Ouça esse post
Do meu ponto de vista, um dos fenômenos mais preocupantes dos últimos anos é a forma como a população trans tem sido utilizada como alvo de debates públicos.
Em vez de sermos reconhecidos como pessoas com direitos, frequentemente somos transformados em tema de disputa política, como se a nossa própria existência estivesse aberta à aprovação ou reprovação da sociedade.
Quando determinados grupos, lideranças religiosas ou agentes políticos nos apresentam como uma ameaça aos valores e à família, cria-se um ambiente de medo e desinformação que fortalece preconceitos já existentes por uma estrutura violenta que já vem de muitos anos.
O resultado disso não fica apenas no campo do discurso.
Essas narrativas impactam diretamente a vida de pessoas trans, influenciando o acesso a direitos, oportunidades e espaços de pertencimento, principalmente quando essa pessoa vem das quebradas e já tem alguns marcadores sociais como ser uma pessoa negra , indigena, sem acesso à educação, saúde e remuneração digna.
Naturalização da transfobia
A meu ver, a utilização da população trans como pauta de mobilização política tem servido para alimentar disputas ideológicas e gerar engajamento, enquanto questões estruturais que afetam toda a sociedade, como a desigualdade social, a fome, o desemprego, a moradia e a qualidade dos serviços públicos, acabam recebendo menos atenção. Nesse processo, pessoas trans tornam-se alvo, beneficiando determinados projetos de poder.
Essa dinâmica também contribui para a naturalização da transfobia.
Quando a identidade de pessoas trans é constantemente questionada nos meios de comunicação, nos espaços políticos e nas redes sociais, o preconceito passa a ser visto por parte da sociedade como algo aceitável ou legítimo.
Nossa existência deixa de ser compreendida como uma expressão natural da diversidade humana e passa a ser tratada como um problema a ser discutido, controlado ou combatido.
Como um homem trans, na minha existência transmasculina de guetto, percebo que esse processo produz impactos concretos no cotidiano da nossa comunidade. Ele reforça estigmas, amplia situações de vulnerabilidade e dificulta a construção de políticas públicas capazes de garantir dignidade e cidadania.
Por isso, considero fundamental que o debate público deixe de tratar pessoas trans como objeto de disputa e passe a reconhecer nossa humanidade, nossas trajetórias e nosso direito de existir plenamente em uma sociedade democrática.
Violência estrutural
A população trans no Brasil continua sendo alvo de diferentes formas de violência e exclusão social.

Quatro amigas fazendo pose para foto, celebrando o dia da visibilidade trans juntas, no Grajaú (foto: Pedro Salvador)
Segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), o país permanece ocupando a posição de país com o maior número de assassinatos de pessoas trans e travestis registrados no mundo, realidade apontada há quase duas décadas pelos levantamentos da entidade e pelo monitoramento internacional Trans Murder Monitoring (TMM), da Transgender Europe (TGEU).
Em 2025, foram registrados 80 assassinatos de pessoas trans no Brasil, mantendo o país no topo desse ranking global.
Mais do que números, esses dados revelam uma realidade marcada pela vulnerabilidade social, pela discriminação e pela violência estrutural.
Mesmo quando há redução no número absoluto de assassinatos, organizações da sociedade civil alertam que isso não significa necessariamente maior segurança para a população trans, já que persistem a subnotificação dos casos, a invisibilidade estatística e a ausência de políticas públicas efetivas de proteção.
Nesse contexto, a população trans é transformada em alvo de discursos de pânico moral, desinformação e disputas políticas que reforçam preconceitos históricos.
O debate público deixa de se concentrar na garantia de direitos fundamentais e passa a tratar a existência de pessoas trans como uma suposta ameaça social, contribuindo para a manutenção de estigmas e para o agravamento de situações de violência e exclusão.
Encruzilhada de desigualdades
Quando observamos a realidade concreta da população trans, especialmente de pessoas trans negras, indígenas e periféricas, percebemos que suas demandas não são diferentes das necessidades da maioria da população brasileira.
O que está em jogo é o acesso a direitos fundamentais e condições dignas de vida.
É justamente nesse ponto que a interseccionalidade se torna uma ferramenta essencial para compreender como gênero, raça, território e classe social se cruzam e produzem formas específicas de exclusão e resistência.
Falar sobre pessoas trans no Brasil exige compreender que nossas experiências não são iguais. Dentro da própria comunidade trans existem marcadores sociais que atravessam nossas vidas e determinam quem terá mais acesso a direitos, oportunidades e dignidade.
Ser uma pessoa trans negra, indígena ou periférica significa viver em uma encruzilhada de desigualdades, onde gênero, raça, território e classe social se encontram e produzem formas específicas de exclusão.
Toda pessoa tem um ponto de partida. Tem uma casa, uma rua, um bairro, uma família e uma história. No entanto, para muitas pessoas trans negras, indígenas e periféricas, esse ponto de partida já é marcado pela negação de direitos básicos.
O direito à moradia, por exemplo, muitas vezes é ameaçado desde cedo. A expulsão de casa, o abandono familiar e a violência doméstica são realidades que empurram muitas pessoas trans para situações de vulnerabilidade social justamente quando ainda estão descobrindo quem são.
A falta de apoio familiar não é apenas uma questão afetiva. Ela impacta diretamente o acesso à educação, à saúde, ao trabalho e à construção da autonomia. Quando uma pessoa trans perde sua rede de proteção, ela também perde oportunidades.
O sistema de saúde, que deveria acolher e garantir cuidado, frequentemente reproduz violências. O desrespeito ao nome social, a falta de preparo de profissionais e a dificuldade de acesso a tratamentos específicos demonstram que ainda existe um longo caminho para que a população trans seja atendida com dignidade.
Pessoas trans negras e indígenas enfrentam barreiras ainda maiores, resultado do racismo estrutural e das heranças coloniais que atravessam as instituições brasileiras.
A educação também se apresenta como um território de disputa. Muitas interrompem os estudos devido ao preconceito, ao bullying e à ausência de políticas que garantam sua permanência na escola ou ensino superior. Não por falta de capacidade ou interesse, mas porque faltam condições concretas para permanecer estudando em ambientes muitas vezes hostis. A exclusão educacional gera impactos diretos na inserção profissional, contribuindo para ciclos de pobreza e precarização.
Quando falamos de pessoas trans negras, indígenas e periféricas, estamos falando de quem enfrenta simultaneamente o racismo, a transfobia, a desigualdade econômica e, muitas vezes, o apagamento de suas identidades culturais e territoriais.
Direito à existência
Não basta discutir apenas identidade de gênero sem considerar raça, território e classe. Da mesma forma, não é possível combater o racismo sem compreender como ele afeta de maneira particular as pessoas trans negras e indígenas, para as quais a dissidência de gênero frequentemente amplia situações de violência, exclusão e vulnerabilidade.
Apesar de todas essas dificuldades, é importante reconhecer que nossas comunidades também produzem resistência, afeto, cultura e conhecimento.
Pessoas trans negras, indígenas e periféricas constroem movimentos sociais, ocupam espaços artísticos, acadêmicos e políticos e criam caminhos onde antes existiam apenas barreiras. São trajetórias que desafiam estatísticas e reafirmam diariamente o direito à existência.
Falar sobre interseccionalidade é, acima de tudo, reconhecer que nossas vivências são diversas e que políticas públicas eficazes precisam considerar essa complexidade. Nenhuma identidade deveria ser motivo para a negação de direitos, oportunidades ou humanidade.
Por isso, como importante marco dessa visibilidade e representatividade transmasculina, estive artisticamente no primeiro fórum de transmasculinidades negras e periféricas do Brasil. Acesse aqui o Dossiê nacional de 2026.
E aqui, o link para o primeiro fórum e apresentação artística Transmasculina na Câmara dos Deputados, realizado em Brasília em janeiro de 2025.





