Grupo Semente do Jogo de Angola faz da capoeira uma ferramenta pedagógica no Extremo Sul de São Paulo

Grupo Semente do Jogo de Angola faz da capoeira uma ferramenta pedagógica no Extremo Sul de São Paulo

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Tempo de leitura: 8 minutos

Projeto mostra como a capoeira pode ser caminho para fortalecer identidades e construir outras formas de aprender, sobretudo entre crianças e adolescentes 

Adriana Novaes

No Extremo Sul de São Paulo, quem chega a uma roda de Capoeira do Grupo Semente do Jogo de Angola, pela primeira vez, talvez repare, a princípio, no som do berimbau, no movimento cuidadoso dos corpos e nas cantigas que conduzem o jogo; para quem está dentro da roda, no entanto, existe uma história muito maior acontecendo ali.

O corpo se movimenta, mas também escuta; a música acompanha o jogo, mas também transmite mensagens; e a roda, além de reunir pessoas, coloca em circulação conhecimentos que foram preservados e transmitidos por gerações.

A trajetória do Grupo Semente do Jogo de Angola ganhou força a partir de 2008, quando o contramestre Alan Zas começou a atuar com crianças e famílias em uma iniciativa da Fundação Travessia.

Desde então, o grupo faz parte da formação de diferentes gerações em espaços como Grajaú e Campo

Contramestre Alan Zas está à frente do grupo. (Foto: Divulgação)

Grande, aproximando crianças e jovens de uma prática que reúne história, musicalidade, ancestralidade e convivência.

Zas destaca que, na roda de capoeira, o outro não é alguém que precisa ser derrotado: para o jogo acontecer, é preciso que os dois corpos criem uma relação entre si, por meio da compreensão dos movimentos e da capacidade de resposta. 

“É com o outro, não contra o outro. Aqui é um espaço de acolhimento e de ressignificar as coisas da vida”, resume.

Para o professor, este fundamento ajuda crianças que são introduzidas no esporte a aprender como administrar conflitos. 

A capoeira na sala de aula 

Especialistas reconhecem a aproximação da Capoeira Angola aos debates sobre educação antirracista e da Lei 10.639/03, que tornou obrigatório o ensino da história e da cultura africana e afro-brasileira nas escolas.

Para a professora Juciele Souto, também especialista em Educação Antirracista e Afrocentrada, é

Pedagoga explica por que a capoeira contempla uma educação antirracista. (Foto: Acervo Pessoal)

necessário reconhecer os povos africanos e afro-brasileiros como produtores de cultura, conhecimento e estratégias de resistência.

“Eu não consigo conceber outra forma de educação que não seja uma educação que respeite e valorize a cultura afro-brasileira”, afirma.

A pedagoga explica que a capoeira acaba exercendo uma função pedagógica, e alinhada à educação afro-brasileira, a partir de sua própria origem, como prática em que  pessoas africanas e afrodescendentes submetidas à escravização desenvolveram diferentes estratégias para buscar liberdade e preservar seus modos de vida, mesmo diante da violência e da repressão.

“Ao mesmo tempo, a capoeira traz, na sua essência, aquilo que é de paz, de harmonia, porque não necessariamente ela está apenas nesse lugar de luta”, complementa explica Juciele.

Wilson Oliveira é aluno do projeto, mas é o calça preta do grupo, condição que o permite ministrar aulas quando Alan não está presente.

Para ele, a Capoeira Angola não pode ser reduzida ao movimento corporal, já que a roda envolve diferentes formas de aprendizagem que acontecem simultaneamente: 

“A Capoeira Angola é uma coisa que vai muito além do movimento; nela você tem a musicalidade, tem a questão das cantigas, dos instrumentos, dos códigos da roda”, explica.

Alan Zas também reforça o lugar da capoeira como um esporte multidisciplinar: o próprio berimbau, instrumento musical usado nas atividades, envolve conhecimentos sobre madeira, metal, som e território, enquanto a musicalidade trabalha ritmo, oralidade e escuta.

O projeto acontece em Grajaú e Campo Grande (Foto: Divulgação)

O professor, que também atua na educação pública há décadas, considera importante a existência da Lei 10.639/03, mas questiona a capacidade da escola de reconhecer integralmente os conhecimentos presentes nas tradições afro-brasileiras, já que expressões como a capoeira podem ser reduzidas apenas como atividades físicas. 

“Embora eu entenda a importância da escola, eu sinto que a escola não está preparada para receber certas atividades”, ressalta Alan, que defende que as instituições escolares visitem os espaços de origem das atividades. 

O conhecimento dos mestres

Quem está à frente da capoeira hoje reconhece quem veio antes. Alan Zas e Wilson Oliveira destacam as contribuições de Para compreender essa transmissão, também é preciso olhar para os mestres que vieram antes.

Além de aluno, Wilson também ajuda Alan nas aulas do projeto. (Foto: Divulgação)

Mestre Bigo, Mestre Brasília, Mestre Fábio Formigão e Mestre Jogo de Dentro aparecem na trajetória do grupo como referências que conectam diferentes gerações do grupo.

“Quem não resgata o seu passado, não protege o seu futuro” , menciona Wilson, a partir de uma cantiga popular que é frequentemente lembrada durante as aulas.

O capoeirista chama atenção para esse compromisso com os mais velhos e com as histórias que foram transmitidas pela experiência. Segundo ele, pesquisar é importante, mas não substitui a escuta de quem viveu e recebeu esses conhecimentos.

“Quem aprende recebe algo de quem veio antes e, ao mesmo tempo, passa a ter responsabilidade sobre aquilo que será transmitido para quem vem depois”, destaca. 

Como participar 

Atualmente, o Semente do Jogo de Angola atende jovens e adultos a partir dos 15 anos, as aulas são pagas, com valores e possibilidades de participação definidos de acordo com as condições de cada pessoa. 

Para conhecer as possibilidades de inscrição, os interessados podem entrar em contato diretamente com o grupo. As informações sobre aulas e programações são divulgadas pelo Instagram do projeto, @semente.sp.

Edição: Agnes Sofia Guimarães

 

A reportagem faz parte do projeto “Raízes e Educação: cobertura de conteúdos para promoção da equidade racial periférica, quilombola e indígena na educação brasileira” realizado pelo Coalizão de Mídias e Imaginable Futures.

 

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