Por Vini Linhares*. Fotos e vídeo: Vitori Jumapili

Orientação de reportagem: Gisele Brito. Edição de texto: Thiago Borges. Artes: Rafael Cristiano

O maior reservatório de água em área urbana do mundo é o palco para as performances de Israel de Lima Barbosa.

O artista sai das águas da represa Billings com uma cesta de doces. Caminha entre os carros enfileirados vestido de “O garçom sírio refugiado Faruk Billte”, um personagem que ele próprio criou para abordar a questão imigratória. Em outra cena, chamada SOS BraZil, Israel deita-se na terra fria, descalço e com as marcas da sujeira para denunciar o abandono e as violências ao som de Juçara Marçal.

O público, muitas vezes desavisado, acompanha. Israel termina a interpretação e sai oferecendo seus doces. Para quem se interessar, ele declama um poema. Por dia, chega a fazer de R$ 20 (no tempo frio) a R$ 60 (no auge do verão). Desde o final do ano passado, é dessa forma que o artista LGBTQIA+ de 47 anos, que se autodeclara negro, tira seu sustento em meio à crise piorada pela pandemia do coronavírus.

O tempo de espetáculo varia de acordo com a situação climática e o fluxo de cada dia. “É um trabalho gostoso e satisfatório pra mim, como artista que eu mesmo crio, me dirijo e invento a história dos personagens. E quando eu canso, pego minhas coisas e vou embora”, diz ele, que está menos receoso em relação à covid-19 após ter recebido a primeira dose da vacina Astrazeneca em junho.

A fila é para pegar a balsa que atravessa o lago, no trecho entre os bairros do Jardim Shangri-lá e Ilha do Bororé (ambos no distrito do Grajaú, Extremo Sul de São Paulo). Ambulâncias, viaturas, caminhão do Corpo de Bombeiros e ônibus coletivos passam na frente. A linha 6L11-10, que liga a Ilha do Bororé ao Terminal Grajaú, opera diariamente em viagens com 37 paradas, num tempo estimado em 56 minutos e com partidas a cada meia hora. 

Já os veículos de passeio ficam por último. No final de semana, quando muita gente busca refúgio em sítios ou uma pescaria à margem da represa, a espera pode chegar a 2 horas ou mais. Visitantes são atraídes por uma das últimas grandes áreas verdes de São Paulo. 

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A conservação do meio ambiente inspira Israel, que discute a fome, o consumo e o lazer na quebrada com rimas, trocadilhos e versos populares. Em um mesmo dia, ele encena até 7 personagens. O camarim é o banheiro de alguns dos 30 quiosques espalhados ao longo da avenida, a partir da represa. 

As barraquinhas vendem espetinhos, salgados, porções, refrigerantes e bebidas alcoólicas, que vão da cerveja aos drinques mais quentes. Muita gente é parceira, parte do público reconhece, mas há quem ofenda com piadas de cunho homofóbico. Israel, que passou por muita coisa para manter-se vivendo de arte, continua resistindo.

De onde vem essa vocação?

O primeiro contato de Israel com a arte foi quando criança. Nascido em 1974, na Cidade Gaúcha (que, apesar do nome, fica no Paraná), ele passou a infância assistindo programas da TV aberta. Foi com a “A Turma do Braço de Ferro”, que tinha garotos que saíam de bicicleta para resolver mistérios, que ele decidiu que seria ator. Seu irmão mais velho, Cícero, disse que precisaria estudar teatro para isso. 

Só que Israel não sabia ler. Seu pai priorizava que os filhos trabalhassem na roça, em vez de estudar. Aos 11 anos, ele abriu a mala do pai, pegou o registro de nascimento escondido e pediu para que o irmão o matriculasse na escola. “Meu irmão falou: ‘Ixi, o pai vai matar a gente’. E eu respondi: ‘eu morro por isso!'”, lembra. Em 2 semanas de escola, ele aprendeu a ler e foi promovido de série. Em 3 anos, concluiu o ensino fundamental. 

Para seguir o sonho de ator, aos 13 anos Israel migrou para São Paulo para morar na casa irmã, próxima do atual terminal de ônibus Grajaú, onde vive até hoje.

Como os cursos de artes cênicas eram caros, em 1989 ele se inscreveu em oficinas de teatro oferecidas em Casas de Cultura municipais. Era o começo da gestão da ex-prefeita Luiza Erundina, que teve a iniciativa de instalar esses equipamentos em regiões periféricas. “Eu fazia as oficinas, em horários todos malucos, comia uma fruta entre uma e outra, e trabalhava no supermercado de empacotador em horários horrorosos”, lembra.

Israel iniciou a trajetória com o grupo Boca de Cena, encenando espetáculos por 4 anos na região de Interlagos. A periferia lhe deu a base para se entender como pessoa negra, LGBTQIA+ e se fortalecer. Nas atividades, se reconheceu como artista e aprendeu a usar a fala, o corpo, a música e a dança como formas de resistência.

Em 1992, graças à indicação de Thiago Adorno, um conhecido, ele chegou ao Teatro Escola Macunaíma – uma das mais tradicionais escolas de formação de de teatro do País. “O dono me olhou e perguntou: ‘você quer mesmo ser ator? Eu vou te dar uma bolsa'”, conta. Em troca, Israel precisaria trabalhar 4 horas por dia na escola, revezando-se entre a limpeza do banheiro, a bilheteria e a participação em espetáculos. Foram 4 anos sofridos, mas ele conseguiu se formar.

O ator fez carreira no teatro comercial e chegou a participar da encenação de “O Guarani”, com 60 atores, fora a equipe de música e bailarinas, bailarinos e bailarines. 

“Eu via as pessoas adoecerem metalmente e cansadas fisicamente porque os patrocinadores davam de 15 a 25 dias pra você levantar um espetáculo que, no processo natural, levaria de 9 meses a 1 ano pra ficar pronto”, recorda-se. “Eu falei: não quero mais isso pra mim'”. 

Israel buscou trabalhos alternativos, em espaços não convencionais e na rua. Começou a dar oficinas em casas de cultura, como a extinta de Interlagos e a Palhaço Carequinha, atualmente Centro Cultural Grajaú. Ele acompanhou de dentro as mudanças nas políticas públicas municipais, inclusive o fortalecimento do movimento cultural nas bordas da cidade.

Em 2008, conheceu o Sarau do Misc, realizado por uma organização que arrecadava itens para doação. Foi um dos primeiros que Israel ouviu falar. Pouco tempo depois, ele próprio participava da articulação de um sarau no Jabaquara. São Paulo vivia uma boom na literatura periférica. E foi isso que o levou para a beira da represa. 

Espera da Balsa Bororé, no Grajaú, Extremo Sul de São Paulo (Foto: Vitori Jumapili)

A represa e a pandemia

Israel continuava morando no Grajaú, mas fazia seus rolês artísticos pelo Centro da cidade. Até que Diones, um amigo que fazia parte da banda Flora do Contexto, falou para ele do Sarau de Cordas. Era um encontro de artistas à beira da fogueira, na Casa Ecoativa, um espaço cultural autônomo da Ilha do Bororé. Israel atravessou todos os 7 quilômetros da Belmira Marin, uma avenida de trânsito caótico que corta o distrito e termina na represa. 

“Quando eu vi a travessia, os cabos, fiquei impressionada que a balsa aguentava carros, ônibus, pessoas”, diz ele, que logo se envolveu na Ecoativa e passou a articular apresentações teatrais para o sarau, do qual participou até 2019. “Eu fiquei tão impressionada que passei direto pelo Sarau de Cordas e fui parar na segunda balsa”.

O reservatório Billings foi construído em 1926 com objetivo de gerar eletricidade para municípios paulistas. Depois, passou a abastecer as torneiras da região metropolitana. A partir dos anos 1960, suas margens foram ocupadas irregularmente principalmente por migrantes da região Nordeste e do estado de Minas Gerais que chegavam em busca de emprego e melhores condições de vida.

A balsa que citamos é uma das 3 administradas pela Empresa Metropolitana de Águas e Energia (EMAE). Além dela, tem a Taquacetuba, que sai da Ilha do Bororé ao município de São Bernardo do Campo; e a João Basso, a mais utilizada, que liga o distrito de Riacho Grande aos demais bairros do município vizinho. O serviço é gratuito e funciona 24 horas por dia. 

A Ilha do Bororé, que na verdade é uma península da represa, tem cerca de 10 mil habitantes. O isolamento permite a preservação deste território, que faz parte da Área de Proteção Ambiental (APA) Municipal Bororé-Colônia, uma unidade de conservação que ocupa 6% do município e apresenta uma rica biodiversidade, com remanescentes de Mata Atlântica e produção de água abastece a cidade.

A região também compõe o Polo Ecoturístico de São Paulo, com um rico potencial turístico e cultural ainda pouco explorado. “É uma área muito precária e os quiosques daqui precisavam de apoio (…) Poucos lugares no mundo têm um espaço como esse dentro da cidade, em que você pode colocar uma toalha e sentar, fazer um piquenique com a família ou tentar passar em um lugar e tomar um refresco”, percebe o visitante Diego Fernandes, de 28 anos.

Apesar do movimento de turistas ter caído com a pandemia, os quiosques permaneceram abertos a maior parte do tempo. 

“No começo, eu fiquei cerca de 45 dias fechado em casa. Aí, eu tive que voltar a trabalhar porque eu não tinha outra renda. Minha renda vem daqui, desse bar (…) Agora tudo aumentou, o preço das comidas, do gás. Se os governantes tivessem feito algo antes… Já era pra gente estar tomando pelo menos a primeira dose da vacina, mas fazer o quê?”, reclama seu Geraldo Xavier, que há 21 anos administra o Bar 2 Irmãos. O estabelecimento funciona todos os dias, das 10h às 22h, e a renda paga basicamente as contas fixas.

Geraldo: impactado pela pandemia (Foto: Vitori Jumapili)

Essa crise também bateu forte em Israel. 

Desempregado e ansioso, ele não pode receber o apoio financeiro da Lei Aldir Blanc, um programa de socorro a artistas, pois já tinha sido beneficiado pelo Auxílio Emergencial. Com contas se acumulando, no final de 2020 o ator retornou para a beira da Billings. 

“O ator ou a atriz não é [viste] como profissional de certa forma. Parece que é uma brincadeira, que você tá fazendo pra se exibir, para aparecer”, aponta a escritora e professora Evania Vieira, parceira de trabalhos que Israel conheceu na Ecoativa. Ela diz que é necessário valorizar quem faz arte, especialmente na quebrada. “É uma linguagem, uma proposta diferenciada, que rompe com os padrões e traz novas possibilidades de sensibilizar o mundo”. 

“Por que não unir o doce ao agradável?”

Israel começou fazendo o básico. A cada cliente que comprava um doce, ele oferecia a declamação de um poema. A coisa cresceu de tamanho, ele incorporou personagens e recebeu ajuda de amigos. Fábio França, que tem um brechó e loja de fantasias, propôs uma parceria em que ele empresta roupas em troca de divulgação nas redes do artista.

Com apoio de comerciantes locais, Israel passou a usar alguns bares para guardar seus pertences, trocar de roupas, comer e se hidratar, enquanto vende seus doces e poesias. Seu Geraldo é um deles. “Ele é uma pessoa muito bem vinda aqui”, diz. “Existe muito preconceito nessa região com negros, gays, pessoas de rua… tem muito precoceito mas não era pra ter mais, de maneira nenhuma”. 

“A galera dos bares é articulada e estamos aqui pra apoiar. A pandemia mexeu com todo mundo, ficou complicado. Nós estamos começando a se levantar aos poucos, né”, relata Patrícia dos Santos, 38, que há 20 anos trabalha na balsa. Hoje ela administra o bar LS Lanches com o companheiro Damião. Patrícia conheceu Israel nos saraus e hoje é comadre dele. “Ele faz parte da família”.

E é o afilhado que trabalha na produção. O estudante Gabriel dos Santos, 16, opera a trilha sonora e ajuda com objetos de cena nas intervenções do padrinho. “O melhor de tudo que está acontecendo agora são as pessoas que apoiam ele, e ver que ele está conseguindo fazer, que ele se sente mais incentivado. Tudo isso que a gente tá vivendo agora, ele mostrando as artes dele por aqui, é inexplicável”.

Com Patrícia, sua comadre e comerciante parceira (Foto: Vitori Jumapili)

Quando não está na rua, Israel ocupa as redes.

Com a ascensão do teatro on-line pautado principalmente por grupos do “mainstream”, que estabelecem símbolos e significados padronizados, em detrimento de pessoas com menos recursos financeiros, Israel também disputa a arena da internet. Semanalmente, ele publica vídeos no youtube encenando a personagem Madame Renata Ríkel, que é socióloga, sexóloga, oceanóloga, taróloga e atriz. Confira aqui.

“Eu tô me divertindo muito, porque eu faço sozinho, com meu celular fixado no pedaço de bambu. Aí eu gravo como se tivessem muitas pessoas em volta, na produção”, conta.

A luta pela vida e pela arte continua. Israel conseguiu a ajuda de amigues, recebeu doação de livros para fazer rifas, tem uma “vaquinha privada” para arrecadar fundos (contribua pelo PIX/CPF – 184.657.408-01) e de todas as formas se organiza para sobreviver à crise política, sanitária e econômica nacional. 

A Billings continua sendo palco principal para essa atuação.

*Vini Linhares é participante do “Repórter da Quebrada – Uma morada jornalística de experimentações”, programa de residência em jornalismo da quebrada realizado pela Periferia em Movimento por meio da política pública Fomento à Cultura da Periferia de São Paulo

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