Haiti de volta ao próprio sonho

OPINIÃO

Haiti de volta ao próprio sonho

Por: Carolina Farias Moraes e Daiany França Saldanha, do podcast Vozes do Esporte**

52 anos após sua primeira Copa, o Haiti volta ao Mundial. Entre diáspora, Jogo da Paz e Pérolas Negras, a história de um povo que aprendeu a existir além das fronteiras e que há décadas veste as cores do Brasil com orgulho. Confira o artigo de apresentadoras do podcast Vozes do Esporte

Compartilhe!

Tempo de leitura: 8 minutos

Ouça esse post

A primeira parte deste texto está sendo escrita horas antes de Brasil e Haiti entrarem em campo. Quando o destino nos oferece um encontro como esse, existe quase uma obrigação de  revisitar a história.

Talvez isso soe repetitivo para quem acompanha futebol de perto. Mas o primeiro texto desta série, É possível ignorar uma Copa do Mundo?, também chegou a pessoas que costumam olhar para o futebol apenas quando a Copa começa.

E, se esse é o caso, vale a pena apresentar melhor um país que, há décadas, veste as cores do Brasil com orgulho.

A Copa de 2026 encerrou um jejum de 52 anos da seleção haitiana longe do principal torneio do futebol. A única participação anterior havia acontecido em 1974, na Alemanha Ocidental. O sorteio não foi generoso. O Haiti caiu em um grupo com Itália, Argentina e Polônia, perdeu os três jogos e foi eliminado ainda na primeira fase.

Mas a história não termina aí

Seleção haitiana de 1974

Seleção haitiana de 1974

O feito da seleção haitiana se torna ainda mais impressionante quando olhamos para o contexto. A classificação para a Copa do Mundo de 2026 aconteceu sem que a equipe pudesse disputar partidas oficiais em Porto Príncipe. Desde 2021, a seleção manda seus jogos em Curaçao. A seleção precisou transferir seus compromissos internacionais para Curaçao e não pode ter o apoio do seu povo.

A trajetória da seleção haitiana ajuda a ilustrar uma reflexão presente na obra do antropólogo e historiador haitiano Michel-Rolph Trouillot: o Haiti não pode ser compreendido apenas a partir de suas fronteiras nacionais. Saiba mais sobre a história da Revolução Haitiana aqui.

Sua história também é construída pelas comunidades haitianas espalhadas pelo mundo. Muitos dos jogadores da atual seleção sequer nasceram no Haiti. São filhos e netos da diáspora, atletas que cresceram em outros países, mas que seguem encontrando no Haiti um lugar de pertencimento. De certa forma, a equipe que disputa a Copa do Mundo também conta a história de um país que aprendeu a existir para além de suas fronteiras.

Muito antes do encontro desta Copa, Brasil e Haiti já haviam se encontrado em campo. Em agosto de 2004, poucos meses após o início da missão da ONU no país, a seleção brasileira desembarcou em Porto Príncipe para disputar o que ficaria conhecido como Jogo da Paz.

Existem debates importantes sobre aquele momento. Sobre o papel da missão internacional, sobre o uso político da seleção brasileira e sobre os limites de iniciativas que tentam responder a problemas complexos por meio do esporte. Em certa medida, o amistoso também foi interpretado como parte de uma estratégia de projeção internacional do Brasil em um período de maior protagonismo do país na política externa.

Mas existe também algo difícil de ignorar quando revisitamos as imagens daquele dia. As ruas tomadas por pessoas vestindo amarelo. Os carros blindados avançando lentamente entre multidões. Crianças tentando se aproximar dos jogadores. Um estádio lotado.

O Brasil venceu por 6 a 0. Mas o resultado foi o que menos ficou na memória.

A bola continuou rolando

Se o Jogo da Paz tornou visível a proximidade entre Brasil e Haiti, ela também se materializou em iniciativas que usaram o futebol como ponto de encontro entre os dois países.

Ao longo das últimas duas décadas, organizações da sociedade civil, clubes e projetos esportivos abriram caminhos para que jovens haitianos encontrassem oportunidades de formação através do esporte.

A experiência mais conhecida é a do Pérolas Negras, projeto criado pela organização Viva Rio em Porto Príncipe. Inserida em um centro comunitário que reunia atividades educacionais, culturais e esportivas, a iniciativa oferecia formação esportiva, acompanhamento escolar e novas perspectivas para jovens haitianos.

Com o passar dos anos, alguns desses adolescentes tiveram a oportunidade de seguir sua trajetória no Brasil. Em 2016 e 2017, o Pérolas Negras disputou a Copa São Paulo de Futebol Júnior com elencos formados exclusivamente por atletas haitianos.

Um nome que passou pelo Pérolas Negras e hoje integra a seleção haitiana é Danley Jean Jacques. Aos 16 anos, ele entrou em campo na Copinha vestindo a camisa do clube.  Depois da experiência no Brasil, seguiu sua trajetória entre Haiti e França até chegar ao futebol profissional europeu. Atualmente no Philadelphia Union, dos Estados Unidos, o meio-campista foi uma das peças importantes da campanha que levou o Haiti de volta à Copa do Mundo após 52 anos.

Durante décadas, muitos haitianos acompanharam as Copas do Mundo vestindo amarelo. Torceram pelo Brasil, colecionaram fotos de jogadores brasileiros e encontraram na seleção brasileira uma forma de participar da festa. Antes da partida, Dany Jean resumiu essa relação ao afirmar que o Brasil “trouxe felicidade” para o povo do Haiti.

Jogo entre as seleções de Haiti e Brasil, em 2004

Jogo entre as seleções de Haiti e Brasil, em 2004

Desta vez, foi diferente

Depois de 52 anos, o Haiti voltou a entrar em campo por si mesmo. Não apenas como um país que escolhe outra seleção para torcer, mas como protagonista de sua própria história.

Agora, já escrevendo a segunda parte deste texto, depois da vitória do Brasil por 3 a 0, certamente não faltarão análises sobre o que aconteceu em campo. Mas o placar não é capaz de contar tudo o que estava em jogo naquele encontro.

O Haiti voltou à Copa mesmo sem poder jogar em casa. Voltou representado por atletas que cresceram em diferentes partes do mundo. Voltou carregando as marcas da diáspora, das crises e das distâncias, mas também um sentimento de pertencimento que nenhuma fronteira conseguiu apagar.

O carinho pelo Brasil permanece. Mas, pela primeira vez em mais de meio século, os haitianos não precisaram apenas participar da alegria de outro país.

Puderam olhar para o campo e reconhecer a própria camisa, o próprio hino e a própria história.

Depois de 52 anos, o Haiti estava de volta ao próprio sonho.

Quer saber mais sobre como mobilizar seu território durante a Copa? Siga @periferiaemmovimento e @vozesdoesporte.co ou fale com a gente: vozesdoesporte@mudarojogo.com.br | (11) 97287-6545.

Sobre as autoras

{{ reviewsTotal }}{{ options.labels.singularReviewCountLabel }}
{{ reviewsTotal }}{{ options.labels.pluralReviewCountLabel }}
{{ options.labels.newReviewButton }}
{{ userData.canReview.message }}

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

APOIE!
Acessar o conteúdo