Família de Carolina de Jesus e coletivos de Parelheiros questionam Prefeitura sobre lugar escolhido para estátua da escritora

Família de Carolina de Jesus e coletivos de Parelheiros questionam Prefeitura sobre lugar escolhido para estátua da escritora

Thiago Borges

Thiago Borges

A Prefeitura de SP quer instalar a estátua no parque linear do distrito onde a homenageada viveu. Em manifesto, movimento diz que lugar é escondido, pouco frequentado e defende monumento na praça do centro histórico da região

“Carolina de Jesus merece estar na sala de visitas!”.

Assim começa um manifesto lançado no final de semana passado e que já foi assinado por mais de 2 mil pessoas até esta sexta-feira (25/2). O texto defende a instalação da estátua em homenagem à escritora negra na praça Julio Cesar de Campos, no centro histórico de Parelheiros (distrito do Extremo Sul de São Paulo).

A Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de São Paulo, que é responsável pela iniciativa, quer colocar o monumento no parque linear de Parelheiros, que segundo a população fica afastado dos pontos de maior circulação e está vulnerável a depredações. Para familiares e coletivos de cultura locais, isso manteria Carolina no “quarto de despejo” que ela sempre denunciou.

“Estamos reivindicando a instalação da escultura da Carolina na praça principal, na sala de visitas de Parelheiros (…) A praça é um local onde sempre aconteceram eventos principais. A Carolina gostava da festa de Santa Cruz, tinha vários eventos que aconteciam e ela tinha essa relação de amor com o bairro, com o centro histórico e com a circunferência da igreja”

Lucimeire Juventino, professora, pesquisadora e escritora que integra o comitê responsável pelo manifesto

“Existe todo um contexto pra homenagear uma figura que representa a comunidade negra. Precisa existir um respeito à ancestralidade, à cultura afrobrasileira (…) As coisas não funcionam bagunçadas”, diz Lucimeire. Clique aqui para ler o manifesto na íntegra.

O comitê é formado por familiares de Carolina, incluindo sua filha Vera Eunice de Jesus, e coletivos e organizações locais, como Sarauê, Fórum de Cultura de Parelheiros, SerTão Perifa, Sarau Resistir É Preciso, Finde Mundo, Parelheiros Turístico, ISCA e o Restaurante da Marlene.

O grupo articula uma manifestação poética para este domingo (27/2), a partir das 9h, na praça onde reivindicam a instalação da estátua. Por meio de nota enviada à Periferia em Movimento, a Secretaria Municipal de Cultura informa que vai convocar uma reunião com os movimentos que pedem a alteração do local e que está “aberta ao diálogo com todos os coletivos” (confira no final do texto).

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Memória e identidade

Segundo estudo do Instituto Pólis, apenas 3% das esculturas monumentos da cidade de São Paulo são dedicados a homenagear a cultura ou personalidades negras. E somente uma representa a mulher negra – “Mãe Preta” (ama de leite), localizada no Largo do Paissandu, no centro da capital.

O debate sobre o patrimônio histórico ganhou ainda mais força após a manifestação que colocou fogo na estátua do bandeirante Borba Gato, em julho do ano passado. No mês seguinte, a Prefeitura paulistana anunciou a implementação de estátuas em referência a 5 personalidades negras da cidade: a do cantor e compositor Itamar Assumpção, inaugurada em dezembro na Casa de Cultura da Penha; da sambista e ativista Mãe Eunice (Deolinda Madre), na Liberdade; do atleta olímpico Adhemar Ferreira da Silva, na zona Norte; do sambista Geraldo Filme, na Barra Funda; e de Carolina, em Parelheiros.

Nascida em 1914, em Sacramento (MG), Carolina migrou ainda jovem para São Paulo e se estabeleceu na extinta favela do Canindé, onde sobreviveu catando papéis e como empregada doméstica. Nos intervalos, ela registrava seu cotidiano em diários que deram origem ao livro “Quarto de Despejo”. A obra vendeu mais de 1 milhão de cópias em 40 países, foi traduzida para 14 idiomas e revelou a escritora mineira, que com isso conseguiu construir uma casa em Parelheiros. Foi no Extremo Sul de São Paulo em que Carolina viveu com 3 filhos até morrer, aos 62 anos.

Lucimeire Juventino, durante episódio da série de reportagens “Matriarcas” (foto: Periferia em Movimento)

“A Carolina ia na farmácia, circulava nos comércios do centro histórico, conversava com pessoas e vizinhos. Lá a Carolina foi feliz, como a Vera (filha da escritora) sempre fala”, explica Lucimeire, que recebeu o “pedido de socorro” de Vera Eunice. Apesar do anúncio feito pela Prefeitura, a família da escritora não foi consultada na época. A estátua, inclusive, seria inaugurada no último 13 de fevereiro, data da morte de Carolina. Com a mobilização de coletivos e artistas locais, o grupo conseguiu o adiamento.

A luta, agora, é para que o monumento tenha o devido destaque que a figura de Carolina representa.

“Em tempos de abandono e fome, a imagem e obra de Carolina produz representatividade e evidencia as principais necessidades do povo. Além disso, memória, identidade e patrimônio caminham juntos. Estamos neste momento fazendo história. Isto significa que o processo de curadoria da instalação da escultura é um registro do Brasil que temos e da salvaguarda da literatura brasileira. Não podemos permitir que o primeiro monumento em homenagem à Carolina no mundo não esteja em sua devida visibilidade”

Trecho do manifesto

O que diz a Prefeitura

Procurada pela Periferia em Movimento, a Prefeitura de São Paulo se manifestou por meio da Secretaria Municipal de Cultura (SMC) alegando que está em contato com movimentos para discutir a reivindicação e que está aberta ao diálogo.

A administração municipal diz ainda que o Departamento do Patrimônio Histórico (DPH) fez estudos locais e reuniões com Vera Eunice, filha da escritora, e a partir da pesquisa 3 locais foram aprovados para a possível instalação do monumento.

“No entanto, solicitou que a decisão do local fosse acordada com alguns movimentos sociais e, entendendo a importância da colaboração da comunidade nesta decisão, foram consultados alguns grupos pelo Núcleo de Cultura Periférica da Secretaria Municipal de Cultura, e, em seguida, optou-se pelo Parque Linear Parelheiros. A SMC ressalta que a Praça Júlio César de Campos não estava entre os 3 locais escolhidos pelo DPH para a escultura, que, a partir do estudo realizado pelas equipes técnicas do Departamento, considerava ainda outros espaços do bairro mais viáveis para a instalação do que a praça citada”, diz a nota.

Segundo a assessoria de imprensa da SMC, apenas em uma visita técnica em janeiro de 2022 Vera Eunice ponderou sobre a possível instalação na praça de Parelheiros – indagação que foi feita novamente por movimentos e coletivos locais em fevereiro.

“Desde a assinatura do contrato da escultura, em 17 de agosto de 2021, o local nunca havia sido apontado, nem pelos movimentos culturais, nem pela família de Carolina Maria de Jesus, que colaborou com o DPH em todas as instâncias e nunca, até a citada visita técnica, manifestou qualquer objeção quanto ao local da estátua. Até a divulgação do manifesto, a SMC só havia recebido reações positivas quanto à escolha do local, que não foi aleatória, e sim resultado de estudo e pesquisa da equipe técnica do DPH”, diz a nota.

Além disso, a SMC diz que a escolha do parque se deu por estar próximo de equipamentos municipais, como o Centro de Cidadania da Mulher e o Ponto Leitura que recebe o nome de Carolina Maria de Jesus, além da proximidade com o Terminal Parelheiros. Também diz que o monumento deve ser resguardado pela vigilância do parque 24 horas por dia.

Lucimeire Juventino, que integra o comitê responsável pelo manifesto, complementa que o parque em si não faz referência à história de Carolina e que foi inaugurado em 2007, muito tempo depois da morte da escritora, diferentemente da praça que era frequentada por ela. Também ressalta que o manifesto está respaldado pelo Fórum de Cultura, que congrega a maioria dos coletivos da região e que desconhece qualquer consulta feita pelo DPH. Lucimeire diz ainda que o grupo está ansioso pela audiência marcada para esta sexta-feira (25/2) com a SMC.

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1 Comentário

  1. […] iniciativa da psicóloga Thais Fernanda Gonçalves de Lima, de 30 anos. O nome é uma homenagem a Carolina Maria de Jesus, mulher negra que criou crianças sozinha trabalhando como catadora de papel. Com seu livro […]

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