Os efeitos do Super El Niño nas periferias

OPINIÃO

Os efeitos do Super El Niño nas periferias

Por: Jahzara Oná*

Ambientalista da periferia de São Paulo aborda como fenômeno climático é impulsionado pela crise climática e afeta áreas que sofrem com racismo ambiental

Compartilhe!

Tempo de leitura: 13 minutos

A gente vive numa época em que até o tempo parece estar contra a periferia. Quando o céu fecha ou o calor aperta, quem mora no morro, no loteamento ou na beira do córrego sente o baque de um jeito totalmente diferente de quem mora em bairro nobre.

Mas você já se perguntou o que está por trás dessas mudanças tão extremas na temperatura e nas chuvas?

Para entender esse cenário e proteger a nossa gente, precisamos conversar sobre um fenômeno mundial chamado El Niño e sobre como a desigualdade faz com que as consequências caiam mais pesadas nas nossas costas.

O que é o El Niño? 

O El Niño é um fenômeno descoberto por pescadores do Peru, que perceberam que, em determinados anos, perto do mês de dezembro, as águas do mar ficavam anormalmente quentes, enquanto os peixes desapareciam. Por causa do período natalino, deram o nome de El Niño, que significa “O Menino”, em referência direta ao Menino Jesus, tão celebrado nesta época do ano.

Essa referência à infância e à dor nos faz lembrar daquela frase cantada pelos Racionais MC’s: “Diz que homem não chora / Tá bom, falou / Não vai pra grupo, irmão / Aí, Jesus chorou”.

Na favela, a gente sabe bem o peso das lágrimas e do sofrimento, e o El Niño é um fenômeno que, infelizmente, traz muita dor para quem já vive no limite.

O ônibus chega e as pessoas correm para entrar logo e escapar da chuva o quanto antes.
Praça Júlio César de Campos, Parelheiros, Extremo Sul de SP.

Mas, afinal, o que é isso na prática?

O El Niño é um aquecimento fora do comum nas águas do Oceano Pacífico. Ele não acontece todo ano; é um ciclo que costuma dar as caras a cada 5 ou 7 anos, durando em média de um ano a um ano e meio.

Para entender por que isso acontece, pense na ventania que sopra sobre o mar: em condições normais, existem o que chamamos de ventos alísios, que sopram constantemente do leste para o oeste (da América em direção à Ásia), empurrando a água quente da superfície. Quando isso acontece normalmente, a água fria lá do fundo do oceano sobe na costa da América do Sul, trazendo nutrientes e peixes.

Só que, nos anos de El Niño, esses ventos perdem a força. Sem o vento forte para empurrar, a água quente se espalha e avança pela costa sul-americana. A barreira entre a água quente e a fria (que os cientistas chamam de termoclina) afunda. Toda essa água morna esquenta o ar logo acima dela, alterando a pressão atmosférica e bagunçando um grande circuito de circulação do ar chamado Célula de Walker.

Quando a circulação do ar muda no meio do oceano, a ordem do clima no planeta inteiro se desfaz. O resultado é um padrão de extremos que se reflete no Brasil de diferentes formas:

> Norte e Nordeste: Enfrentam períodos de seca profunda e calor extremo. O volume de água cai drasticamente, o risco de queimadas e incêndios em matas dispara, afetando a saúde, a produção de alimentos e o abastecimento de água.

> Sul: A região é atingida por tempestades intensas, chuvas volumosas e constantes, principalmente na primavera e no inverno, trazendo enchentes e subindo as temperaturas acima do normal.

> Sudeste e Centro-Oeste: A tendência geral é de temperaturas bem mais altas do que a média e, em algumas áreas, o aumento no volume das chuvas.

Além disso, como a água do mar esquenta demais, os peixes fogem para águas mais frias, longe das costas, o que prejudica gravemente as famílias que vivem da pesca artesanal.

Como as periferias já passam pelo racismo ambiental

Quando o clima do planeta surta com o El Niño, as consequências não são distribuídas de forma igual. É aqui que entra um conceito muito importante que precisamos discutir: o racismo ambiental (ou racismo climático).

Tem gente que ama o barulho da chuva no telhado ou o cheiro de terra molhada. Mas, para quem mora na periferia, a primeira gota de chuva que cai no chão já é motivo de pânico. Como diz o ditado popular das ruas: há quem tenha medo da chuva porque sabe que ela mata; mas ela não mata todo mundo.

Enquanto no bairro nobre a chuva é motivo para tomar um café e olhar pela janela, na favela a primeira nuvem preta faz a mãe correr para colocar os móveis para cima e, quando está no trabalho, pensar em como vai voltar de ônibus para casa antes que o córrego transborde.

O racismo ambiental explica como os impactos das crises climáticas atingem de forma desproporcional as populações negras, indígenas, periféricas e de baixa renda. Isso não é um acidente, é fruto da história.

Quando a abolição da escravidão aconteceu, em 1888, não houve qualquer política pública de inclusão ou distribuição de terras. Os corpos negros foram declarados “livres”, mas sem direito à moradia, à terra ou ao trabalho digno. Ao mesmo tempo, os territórios de populações indígenas e quilombolas foram historicamente atacados e criminalizados.

Quilombo Ivaporunduva, em Eldorado (SP) Foto: Pedro Salvador

Como a grande escritora Conceição Evaristo denuncia em suas obras ao criticar o modelo de propriedade e exclusão, a terra e o espaço urbano foram concentrados nas mãos de poucos.

A população periférica foi empurrada para ocupar as áreas que o mercado imobiliário rejeitou: as encostas de morro sujeitas a deslizamentos, as margens de rios sujeitas a alagamentos e os locais sem saneamento básico ou arborização.

Quando o El Niño chega trazendo temporais no Sul e no Sudeste ou secas profundas e ondas de calor sufocantes no Norte e Nordeste do país, a vulnerabilidade dessas áreas salta aos olhos:

1. Nas enchentes: A falta de escoamento e a moradia precária fazem a água entrar nas casas, levando bens, trazendo doenças e destruindo vidas.

2. No calor extremo: Sem árvores, com casas de telha de alumínio ou amianto e sem espaço verde, as periferias viram “ilhas de calor”. As idosas e crianças passam mal, e a falta de água potável agrava o sofrimento nas secas.

A chuva e o calor não são racistas por si só; mas a estrutura das cidades e a falta de investimentos do Estado fazem com que os desastres ambientais tenham cor, classe social e endereço fixo.

Quais os cuidados individuais e sobretudo de saúde coletiva que devem ser tomados para mitigar os impactos do fenômeno?

Existe um debate científico constante sobre a intensidade do fenômeno. É importante esclarecer que não há confirmação de um “super El Niño” para este ano de 2026. Órgãos de monitoramento internacional, como a NOAA, indicam uma alta probabilidade (mais de 80% a 90%) de formação e continuidade do fenômeno entre os meses do meio e do fim do ano. Porém, os cientistas ainda não podem afirmar com certeza se a sua força será moderada, forte ou extremamente forte.

Independente da força exata com que ele chegue, precisamos estar preparados. A mitigação dos impactos exige ações que vão do cuidado individual dentro de casa até a cobrança firme por políticas públicas e justiça climática.

No momento, Cida paga R$ 50 às cooperadas por dia de trabalho e o valor do transporte.

Diante dos dias de calor extremo ou de tempestades severas, a sobrevivência e o bem-estar na periferia passam pela solidariedade e pela prevenção diária:

– Proteção contra o calor e desidratação: Beba bastante água e, se possível, mantenha idosos e crianças à sombra nos horários mais quentes do dia. Em casas muito quentes, molhar panos e colocar nas janelas ajuda a amenizar a sensação térmica.

– Prevenção contra doenças da água: Após temporais, evite ao máximo o contato direto com a água de enchentes ou enxurradas para prevenir a leptospirose e infecções. Se a água da torneira vier turva por conta das secas ou enchentes, ferva-a antes de beber ou cozinhar.

– Atenção aos sinais do terreno: Em áreas de morro, observe rachaduras nas paredes, estalos em barrancos ou inclinação de postes e árvores. Ao menor sinal de perigo, saia de casa e avise os vizinhos.

– Organização comunitária: A rede de apoio comunitário é o nosso primeiro socorro. Criar grupos de mensagem no bairro para alertar sobre tempestades, ajudar pessoas com mobilidade reduzida e mapear pontos seguros de acolhimento salva vidas.

E o Estado? 

Para garantir a saúde coletiva e a proteção das periferias diante do El Niño, o Estado precisa assumir sua responsabilidade, investindo em políticas públicas reais de justiça climática, ou seja:

1) reforçar os postos de saúde para cuidar de idosos e doentes crônicos durante as ondas de calor;

2) intensificar o combate ao mosquito da dengue;

3) realizar obras de saneamento e drenagem nos córregos;

4) criar praças arborizadas para diminuir a temperatura;

5) garantir moradia segura longe de áreas de risco;

6) instalar sistemas de alerta e rotas de fuga eficientes para proteger a comunidade nos dias de tempestade.

O que queremos? Justiça Climática!

No fim das contas, entender o El Niño é também entender que a crise climática nunca acontece no vazio. O fenômeno pode ser natural, mas a forma como seus impactos atingem cada território é resultado de escolhas políticas, históricas e sociais.

Enquanto algumas pessoas conseguem se proteger do calor, da chuva e das enchentes, outras precisam enfrentar esses eventos dentro de casas precárias, sem saneamento, arborização ou segurança. Por isso, falar sobre El Niño nas periferias é falar sobre direito à vida, à cidade e a um ambiente seguro.

A prevenção começa na informação e na organização comunitária, mas não pode terminar nelas: precisamos cobrar políticas públicas que coloquem os territórios mais vulnerabilizados no centro das decisões. Afinal, justiça climática significa garantir que ninguém precise escolher entre enfrentar a próxima chuva ou proteger a própria casa, e que o CEP, a cor da pele ou a renda de uma pessoa nunca determinem o quanto ela vai sofrer com o clima.

Jahzara Oná é Técnica em Meio Ambiente pela ETEC Getúlio Vargas e graduanda em Geociências e Educação Ambiental pela Universidade de São Paulo (USP), com formação complementar em Governança Ambiental e ESG pela FGV. Sua atuação conecta conhecimento acadêmico, sustentabilidade, gestão de projetos e engajamento social, com experiência no terceiro setor e no setor privado.

Ao longo de sua trajetória, já alcançou mais de 14 mil pessoas por meio de iniciativas de educação, mobilização e ação climática, além de atuar na estruturação, implementação e acompanhamento de projetos e parcerias. No Instituto Arapyaú, trabalhou com projetos, cooperação internacional e parcerias, incluindo a participação em agendas internacionais de clima, e anteriormente atuou na Ambipar com indicadores ESG e engajamento do setor privado.

Sua experiência internacional inclui participação nas COP27, COP28, COP29 e COP30 e nas sessões dos Órgãos Subsidiários da UNFCCC, com foco em financiamento climático, justiça climática e processos de decisão. É também Jovem Transformadora da Ashoka e Embaixadora Jovem de Sustentabilidade da Hamburg Sustainability Conference, reconhecimento por sua atuação em sustentabilidade e liderança juvenil.

{{ reviewsTotal }}{{ options.labels.singularReviewCountLabel }}
{{ reviewsTotal }}{{ options.labels.pluralReviewCountLabel }}
{{ options.labels.noReviewsLabel }}
{{ options.labels.newReviewButton }}
{{ userData.canReview.message }}

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

APOIE!
Acessar o conteúdo