Vozes do território: a linguagem que mobiliza a mudança

OPINIÃO

Vozes do território: a linguagem que mobiliza a mudança

Por: Lideranças do Jardim Lapena*

Em artigo, lideranças locais e demais profissionais relatam a experiência de mobilização no Jardim Lapena, Zona Leste paulistana

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Tempo de leitura: 14 minutos

A transformação de bairros periféricos não acontece por acaso; ela é fruto da união e da força de quem vive neles.

Em lugares como o Jardim Lapena, na Zona Leste de São Paulo, a história nos mostra que as melhorias só chegam quando a comunidade se organiza para cobrar e agir. É com base nessas realidades que a Fundação Tide Setúbal e o Galpão ZL trabalham: para eles, o morador não é apenas alguém que recebe um benefício, mas a peça principal de toda mudança.

A construção de cidades mais justas e democráticas exige que as decisões não sejam tomadas em escritórios distantes, mas nas ruas, ouvindo quem sente os problemas no dia a dia. Ao colocar a população no centro da transformação do território, cria-se uma parceria real entre moradores e técnicos comprometidos com a transformação social.

Assim, a mobilização comunitária é o coração da mudança de territórios dinâmicos e ativos e é a ferramenta mais poderosa para tirar os moradores da invisibilidade.


O caso do Baixo Lapena é um exemplo poderoso de como a força de moradores unidos podem modificar décadas de atraso e negligência do poder público.

A área, um local sujeito a alagamentos, sem infraestrutura de saneamento básico e com uma população extremamente vulnerabilizada vem passando por intensas transformações ao longo dos últimos anos e essa realidade já é palpável para aqueles que viveram esse cotidiano sofrido por muito tempo.

“O Baixo Lapena está muito evoluído à vista do que era. Uma área que não tinha uma segurança, não tinha um propósito melhor. A gente não tinha uma chance de poder conversar, de poder buscar uma ajuda…” (Edson)

A urbanização do Baixo Lapena conta com inúmeros projetos tocados pela Fundação Tide Setúbal e a equipe do Galpão ZL.

Com ajuda de parceiros e da comunidade local, casas resilientes foram construídas, tubulações de esgoto foram renovadas, um grande projeto para resolver as enchentes foi desenhado e famílias em situação de vulnerabilidade encontram apoio através de programas de geração de renda e assistência social.

Esse trabalho não é feito sem a participação de toda comunidade que lota reuniões e decide os caminhos a serem trilhados em conjunto. Toda essa mobilização, no entanto, não acontece da noite para o dia. Esse é um trabalho de formiguinha, pequeno, constante e feito com muitas mãos.

Embora seja uma tarefa essencial, feita de modo voluntário e após a jornada de trabalho dos moradores, a mobilização comunitária é muitas vezes invisibilizada, mas com o empenho de todos vem mostrando resultados palpáveis:

“Nessa peleja, em todas as reuniões que acontecem, graças a Deus, as cadeiras já ficam mais cheias.” (Edson)

Vencendo o descrédito

O desafio principal é convencer moradores que passaram anos, ou mesmo décadas, ouvindo promessas de políticos e candidatos que nunca se concretizaram.

No território, é comum que os moradores, cansados de esperar por melhorias prometidas por gestões públicas ao longo de décadas, demonstrem resistência e desconfiança ao serem convidados para reuniões tarde da noite.

No entanto, o papel dos mobilizadores comunitários é justamente desfazer esse equívoco, explicando que o trabalho realizado pela Fundação Tide Setubal e pelo Galpão ZL é, acima de tudo, um serviço da comunidade para a própria comunidade.

“Cara, é assim, o pessoal já está ‘refugado’, muitos acham que é coisa de política.” (Edson)

Os mobilizadores enfrentam um grande obstáculo: o desânimo dos moradores. Frases como “não acredito mais” ou “prometem isso há anos” são comuns.

Nesse cenário, o trabalho da equipe é acolher essa frustração e lutar contra o descrédito para devolver a esperança e o engajamento à comunidade, mostrando que, dessa vez, a iniciativa busca resultados reais.

Para vencer o “refugo”, essa desconfiança e desânimo construídos ao longo de anos de descaso, a estratégia central é a insistência. O trabalho é diário: bater de porta em porta, ouvir muitos “nãos” e continuar lutando.

Ganhar a confiança dos moradores exige tempo. É preciso persistir nas conversas e superar a resistência inicial com paciência. Depois de quebrar o gelo, o convencimento acontece nos detalhes: em torno de uma mesa, tomando um café e explicando o projeto com calma para famílias que, por tanto tempo, foram ensinadas a desconfiar de tudo.

“A melhor parte de toda a mobilização é que eu hoje eu não preciso nem bater na porta. Eu falo: ‘Dona Maria, já estou entrando’. E ela me responde: ‘Entra minha filha. Vem tomar um cafezinho’. E eu nem tomo café (risos)”. (Sil)

Porém, antes de ser convidado a entrar e sentar-se à mesa, é necessário criar vínculos com vizinhos que muitas vezes não se conhecem. Em um território diverso que cresce a cada dia e é afetado por todos os tipos de violência, criar confiança é uma tarefa difícil.

A equipe de mobilizadores do Jardim Lapena conhece bem esses percalços e as estratégias para acessar cada família mudam conforme o perfil dos moradores e os problemas enfrentados em cada região. O argumento que convence uma pessoa pode não funcionar com o vizinho; por isso, é preciso uma equipe que saiba falar linguagens diferentes.

Na mesma frequência: a força do vínculo

Essa equipe de mobilizadores, composta por moradores de diferentes perfis, percebeu que o jargão técnico vindo de fora só distancia o morador da periferia, que já lida com o sentimento de invisibilidade.

Para romper essa barreira, apostaram na empatia entre iguais: Fabiano, por ser homem e ter sido criado no bairro, usa a linguagem e os códigos locais para se conectar com os rapazes de 25 a 30 anos com quem cresceu jogando bola.

Essa vivência comum cria uma ponte direta e estabelece um vínculo com pessoas que as mobilizadoras tinham dificuldade de alcançar.

“O Fabiano, por exemplo, a comunicação dele é diferente da nossa. Da forma como a gente comunica, a gente se comunica com a parcela da comunidade, não toda. Ele já comunica do jeito dele, com a expressão dele com pessoas que talvez não nos entenda ou não tenham o interesse em nos ouvir” (Vânia)

Entender como cada família reage e o que é urgente para elas não é simples. Criar vínculo e construir confiança são parte de um processo de tentativa e erro.

O conhecimento produzido por essa equipe – a forma como cada morador vai reagir, que assunto é mais urgente para aquela família, quais os caminhos e argumentos necessários para convencer cada um – é o motor que move o território.

Não existe uma resposta única, mas existe uma regra de ouro: uma vez firmado o compromisso, não se pode voltar atrás. Se a palavra for descumprida, a confiança — conquistada com tanto esforço — morre.

Como se diz no território: “Na quebrada, a palavra não faz curva e a favela não dá ré.” (vania)

Por isso mesmo, a luta não pode parar.

O trabalho de mobilização no Jardim Lapena é um exercício diário de paciência, escuta e, acima de tudo, identificação. Não se trata apenas de levar uma informação, mas de falar a língua de quem vive ali, entendendo que cada setor do território demanda um tom de voz e uma abordagem diferente.

Mas mesmo assim, a comunicação formal muitas vezes não alcança a todos e, para muitos moradores, a figura de alguém que compartilha a mesma história e os mesmos desafios é o que traz credibilidade ao projeto.

Mão na massa, coração aberto

Assim, não existe estratégia melhor do que a “mão na massa”.

A Viela Santa Fé nasceu desse desafio. Em uma área que antes era um rio e um barranco, onde os moradores precisavam atravessar um pranchão de 50 centímetros para chegar em casa, os mobilizadores do Lapena junto com a própria comunidade transformaram essa realidade. Edson recorda como o nome surgiu da resistência inicial ao projeto:

“Falei: ‘Vai ser ‘Santa Fé’. Porque é uma luta que eu tive e eu não perdi a fé, não perdi a esperança de eu mudar esse local onde eu moro. E não foi só eu, mas todos os moradores que moram ali”. (Edson)

A ação mobilizada pelo exemplo foi o que permitiu que a viela deixasse de ser um esgoto a céu aberto para se tornar um local melhor. Edson descreve que, para ganhar o apoio dos moradores, não bastava falar; era preciso mostrar resultados concretos e compartilhar o cansaço do dia a dia, usando uma linguagem de igual para igual:

“Depois de um dia de trabalho eu falei: ‘Eu também estou cansado, cheguei agora. Vamos lá, gente. Vamos dar uma força’. Nós somos moradores, nós somos como irmãos, como uma família. Então, é através da ajuda de todos que a gente vai trazer alguma coisa pra gente”.

“É mão na massa! Isso dá um choquinho na alma do cidadão. Dá um espírito de novo nela. Parece que a pessoa está meio apagada na vida e ela dá uma acendida” (Fabiano)

Essa estratégia de “bater de porta em porta” e insistir, mesmo quando ouvia que “nada ia acontecer”, foi o que garantiu as melhorias que agora todos enxergam a olhos vistos.

O caso da Santa Fé demonstra que, no território, a nomeação de uma rua é mais que um endereço; é o resultado de uma linguagem que mistura a “garra” da liderança com a capacidade de fazer o morador enxergar o próprio potencial.

Nesse processo, o próprio mobilizador se transforma e passa a se ver como verdadeiro agente de desenvolvimento do seu bairro.

A convivência diária e a busca por soluções coletivas devolvem às pessoas a confiança na ação comunitária, remodelando sua trajetória pessoal e o seu papel na sociedade.

“Eu era explosiva demais! eu não me considerava ainda uma liderança. Hoje eu nem acredito quem eu era. Eu fazia essa função, mas no começo eu não me considerava ainda uma liderança. Eu não entendia ainda a importância de uma liderança.” (Sil)

A canalização da raiva e indignação em ações práticas de transformação do território é uma habilidade que a equipe aprendeu ao longo dos anos e que ajudou a transformar muitas vidas no Jardim Lapena.

Pois tais lideranças não surgem por acaso, elas são identificadas e incentivadas por articuladores experientes que enxergam no próprio território moradores com potencial de luta e compromisso social.

“Eu apostava muito nas mulheres e saia garimpando. Eu gosto muito das agitadas. Quanto mais a mulher é resistente, mais eu gosto dela. Aquelas que possui muita energia para confusão é porque tem um potencial muito grande de luta” (Vânia)

Acendendo almas: novos horizontes para os jovens do território

É exatamente essa potência transformadora, tanto das pessoas quanto do território, que traduz a verdadeira aposta do Galpão ZL. Como espaço de cidadania e mobilização, ele cumpre um papel central na dinâmica do bairro: funciona tanto como o ponto de partida para a organização comunitária quanto como um refúgio que abre novas perspectivas de vida.

Mais do que formar lideranças e articular melhorias para a vizinhança, o Galpão atua como uma rede de proteção essencial, oferecendo caminhos seguros para os jovens que enfrentam a falta de oportunidades e a convivência diária com a violência

“Recentemente eu perdi um primo meu que cresceu comigo para a polícia. A gente cresceu juntos e ele virou traficante. Por que ele virou traficante e eu não? Provavelmente porque eu tive o galpão”. (Letícia)

Nas periferias, a presença de um espaço como o Galpão vai muito além do oferecimento de oficinas ou da articulação de melhorias urbanas. Ao conectar acolhimento, cultura e engajamento social, o espaço constrói alternativas concretas diante das vulnerabilidades sociais. É a partir dessa convivência diária no Galpão que os jovens não apenas encontram um porto seguro, mas também descobrem a própria voz e o valor de transformar o território onde vivem.

*Por Vânia Silva (Equipe de Prática Local FTAS), Verieldes Ferreira Pereira (Liderança Plano de Bairro), Daiane Conceição da Silva (Liderança Plano de Bairro), Sirlene da Silva Santos (Liderança Plano de Bairro), Leticia Naiara dos Santos (Liderança Plano de Bairro), Fabiano Costa Santos (Liderança Plano de Bairro), Pamela Monique Santana (Pesquisadora independente), Inácio Dias de Andrade (Instituto Pensi)

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