A Copa acaba. As periferias seguem em campo

OPINIÃO

A Copa acaba. As periferias seguem em campo

Por: Carolina Farias Moraes e Daiany França Saldanha, do podcast Vozes do Esporte**

Da Cidade do México a Boston, projetos sociais mostram que a Copa pode promover intercâmbios, encontros e oportunidades para crianças e jovens. Mas o legado de uma Copa só existe quando começa antes do evento e continua depois do apito final. Leia no artigo final das criadoras do podcast Vozes do Esporte

Compartilhe!

Tempo de leitura: 14 minutos

Quando se fala em legado de um megaevento esportivo, as primeiras imagens que costumam aparecer são estádios, aeroportos, sistemas de transporte e grandes obras urbanas.

Mas que legado cabe na primeira viagem de avião de um adolescente?

E na primeira vez que um jovem sai do seu país, conversa com pessoas que falam outras línguas ou entra em campo ao lado de jogadores que antes conhecia apenas pela televisão?

Durante nossa passagem pelo México e pelos Estados Unidos, encontramos algumas respostas possíveis. Elas não estavam necessariamente dentro dos estádios. Apareciam nos projetos sociais, nos encontros entre organizações, nas programações paralelas e nas experiências construídas ao redor da Copa.

Essas experiências ajudam a compreender algo importante: os megaeventos não produzem legados sociais automaticamente. Eles criam uma concentração extraordinária de pessoas, recursos, empresas, governos e organizações.

O que será feito com essa oportunidade depende das escolhas realizadas antes, durante e depois da competição.

A Copa antes da Copa

Na Cidade do México, visitamos a Fundação Fútbol Más, organização internacional criada no Chile, em 2008, que utiliza o futebol e o jogo como ferramentas de desenvolvimento social.

Presente no México desde 2017, atua com crianças, adolescentes, famílias e comunidades em bairros, escolas, abrigos e contextos de emergência, trabalhando habilidades socioemocionais, convivência, participação e proteção.

Sua metodologia valoriza atitudes como respeito, alegria, responsabilidade, criatividade e trabalho em equipe, tendo o Cartão Verde como um de seus principais símbolos.

Daiany (dir.) com o cartão verde e jovem da organização (arquivo pessoal)

Daiany (dir.) com o cartão verde e jovem da organização (arquivo pessoal)

A visita aconteceu pouco depois da realização da Street Child World Cup, competição organizada semanas antes da Copa da FIFA.

Em sua edição de 2026, o evento reuniu 28 equipes de 20 países e combinou partidas de futebol, atividades artísticas e espaços de discussão sobre direitos, identidade, educação, segurança e igualdade de gênero.

A organização mexicana Fútbol Más participou da realização do evento ao lado da Street Child United e do Instituto Mexicano do Seguro Social.

Entre as participantes estavam duas organizações brasileiras: o projeto Em Busca de Uma Estrela e a Street Child United Brazil. As equipes brasileiras terminaram a competição com resultados importantes dentro de campo, mas talvez a parte mais relevante da experiência tenha acontecido fora dele: nas trocas com organizações e jovens de diferentes lugares do mundo.

Durante nossa conversa, a equipe da Fútbol Más falou justamente sobre isso. Sobre conhecer pessoas de muitos países, descobrir metodologias, compartilhar experiências e perceber que organizações territorialmente distantes enfrentam desafios semelhantes.

Esses encontros não costumam aparecer nas transmissões esportivas. Não entram nas estatísticas da Copa nem são considerados quando se calcula o número de gols, turistas ou ingressos vendidos.

Ainda assim, podem fortalecer organizações para os anos seguintes.

Na mesma Cidade do México, poucos dias antes do início do Mundial, o World Football Summit reuniu mais de 1.700 profissionais de 43 países para discutir os negócios, as tecnologias e o futuro da indústria do futebol.

Os dois encontros eram muito diferentes. De um lado, dirigentes, empresas, investidores e organizações da indústria esportiva. Do outro, crianças e jovens com trajetórias marcadas pelas desigualdades, usando o futebol para falar sobre seus direitos.

Juntos, eles mostram a dimensão do ecossistema que se forma ao redor de um megaevento.

Durante algumas semanas, o mundo do futebol se desloca para determinados territórios. A questão é saber quem consegue entrar nesses espaços, quem estabelece relações e quem continua tendo acesso quando a bola deixa de rolar.

Com crianças do Fútbol Más (arquivo pessoal)

Com crianças do Fútbol Más (arquivo pessoal)

Entrar em campo também produz memória

A participação da Fútbol Más na Copa não terminou com a Street Child World Cup.

A organização também mobilizou crianças para acompanhar partidas, recebeu visitas de pessoas e instituições de outros países, como a nossa, e selecionou participantes de seus projetos para ações promovidas por patrocinadores.

Para quem observa de fora, pode parecer uma atividade pequena diante da dimensão bilionária de uma Copa do Mundo.

Para uma criança, no entanto, atravessar o túnel de um estádio, pisar naquele gramado e enxergar as arquibancadas pode se tornar uma memória para a vida inteira.

Enquanto escutava esse relato, lembramos imediatamente de 2014.

Na década esportiva realizada no Brasil, marcada pela Copa do Mundo de Futebol Masculino e pelos Jogos Olímpicos e Paralímpicos, nós, Daiany e Carolina, autoras desta coluna, também participamos desse tipo de mobilização por meio das organizações em que trabalhávamos.

Uma dessas experiências foi a Rede Paulista de Futebol de Rua, criada a partir das articulações construídas durante o Mundial de Futebol de Rua, realizado em São Paulo paralelamente à Copa de 2014. O evento reuniu jovens e organizações de diferentes países e ajudou a fortalecer uma rede que permaneceu ativa nos territórios depois que os jogos terminaram.

LEIA MAIS: Mundial de Futebol de Rua reúne 300 jovens

Junho e julho de 2014 – Cobertura do Mundial de Futebol de Rua, realizado em São Paulo com mais de 300 jovens de periferias de 20 países (foto Periferia em Movimento)

Mais de uma década depois, seguimos nos lembrando daquelas experiências.

O simples fato de essa memória ainda permanecer diz alguma coisa sobre a força simbólica de um megaevento.

A Copa cria acontecimentos que dificilmente fariam parte da vida cotidiana de crianças e jovens das periferias. Ela pode abrir portas, permitir viagens e aproximar pessoas de espaços que normalmente parecem reservados a poucos.

Mas uma lembrança, por mais importante que seja, não basta para constituir um legado social.

Uma ação de patrocinador pode durar alguns minutos. Uma visita ao estádio pode durar algumas horas. Uma viagem pode durar alguns dias.

O legado começa quando essas experiências se conectam a processos educativos mais longos, fortalecem organizações, ampliam repertórios e ajudam crianças e jovens a reconhecerem novos caminhos para suas vidas.

Caso contrário, os projetos sociais correm o risco de ser procurados apenas para indicar participantes, preencher vagas em ações institucionais ou compor fotografias que demonstrem diversidade.

As organizações não podem ser apenas o caminho utilizado pelas empresas para chegar aos territórios. Elas precisam participar das decisões, acessar recursos e continuar fortalecidas depois que os patrocinadores e as estruturas do evento vão embora.

Em Boston, o futebol teve três tempos

Encontramos essa discussão novamente em Boston, durante o Festival 26.

Realizado entre os dias 5 e 13 de julho, o evento foi organizado pela Boston SCORES e pela organização francesa Sport dans la Ville.

Durante nove dias, centenas de jovens, educadores e lideranças de dezenas de organizações participaram de atividades esportivas, intercâmbios culturais, formação de lideranças e debates sobre o uso do futebol para o desenvolvimento social.

Foto do Festival 26 (arquivo pessoal)

Foto do Festival 26 (arquivo pessoal)

Entre as delegações brasileiras estavam a Fundação EPROCAD, de Santana de Parnaíba, em São Paulo; e o Instituto Formação, que atua na Baixada Maranhense.

As duas organizações desenvolvem trabalhos continuados que relacionam esporte, educação, cidadania e desenvolvimento comunitário.

Entrevistamos representantes das duas delegações.

Mais uma vez, os relatos não se concentraram apenas nos resultados das partidas. Educadores e jovens falaram sobre conhecer pessoas de diferentes partes do mundo, conviver com outras culturas e descobrir que o futebol pode ser jogado e compreendido de muitas formas.

Para alguns participantes, aquela havia sido a primeira viagem de avião. Para outros, a primeira oportunidade de sair do Brasil.

É difícil medir o impacto de uma experiência como essa imediatamente. Talvez ele apareça anos depois, quando uma jovem decidir aprender outro idioma, assumir uma posição de liderança em sua comunidade ou imaginar uma trajetória profissional que antes parecia distante.

Viajar não elimina desigualdades. Conhecer outro país não resolve os problemas enfrentados nos territórios. Mas essas experiências podem ampliar a maneira como crianças e jovens enxergam o mundo e o lugar que ocupam nele.

Isso também é acesso.

Durante o Festival 26, as partidas utilizaram a metodologia do futebol em três tempos. Antes do jogo, as equipes conversam e definem coletivamente algumas regras. No segundo tempo, disputam a partida. No terceiro, voltam a se reunir para avaliar o comportamento das equipes, o cumprimento dos acordos e os valores demonstrados em campo.

Os gols continuam importantes, mas não são os únicos elementos considerados. Respeito, diálogo, cooperação, igualdade de gênero e capacidade de resolver conflitos também fazem parte do resultado.

Em um momento em que a Copa do Mundo amplia sua quantidade de seleções, partidas, patrocinadores e receitas, talvez seja significativo encontrar um futebol que proponha diminuir a velocidade depois do jogo para conversar sobre o que aconteceu.

O terceiro tempo nos obriga a fazer algo que os megaeventos nem sempre fazem: olhar para trás, avaliar os acordos e perguntar quem realmente ganhou.

Legado para quem?

A palavra legado aparece com frequência nos discursos de governos, empresas e organizações esportivas.

Quase tudo pode ser apresentado como legado: uma obra, uma campanha, um curso, uma visita, um ingresso distribuído ou uma fotografia com crianças.

Por isso, talvez seja necessário fazer outra pergunta.

Legado para quem?

Para uma empresa, o legado pode ser a associação de sua marca a uma causa social. Para uma cidade, pode ser a infraestrutura construída. Para uma organização, pode ser uma nova parceria internacional. Para uma criança, pode ser a primeira viagem de avião.

Esses resultados não são necessariamente incompatíveis. O problema começa quando as comunidades aparecem apenas como beneficiárias de decisões tomadas por outras pessoas.

Crianças são as mais animadas para a decoração

Crianças são as mais animadas para a decoração de ruas na copa (Foto Pedro Salvador)

Um legado social consistente não deve apenas levar crianças aos espaços da Copa. Deve criar condições para que organizações e comunidades também participem da definição desses espaços.

Isso significa reconhecer que os projetos sociais não começam a trabalhar quando a Copa chega. Eles já estavam nos territórios muito antes, formando educadores, organizando campeonatos, dialogando com famílias, garantindo espaços seguros e defendendo direitos.

Foi esse trabalho anterior que permitiu à Fútbol Más receber organizações de diversos países no México. Foi ele que possibilitou à Fundação EPROCAD e ao Instituto Formação viajar até Boston. Também foi esse trabalho cotidiano que permitiu que crianças fossem selecionadas para entrar em campo em 2014 e novamente em 2026.

A Copa não criou essas organizações.

Foram essas organizações que deram uma dimensão social à Copa.

O legado também precisa de três tempos

Talvez a metodologia utilizada no Festival 26 ofereça uma boa forma de pensar os legados sociais dos megaeventos.

No primeiro tempo, antes da Copa, governos, patrocinadores e organizações esportivas precisam conversar com os territórios, estabelecer compromissos e definir coletivamente as regras.

No segundo tempo, durante a competição, é necessário garantir participação, acesso, recursos e visibilidade para quem normalmente permanece distante dos grandes eventos.

No terceiro tempo, depois que a bola para, é preciso avaliar o que foi cumprido, manter as relações construídas e assegurar que investimentos, conhecimentos e oportunidades continuem circulando.

Sem o terceiro tempo, corremos o risco de confundir experiência com transformação.

A primeira viagem de avião pode não mudar sozinha a vida de uma criança. Mas pode mudar a forma como ela imagina seu lugar no mundo.

Entrar em campo pode durar poucos minutos. Mas pode fazer com que aquela criança passe a se reconhecer como alguém que também tem direito de ocupar espaços considerados inacessíveis.

Conhecer pessoas de diferentes países não resolve os desafios de uma organização. Mas pode criar uma rede de colaboração capaz de atravessar fronteiras e continuar depois do evento.

Nada disso é pequeno.

Mas também não pode depender apenas da sorte de ser escolhido para uma ação ou da existência de um patrocinador interessado em produzir uma boa história.

O verdadeiro legado social começa quando essas experiências deixam de ser exceções e passam a fazer parte de uma estratégia de acesso, participação e fortalecimento dos territórios.

O jogo termina depois do apito final.

O legado, quando existe, começa no terceiro tempo.

{{ reviewsTotal }}{{ options.labels.singularReviewCountLabel }}
{{ reviewsTotal }}{{ options.labels.pluralReviewCountLabel }}
{{ options.labels.newReviewButton }}
{{ userData.canReview.message }}

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

APOIE!
Acessar o conteúdo