Jussara, mulher negra de 41 anos, cresceu em uma família pobre, com pais sem acesso ao estudo, e por muito tempo, não se enxergou como uma potencial escritora. 

Moradora de Itaquera (Zona Leste), a escritora destaca que por mais que tenha enfrentado muitos obstáculos nunca se permitiu desistir. 

“Além de ser mulher da periferia, eu também sou mãe, o que torna o caminho ainda mais desafiador, mesmo assim, sempre acreditei em mim e segui em frente!”

Na FEHELIPA, Jussara apresenta o livro Entre Sonhos e Conquistas, uma coletânea de poesias inspiradas em suas vivências cotidianas.

A obra dialoga diretamente com mulheres e pessoas em geral que se identificam com a poesia periférica e contemporânea, trazendo à tona experiências marcadas por resistência e superação. 

Viviane iniciou sua trajetória na escrita de forma inusitada: criando cartas poéticas a pedido de amigas e colegas de escola, que eram destinadas aos seus namorados.

O que começou como um gesto simples logo revelou um talento que ela já carregava.

“Sempre gostei de escrever, mas houve um momento em que quis fazer algo pelas crianças da comunidade, levar alguma atividade para elas”. 

Foi assim que passou a criar histórias voltadas ao público infantil, reconhecendo, nesse processo, sua habilidade e potência na escrita.

Apesar disso, o caminho não foi fácil. Viviane relata que enfrentou o descrédito de pessoas próximas durante o processo de criação

“Para esse livro nascer, muitas pessoas tiveram que morrer emocionalmente para mim. Tentaram me convencer de que eu não tinha talento suficiente.”

Na FEHELIPA, Viviane apresenta o livro voltado ao público infantil Akàn O Caranguejo, uma história encantadora sobre identidade, ancestralidade e o poder de se sentir em casa.

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