Férias no abrigo: quando o Estado some e a quebrada fica de portas fechadas

OPINIÃO

Férias no abrigo: quando o Estado some e a quebrada fica de portas fechadas

Por: Gabriel dos Santos Carvalho, educador social e estudante de Psicologia*

Educador social que trabalhou em três serviços de acolhimento em São Paulo narra a violação do direito ao lazer de crianças e adolescentes que estão sob a guarda estatal

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Tempo de leitura: 16 minutos

Às 7h da manhã, o sol já bate forte no muro do SAICA (Serviço de Acolhimento Institucional para Crianças e Adolescentes).

Lá dentro, 15 crianças e adolescentes acordam para mais um dia de férias que não parece férias. Uns poucos já foram buscados pelos pais na noite anterior — aqueles que ainda têm vínculo familiar forte o suficiente para arrancar uma autorização judicial de saída.

Outros dois ou três esperam a visita do padrinho afetivo, aquele cidadão de bem que aparece de vez em quando com um sorvete e a promessa de levar ao parque.

O restante, a maioria, fica.

Fica entre quatro paredes, com a TV ligada no YouTube, o celular na mão e a pergunta no ar: e agora, o que a gente faz?

Eu passei dois anos como orientador socioeducativo em três SAICAs diferentes de São Paulo. Acompanhei as férias de manhã, de tarde e de noite. E posso dizer: o que muda na rotina durante esse período é quase nada. Ou, pior, muda para pior.

SAICA inaugurado em 2021 pela Prefeitura de São Paulo (foto divulgação)

SAICA inaugurado em 2021 pela Prefeitura de São Paulo (foto divulgação)

O tédio que escala

Sem aula, sem merenda escolar, sem rotina, o que sobra é o improviso dos educadores e a solidão dos acolhidos. E o tédio, nesse contexto, não é moleza. É violência.

A violência aumentava consideravelmente a partir do tédio.

Brigas que começavam em zoações pequenas escalavam para agressão física. Fugas. Quebra de patrimônio.

Tudo dependia do “controle” que cada equipe de educadores tinha durante aquele plantão específico — porque não havia nenhum tipo de consultoria, nenhum protocolo, nenhum apoio técnico para lidar com a escalada.

Muitos colegas simplesmente não sabiam o que fazer desde a provocação até a agressão de fato. E não era culpa deles. Era culpa de um sistema que joga 15 crianças para quatro funcionários — em alguns casos, apenas dois — e acha que isso se resolve na base da boa vontade.

Eu me lembro de uma menina de seis anos. Quando eu perguntava se ela sonhava durante a noite, ela me contava que tinha sonhos de ‘estar sendo adotada’. E que, quando isso acontecesse, ela ia poder sonhar com outra coisa. Mas que, por enquanto, era só com isso que ela sabia sonhar.

Uma criança de seis anos que já aprendeu que o sonho dela tem limite. Que o horizonte dela é a porta do SAICA.

A noite que não existe

Durante as férias, as saídas noturnas eram raríssimas. Não por falta de vontade dos educadores, mas por receio da gerência e do corpo técnico: a crença de que, à noite, seria mais fácil os acolhidos evadirem.

Eu, particularmente, costumava levar os jovens para passeios noturnos. Queria que eles experienciassem que a rua à noite não é necessariamente um local hostil, que pode sim ter espaços de lazer — como as batalhas de rima, por exemplo.

Mas essa era uma exceção. A regra era o confinamento.

A noite no SAICA durante as férias é um território pouco contado: mais inquietação, mais pesadelos, mais brigas, mais silêncio. E a maioria dos jovens nunca viu a cidade acesa depois das seis da tarde.

A burocracia que mata o passeio

Quando havia tentativa de sair, o caminho era traiçoeiro. A falta de verba era em quase todos os sentidos: desde o transporte privado até o pagamento dos ônibus, o ingresso em locais de lazer.

Havia a possibilidade de enviar ofícios para instituições privadas, que raramente respondiam com isenção ou meia-entrada. Havia muito mais recusas do que aceitações.

Ofícios para instituições públicas tinham uma letargia enorme, devolvidos com burocracia. Sobrava, assim, para a verba do próprio SAICA — que raramente pagava ingressos, conseguindo, no máximo, transporte coletivo para locais próximos.

E quando o transporte era coletivo, a humilhação começava antes do passeio. Pedir para entrar pela porta de trás do ônibus era, em alguns casos, a única opção. E por diversas vezes, muitos motoristas não aceitavam. Quando aceitavam, era de cara feia.

Muitos educadores tinham receio de sair com grande quantidade de acolhidos porque achavam que eles iriam sair do controle e que coisas ruins pudessem acontecer. E nunca havia uma orientação de como poderia ser feito, sobre manejos e afins. Apenas era dito que as crianças precisavam ir ao passeio.

E aí eu pergunto: por que uma criança que mora em acolhimento institucional precisa depender da boa vontade de um motorista de ônibus para ter um dia de lazer? Por que a responsabilidade de ocupar o tempo, de criar afeto, de evitar o tédio que corrói, recai sobre quem ganha pouco mais que um salário mínimo e trabalha em condições precárias?

Das três unidades onde trabalhei, apenas uma conseguiu, por pura desenvoltura da gerente local, inscrever os jovens no “Recreio nas Férias” oferecido pelos CEUs. Os abrigados que foram contemplados se sentiam muito bem, adoravam ir, brincavam, iam a passeios. Mas, em alguns casos, faltava verba para pagar o ônibus. Em alguns momentos, simplesmente não havia possibilidade de levá-los.

Os outros dois SAICAs? Ficaram à deriva. E não foi por falta de vontade dos profissionais de base. Muito pelo contrário. Era comum ver educadores tentando montar oficinas com material reciclado, organizar um futebol na quadra, propor um cinema caseiro.

Mas tudo isso dependia da iniciativa individual, do bolso do trabalhador, da criatividade no improviso. A matriz da ONG, aquela que deveria planejar, orçar e garantir direitos, mandava apenas silêncio.

O lazer racializado

Nos raros momentos em que conseguiam sair, os passeios eram para onde? Parques regionais, shoppings próximos, SESCs gratuitos. Sempre priorizando o que não custava ingresso. Sempre circulando na própria periferia.

A criança negra e pobre pode até sair do abrigo, mas não entra nos espaços de lazer da cidade. 

Eu fazia questão de que não andassem com crachás, para que não fossem estigmatizados pela sociedade. Mas a estigmatização vinha de outros lugares. A escola, por exemplo, independentemente agia de forma mais dura e esquecia dos acolhidos — acontecia por parte da diretora ao corpo docente.

O abandono não é só do SAICA. É do sistema educacional inteiro.

Enquanto crianças de classe média viajam, fazem colônias de férias, exploram museus e parques, os nossos ficam confinados na região. “Falta de verba”, dizem os ofícios que voltam com “não” do governo.

E os jovens aprendem, cedo demais, que o lazer é privilégio de quem tem família biológica com renda. Eles assistem de dentro do muro enquanto o mundo lá fora segue.

SAICA inaugurado em 2021 pela Prefeitura de São Paulo (foto divulgação)

SAICA inaugurado em 2021 pela Prefeitura de São Paulo (foto divulgação)

A família que some e a família que volta

Durante as férias, havia uma expectativa angustiante em torno das visitas familiares.

Crianças que esperavam receber mais visitas, mas que não era possível por parte dos genitores. Afinal, as férias eram escolares, mas muitos pais ainda precisavam trabalhar na mesma quantidade, se não mais.

E isso gerava uma frustração a mais.

Aqueles que voltavam da casa dos pais às vezes traziam na pele o que a origem do trauma ainda produzia. E os que ficavam na porta, esperando um visitante que não vinha, aprendiam que o esquecimento também é herança da pobreza.

O celular como janela e como prisão

Durante as férias, o acesso a dispositivos eletrônicos aumentava. Era uma das poucas formas que alguns tinham de “sair” do SAICA.

Mas, nos três SAICAs que passei, os computadores eram bem velhos e mal funcionavam. Adolescentes conseguiam mexer nas redes sociais, mas crianças não conseguiam jogar.

O celular era exclusivo de quem ainda tinha algum suporte por parte de genitores e/ou familiares. E ficavam cada vez mais imersos no algoritmo das redes sociais, vendo as férias dos colegas de escola, o mundo que não os quer.

Restava apenas a TV, que por vezes tinha algum conteúdo que agregasse de acordo com a vontade e conhecimento dos educadores. Se não, ficavam imersos em vídeos de hiper-estímulo nas plataformas de vídeo. A fuga digital que não é fuga.

A indústria do “fazer o bem”

E havia ainda outra cena que se repetia durante as férias e feriados: as visitas de doadores. Igrejas principalmente, mas também empresas específicas. Eles chegavam com brinquedos de baixo custo, faziam brincadeiras, tiravam fotos.

Confesso que, por muitas vezes, fiquei bem incomodado.

Muitos estavam ali claramente cumprindo um compromisso que evidentemente não era apenas religioso. Era perceptível o descompromisso desde a entrega dos brinquedos até a saída. Poucos eram aqueles que realmente ficavam ali e se prestavam a dar atenção verossímil para os acolhidos.

E havia sempre uma permissão da gerência para que houvesse esses doadores, mesmo que descompromissados.

Os acolhidos percebiam. Crianças e adolescentes sabem quando estão sendo usados como palco para salvação pessoal de terceiros.

Majoritariamente eram pessoas de igrejas evangélicas que, através de conversas, tentavam converter os acolhidos a esse credo em específico, quase que em troca dos brinquedos de baixo custo.

E apenas em um caso presenciei a visita de um terreiro de umbanda, mas que possuía muita dificuldade de inserção, pois era barrada na entrevista com a gerência. A espiritualidade afro, que é referência cultural de muitos daqueles jovens negros periféricos, era silenciada. Em seu lugar, o proselitismo religioso institucionalizado.

O ECA na parede e na prática

Eu conheço todos os artigos do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). Li por autodidatismo, por interesse próprio, assim como li sobre Psicologia e a abordagem Histórico-Cultural antes de entrar na faculdade. Nunca foi uma obrigação para nenhum educador.

Mas falando sobre o ECA, o que mais me chama atenção é o Artigo 4º: é dever da família, da comunidade, da sociedade e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação de todos os direitos fundamentais, como à vida, saúde, educação, dignidade e lazer.

E mesmo diante disso, a sociedade de forma geral vira as costas para as crianças e adolescentes em acolhimento.

As ONGs que administram os SAICAs não têm um compromisso contundente com os abrigados. Menos ainda com os profissionais que ali estão.

Não existe um planejamento basilar vindo da matriz que oriente desde a contratação até a formação continuada dos funcionários.

Um SAICA pode ser um espaço de acolhimento; outro, da mesma ONG, pode ser um purgatório. Tudo depende de quem está na ponta. E durante as férias, essa desigualdade fica escancarada.

A precarização que alimenta o abandono

Os educadores sociais eram obrigados a assumir todas as funções da vida de uma criança. O problema é que eram 15 para quatro funcionários, em alguns casos apenas dois.

Era muito difícil assistir a todos efetivamente. Principalmente era muito difícil ver colegas que não possuíam conhecimento necessário — por falta de formação negligenciada pelas ONGs — atuando em questões importantes da vida dos acolhidos.

A remuneração sempre foi irrisória. Me fazia pensar que quem trabalha ali é por outros motivos e não pelo salário. E só havia adicional se o orientador passasse do horário de trabalho.

E quando o Conselho Tutelar aparecia, era em raros momentos, sempre com um objetivo específico: falar com a gerência. Nunca com os acolhidos. Nunca com os demais funcionários.

Já a Vara da Infância e da Juventude (VIJ) também entrava em contato com a gerência, geralmente para pontuar atitudes de funcionários que haviam sido passadas pelo acolhido durante as audiências. A VIJ não vinha para oferecer solução. Vinha para controlar.

O abandono é interinstitucional: não é só a ONG, é o Estado inteiro que se omite.

SAICA inaugurado em 2021 pela Prefeitura de São Paulo (foto divulgação)

SAICA inaugurado em 2021 pela Prefeitura de São Paulo (foto divulgação)

A invisibilidade que cresce com a idade

E quanto aos adolescentes de 15, 16, 17 anos? Eles tendiam a ter uma vontade maior de sair, para passeios solo ou não. Mas por muitas vezes não podiam.

Os que podiam possuíam uma orientação rígida: se não fizesse como tal, perdia a possibilidade. E também não eram incluídos em passeios adequados às suas idades, pois majoritariamente as crianças abrigadas eram mais jovens.

O sistema, que já havia desistido deles no dia a dia, desistia deles também nas férias. Quanto mais velho, mais invisível.

Aos 18, a porta abre para a rua

E quando o relógio bate 18 anos, o abandono se consuma.

Eu acompanhei apenas um desligamento, mas ele diz tudo. Havia uma orientação que, por muitas vezes, era apenas verbal, vinda da parte técnica, sobre as Repúblicas Jovens ou Residências Inclusivas.

Mas o suporte real vinha dos educadores. Educadores que, mesmo sem orientação organizacional, acolhiam as angústias e ansiedades do jovem que sabia que seria desligado em breve. Educadores que faziam conexão com conhecidos para fornecer empregos, que tentavam garantir que aquele jovem não caísse no vácuo.

Mais uma vez, o que funcionava não era o sistema. Era o improviso, a rede informal, a solidariedade de quem ganha salário mínimo para cuidar de 15 vidas.

As férias no SAICA não são férias. São a amplificação de uma exclusão que já dura o ano todo.

E quando o jovem completa 18 anos, descobre que as férias nunca acabaram. Que o confinamento foi só um ensaio para a rua. Que o Estado que não garantiu lazer, não garantiu educação, não garantiu cuidado, também não garantirá moradia, trabalho, futuro.

A porta do SAICA se abre, e do outro lado não há plano. Há apenas a continuação do esquecimento.

A quebrada não precisa de heróis improvisados. Precisa de direitos garantidos.

Gabriel dos Santos Carvalho é negro, periférico, pai e educador social. Durante dois anos, foi orientador socioeducativo em três SAICAs diferentes de São Paulo. Estudante do oitavo semestre de Psicologia, escreve a partir do lugar de quem esteve do lado de dentro, cuidando de quem o poder público insiste em abandonar.Sobre o autor

Gabriel dos Santos Carvalho é negro, periférico, pai e educador social. Durante dois anos, foi orientador socioeducativo em três SAICAs diferentes de São Paulo. Estudante do oitavo semestre de Psicologia, escreve a partir do lugar de quem esteve do lado de dentro, cuidando de quem o poder público insiste em abandonar.

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