Aos gritos de ‘olê, olê, olá, Lula’, ‘faz o L’ e ‘vai dar PT’, às 21h21 deste domingo (25/10) as quebradas paulistanas ecoaram a comemoração que varre o País: Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está reeleito presidente da República, com mandato renovado até 2030.
Lula fez um feito inédito: com mobilização popular nas redes e nas ruas, o ‘exército’ do petista virou o resultado do primeiro turno.
Neste segundo turno, o presidente obteve mais de 64 milhões de votos (51,8% dos votos válidos) ante quase 60 milhões de votos (48,2%) para o senador de extrema direita Flávio Bolsonaro (PL).
No primeiro turno, Flávio ficou em primeiro lugar, com 56,1 milhões de votos (47% dos válidos). Já Lula obteve 53,8 milhões (53,8% dos válidos) em 4 de outubro. O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe, diz não reconhecer o resultado.
Ao todo, 158 milhões de pessoas estavam aptas a votar em todo o País no segundo turno das eleições presidenciais. Desse total, 4,1 milhões (3,24%) votaram em branco ou anularam os votos – cerca de 1,8 milhão a menos que no primeiro turno.
Outros 30 milhões de pessoas (19,2% do eleitorado) não foram votar, mostrando que a abstenção diminuiu em mais de 3,2 milhões em relação ao primeiro turno.
O resultado é apresentado em meio a um cenário caótico inédito para as eleições brasileiras desde o início do uso das urnas eletrônicas.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não respondeu aos relatos de falta de transporte público suficiente em diferentes cidades, inclusive São Paulo. Às 17h05, o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), prorrogou a votação até as 19h. Porém, a essa altura muitas seções já estavam fechadas.
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Cinturão vermelho
O resultado nacional não difere das periferias paulistanas – redutos tradicionais da esquerda brasileira.
Na cidade de São Paulo, Lula venceu a disputa com 3,8 milhões de votos (55,5 % dos válidos), enquanto Flávio ficou com 3 milhões de votos (44,5%).
Ambos os candidatos aumentaram suas votações na capital paulista. No primeiro turno, Lula havia obtido pouco mais de 3 milhões de votos (46,5%) ante 2,7 milhões (42,1%) para Flávio Bolsonaro.
O direitista, que representa o pai e ex-presidente Jair (preso pela tentativa do golpe em 2023), venceu em algumas periferias.
Porém, ele teve maioria absoluta dos votos em bairros ricos e tradicionais (57,8% em Indianópolis e 55% no Jardim Paulista), ou que mudaram de perfil nas últimas décadas, como Tatuapé (58,5%, maior votação na capital) e Vila Formosa (54,8%).
Já Lula venceu com ampla margem em extremos das zonas Sul, Leste e Noroeste.
O petista ganhou no Grajaú (66,9% – foram 57,7% no primeiro turno), Piraporinha (67% agora ante 57,6% no primeiro turno), Cidade Tiradentes (66,1% ante 57,4% no primeiro turno), Valo Velho (66,3% ante 56,7% no primeiro turno), Parelheiros (65,8% ante 56% no primeiro turno) e Capão Redondo (66,3% a 54% no primeiro turno).
A votação para Lula ainda superou mais de 60% dos votos em São Mateus 61,3%), Guaianases (61,1%), Brasilândia, Campo Limpo, Conjunto José Bonifácio, Jardim São Luís, Pedreira e Perus e Brasilândia (60% em todos eles).
Entre os 39 municípios da região metropolitana de São Paulo, Lula teve 61% em Diadema (52,4% no primeiro turno) e em Francisco Morato (52,2% na votação anterior).

Resultado por zona eleitoral da cidade de São Paulo: quanto mais laranja, maior a proporção em votos para Lula
O petista também venceu com mais da metade dos votos em Taboão da Serra (59%), Embu das Artes (58,3%) Itapecerica (57,9%), Ferraz de Vasconcelos (57,3%), Itapevi (56,6%), Franco da Rocha (55,8%), Carapicuíba (55,4%), São Bernardo e Santo André (55,1%), Itaquaquecetuba (54,8%), Mauá (54,8%), Pirapora do Bom Jesus (54,3%), Jandira (52,5%) ou Osasco (52,2%), entre outras.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, liderou em outros municípios – inclusive Guarulhos (51%), segunda cidade mais populosa do estado.
Confira a tabela abaixo:
Presidência da República
Acompanhe o desempenho das candidaturas à Presidência no Brasil, Estado de São Paulo e na Capital. Os vencedores de cada localidade estão destacados em verde.
| Candidaturas |
Brasil
Líder: Lula |
Estado de SP
Líder: Flávio Bolsonaro |
Cidade de SP
Líder: Lula |
|---|---|---|---|
Lula
PT | 64.256.232 51,79% | 12.119.274 46,15% | 3.864.354 55,5% |
Flávio Bolsonaro
PL | 59.826.041 48,21% | 14.139.178 53,85% | 3.097.923 44,5% |
| Brancos ou nulos | 4.153.801 (3,24%) | 1.105.937 (4,04%) | 321.790 (4,42%) |
| Não foram votar (Abstenção) | 30.507.637 (19,2%) | 6.759.202 (19,81%) | 1.861.898 (20,36%) |
| Total de votos válidos | 124.082.273 (96,76% dos votos totais) | 26.258.452 (95,96% dos votos totais) | 6.962.277 (95,58% dos votos totais) |
| Candidaturas |
Brasil
Líder: Flávio Bolsonaro |
Estado de SP
Líder: Flávio Bolsonaro |
Cidade de SP
Líder: Lula |
|---|---|---|---|
Flávio Bolsonaro
PL | 56.054.827 47,07% | 12.920.157 51,93% | 2.760.632 42,13% |
Lula
PT | 53.719.811 45,11% | 9.504.163 38,20% | 3.052.249 46,58% |
| Outras candidaturas | 9.313.278 7,82% | 2.455.292 8,77% | 739.724 11,30% |
| Brancos ou nulos | 5.966.080 | 1.548.869 | 453.567 |
| Não foram votar (Abstenção) | 33.395.938 | 7.689.924 | 2.138.547 |
| Total de votos válidos | 119.101.486 (95,23% dos votos totais) | 24.879.612 (94,14% dos votos totais) | 6.552.820 (93,53% dos votos totais) |
Dados referentes às eleições presidenciais.
O que o resultado significa para as periferias?
A Periferia em Movimento ouviu especialistas para entender o voto das quebradas paulistanas neste segundo turno e projetar o impacto da eleição de Lula para quem vive em territórios populares, sejam urbanos ou rurais.
“Esse resultado pode indicar que continua existindo uma relação de confiança entre parte da população periférica e um projeto político associado à ampliação de direitos e melhoria das condições de vida nas periferias”, avalia Lidiane da Silva, pesquisadora periférica e mestre em semiótica.
Lidiane ressalta que o voto não pode ser visto como ‘fidelidade automática’, mas como reconhecimento de conquistas anteriores, expectativas de melhorias e rejeição ao adversário.
“Uma vitória do Lula também representa uma responsabilidade: fazer com que essa confiança se traduza em melhorias concretas no cotidiano das periferias”, completa a pesquisadora.
Para o secretário nacional de periferias do governo Lula, Guilherme Simões, o resultado demonstra o ‘elo histórico com um projeto democrático popular pro País’. Simões destaca, ainda, a rejeição a um projeto ‘autoritário, antipopular e elitista’ da família Bolsonaro.
Ele lembra que, apesar do bom desempenho, Lula perdeu votos em relação a 2022 – inclusive nas periferias. E é preciso analisar o que essa perda significa.
Por isso, Tiaraju Pablo D’Andrea aposta que Lula vai radicalizar nas políticas públicas no próximo período.
“Ele vai ter que ganhar os setores populares, e vai vir com acenos mais evidentes do que foi feito no terceiro mandato dele”, avalia o professor e coordenador do Centro de Estudos Periféricos (CEP), no campus Leste da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).







