Moradora do Grajaú, Dasul enfrenta preconceito e encontra pertencimento em “kits” de roupas masculinas

Moradora do Grajaú, Dasul enfrenta preconceito e encontra pertencimento em “kits” de roupas masculinas

Fernanda Souza

Fernanda Souza

Camisetas de time ou da Lacoste, bermuda, tênis de marca: desde criança, Dasul sempre preferiu a seção masculina e se sente bem com seu estilo inspirado no funk e nos esportes - às vezes, com roupas falsas; às vezes, originais

Depoimento dado a Fernanda Souza (fotos e reportagem). Artes: Rafael Cristiano. Edição: Thiago Borges. Agradecimentos especiais: Carol Ferreira, Jackie Siqueira, Milena Nascimento, Neguinho de Favela e Sara Lidiane

Meu nome é Giovana Azevedo, tenho 20 anos, nasci aqui no Sete de Setembro, na zona “barro” aqui no Grajaú [Extremo Sul de São Paulo]. As pessoas costumam me chamar de “Dasul” porque eu gosto muito do meu bairro (inclusive eu sempre ressalto que sou aqui da zona “barro”), mas também porque eu gosto da marca 1DaSul, tá ligado? Aí surgiu. Mas a família chama de Gi ou Giovana.

Eu me entendo como uma mulher lésbica.

As relações sociais

Eu praticamente só tenho amigo homem hétero, sempre foi [assim].

Primeiro, minhas maiores relações foram com meus primos, já que tipo eu tenho uma tia que tem 6 filhos homens e era ela que cuidava de mim. Então, sempre cresci brincando com coisas consideradas de menino, como jogar bola e empinar pipa.

Na escola, também me aproximei dos meninos por conta do meu estilo. As meninas também nem queriam andar comigo porque eu não me identificava com elas e nem elas comigo pelo estilo, tipo pelas roupas.

Com meus amigos, é suave. Eles lidam normalmente, tipo eles meio que me tratam como se eu fosse um homem – se bem que tem umas paradas que eles evitam de falar na minha frente porque sabem que eu vou meter o loko, tipo falar algo machista ou quando passar uma mina mexer com ela.

[A gente] Troca roupa, emprestamos um pro outro. Às vezes, eu monto os kits dos meus amigos. Mó parceria.

Roupa, pertencimento e sexualidade

Então mano, [o estilo] surgiu como algo natural. Ah, eu sempre achei mais bonito [vestuário masculino], eu sempre ia na sessão feminina quando criança e já me sentia desconfortável. Embora tinha roxo, minha cor preferida, tinha muito rosa, coisa florida, sabe?

[Escolhi usar roupa masculina] Nem por querer ser menino, mas por gostar da roupa.

Só que eu comecei de fato a transicionar a roupa com uns 15, 16 anos na casa minha tia, porque eu tinha que ir no mercado e, como dormia lá, precisava usar tipo a bermuda do meu primo. Aí minha mãe perguntou se eu ia “assim”. E [dizia:] “Se você se sente confortável, vai”. Como minha mãe era mente aberta, foi fácil pra mim.

Isso se alinhou à minha “opção” sexual, mas eu descobri primeiro meu estilo do que a “opção” sexual. Só vestia por vestir. Roupa é “só roupa” nesse sentido, mas no outro ela significa muito pra mim porque é sobre pertencer.

Comecei a trampar na [avenida] Paulista muito cedo. Percebi que a forma de eu parecer com eles seria usando a roupa que eles usavam. Eu vivia na oscilação porque eu queria deixar minhas roupa de quebrada pra me aproximar deles. Mas não adiantou nada.

Acham que eu sou menino, na maioria das vezes. Já rolou, celoko, de falar que eu não pareço mulher ou até mesmo questionar se eu não sou um homem trans. Aí eu falo: “sou uma mulher lésbica”. Inclusive eu não entro em banheiro público, tipo estação de metrô. Só uso onde eu tenho segurança porque eu já fui barrada de usar, já tive que levantar a blusa pra provar que eu era mulher pra usar o banheiro. Já mexeu muito com minha mente e já me deixou na “bad”, mas dei a volta por cima.

O estilo

Meu estilo hoje é esportivo, mas eu curto também coisas do funk como uns “kit relíquia”, que é algo que quase ninguém tem ou é antigo.

Tudo aqui começou com SpringBlade que eu ganhei de um parceiro, algo que sempre quis ter. Aliás, essas minhas referências de funk e estilo vinham de um primo meu, o Rafael, que hoje tem 25 anos. Ele tinha Lacoste, camiseta da Abercrombie e etc. Celoko, eu achava muito chave.

Hoje, eu até tenho uns kit que ele tinha, como blusa da Ecko e o boné de lacinho da Lacoste.

Não acha uns boot chave pra número de mulher ou pra mina mesmo, é muito limitado. Pra homem, parece que é muito direcionado. É muito difícil você ver alguns kit que foram feitos pra minas, na maioria elas adaptam.

Preconceito

O pessoal de fora que não são como nois não encara como estilo ou moda, tipo camisa de time e artigos esportivos. Acham que é loucura porque eu quero muito uma peça específica e não vou conseguir comprar mais nenhuma outra no mês. E na moda, quem não considera porque é da rua, uma pegada mais funk. O funk, sei lá, pra mim dita moda.

Trampo

Atualmente trampo de telemarketing, mas tenho vontade de trampar com stylist e música. Comecei a pensar nisso por influência do instagram pelo Neguinho de Favela. Principalmente depois que vi ele ajudando um parceiro dele a fazer um clipe, vi que era possível.

Status

Eu tenho coisa original e coisa falsa.

A maioria das coisas originais peguei em grupo de rolo. Já sofri preconceito por usar roupa falsa, mas eu tenho consumo frequente por falta de grana mesmo, [roupa falsa] é acessível. Às vezes, me sinto até mal de usar de kit original na quebrada, porque pique é meio estranho porque eu moro numa rua cheia de barro, os menorzinho fica olhando e outras brisas torta.

Roupa original também. Ou você compra kit ou curte outras parada no mês.

Nois que é de quebrada tem que equilibrar, fazer uma divisão. Tem mão que dá e tem mão que não dá.

 

Este é a primeira reportagem da série “Beleza pra que te quero?”, que aborda a construção da ideia de beleza e da autoestima entre pessoas das periferias de São Paulo. A série é produzida pela Periferia em Movimento no âmbito Repórter da Quebrada: uma morada jornalística de experimentações. O programa de residência em jornalismo de quebrada é realizado com apoio do Fomento à Cultura da Periferia da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

Colaboração

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