Corpos em alerta: o ciclo que atravessa mães atípicas e sobreviventes de violência doméstica nas periferias

OPINIÃO

Corpos em alerta: o ciclo que atravessa mães atípicas e sobreviventes de violência doméstica nas periferias

Por: Regiane Lays*

Às vésperas do Dia da Mães, celebrado no próximo domingo (10/5), agente de Terapia Comunitária Integrativa faz uma reflexão sobre pontos que aproximam essas maternidades. Confira no artigo de opinião!

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Tempo de leitura: 6 minutos

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Na sala de acolhimento de uma Delegacia de Defesa da Mulher, o silêncio fala antes das palavras. Ele se manifesta nos olhos vidrados, no corpo rígido e na respiração curta. Chega antes da história. Chega no corpo.

Foi nesse espaço que comecei a reconhecer padrões que mais tarde voltariam a aparecer em outro contexto: o de mães atípicas, mulheres que assumem, quase sempre sozinhas, o cuidado integral de filhos com deficiência ou transtornos do espectro autista (TEA). Os corpos eram semelhantes.

Fachada da Delegacia de Defesa da Mulher, em Santo Amaro, com funcionamento 24 horas por dia (Foto: Viviane Lima)

Fachada da Delegacia de Defesa da Mulher, em Santo Amaro, com funcionamento 24 horas por dia (Foto: Viviane Lima)

Mulheres em estado constante de alerta. Corpos tensionados, respiração encurtada e dificuldade de relaxar. Um estado que não é apenas emocional, mas fisiológico.

O corpo aprende que precisa estar pronto o tempo todo, porque o perigo, real ou simbólico, nunca deixa de existir.

Apesar das diferenças entre essas realidades, existe um ciclo que as aproxima.

Viver em alerta

No caso das mulheres em situação de violência doméstica, esse ciclo costuma ser descrito em fases de tensão, explosão e reconciliação. Para além dessa dinâmica, existe um elemento permanente: a repetição de pequenas violências que vão se acumulando no cotidiano, como silenciamentos, controle, desvalorização e medo.

Entre mães atípicas, o ciclo assume outra forma, mas produz efeitos semelhantes. A sobrecarga contínua, a ausência de rede de apoio, a negligência do Estado e o abandono familiar criam um cotidiano marcado por exaustão extrema. Não há pausa. Não há revezamento. Não há descanso.

Em ambos os casos, o corpo é atravessado por uma mesma permanência: viver em alerta. Há, no entanto, diferenças importantes.

A violência doméstica, ainda que muitas vezes invisibilizada, é socialmente reconhecida como uma violação de direitos, mesmo que o enfrentamento ainda seja insuficiente.

Já a maternidade atípica, especialmente nas periferias, é frequentemente romantizada. A sobrecarga é naturalizada como parte do amor materno, apagando o caráter estrutural dessa violência.

Porque sim, a negligência também é uma forma de violência.

Medo e cuidado

Quando o cuidado é individualizado e não há políticas públicas eficazes, o que se produz é o adoecimento contínuo dessas mulheres. Elas não apenas cuidam. Elas sobrevivem. Muitas vezes, essas realidades ainda se sobrepõem.

Quando a mulher é, ao mesmo tempo, mãe atípica e vítima de violência doméstica, o ciclo se intensifica. O medo deixa de ser apenas por si e passa a incluir os filhos. O futuro se torna uma ameaça constante. A sensação de não poder falhar e de não poder parar aprisiona o corpo e o pensamento.

Essas mulheres não chegam com esperança. Chegam com medo. E, mesmo assim, continuam.

Existe ainda uma dimensão silenciosa desse processo: a relação com a própria imagem. Muitas mulheres deixam de se reconhecer no espelho. O corpo passa a ser lembrança da dor, e não mais lugar de pertencimento.

Ainda assim, seguem cuidando.

Isso revela não apenas força, mas também um sistema que se sustenta na exaustão dessas mulheres.

Políticas públicas e redes fortes

Romper esse ciclo exige deslocar o olhar da responsabilidade individual para o coletivo. Não se trata de ensinar mulheres a serem mais fortes, porque elas já são. Trata-se de garantir condições para que não precisem sobreviver em estado permanente de alerta.

Isso passa, necessariamente, por políticas públicas que saiam do papel, com acesso à saúde integral, apoio psicológico, suporte financeiro, serviços de cuidado compartilhado e ampliação de equipamentos públicos que acolham tanto as mulheres quanto seus filhos.

Encontro de famílias atípicas da rede RAFA na Perifa (divulgação)

Encontro de famílias atípicas da rede RAFA na Perifa (divulgação)

Passa também pela construção e pelo fortalecimento de redes.

A coletivização do cuidado é uma das principais estratégias de ruptura. Grupos, rodas de conversa e espaços comunitários de escuta e troca funcionam como tecnologias sociais que transformam a experiência da dor. Quando a vivência deixa de ser isolada, ela pode ser nomeada, compreendida e ressignificada.

Na periferia, essas soluções já existem, muitas vezes criadas pelas próprias mulheres. São redes informais, vizinhas que ajudam, coletivos que acolhem e projetos comunitários que criam espaços de respiro. Essas iniciativas mostram que o cuidado pode e deve ser compartilhado.

Mas elas não podem continuar sendo a única resposta.

A invisibilidade dessas mulheres sustenta o ciclo. Tornar visíveis suas vivências é um passo fundamental para transformá-las em pauta pública, em direito e em política.

Porque nenhuma mulher deveria precisar escolher entre sobreviver e cuidar. E nenhuma deveria precisar fazer isso sozinha.

*Regiane Lays é mãe, estudante do último ano de Psicologia, agente de Terapia Comunitária Integrativa e fundadora da Casa Gaia 360. Desenvolve trabalhos comunitários voltados à promoção da saúde mental, autocuidado, senso de pertencimento e fortalecimento de vínculos, articulando práticas integrativas, escuta qualificada e ações de cuidado em contextos de vulnerabilidade social. 

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