‘Orquestra de cavaco’: Com adolescentes, Pagode da 27 forma nova geração de bambas

‘Orquestra de cavaco’: Com adolescentes, Pagode da 27 forma nova geração de bambas

Roda de samba do Grajaú, que celebrou 20 anos em festa no último final de semana, aposta na música como ferramenta de transformação cultural, comunitária e profissional do Extremo Sul de São Paulo

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Tempo de leitura: 8 minutos

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Ao chegar na rua Manuel Guilherme dos Reis, o som orquestrado seguindo a orientação do maestro invade os ouvidos. A melodia pertence à família das cordas e não vem da música erudita, mas do cavaco e do banjo, instrumentos tradicionais da música periférica brasileira.

Nesta rua, conhecida como 27, que adolescentes do Grajaú encontram novas oportunidades. Essa é a atmosfera ao adentrar a Casa 27, extensão social do tradicional Pagode da 27, que no domingo (31/5) celebrou duas décadas de história em um show no Parque Villa-Lobos com mais de 10 mil pessoas.

Desde 2022, a Casa 27 promove atividades para crianças e adolescentes com o objetivo de ampliar conhecimentos por meio da literatura, aulas de inglês, treinos de futebol de base e, mais recentemente, com a Orquestra de Cavaco, Banjo e Percussão – a primeira do Brasil.

“Quando eu saio na rua com o instrumento na mão e com a camiseta da 27, eu não sou só mais um garoto do Primavera-Interlagos. Eu sou o João da Orquestra da 27”, conta, com entusiasmo, João Alberto Pinho Clementino de Andrade, de 18 anos.

Samba de raiz

A ideia de criar a orquestra surgiu em 2021, a partir da provocação do parceiro Helder Oliveira, e ganhou força com os demais integrantes da própria comunidade. Entre eles, Ricardo Rabelo, um dos fundadores do grupo, que além de músico também é luthier – profissional que constrói instrumentos de corda, como cavaquinho e banjo.

Ao lado de Leandro Carvalhal, também músico do Pagode da 27, Rabelo desenvolveu a proposta de uma orquestra voltada ao samba de raiz, unindo formação musical e luthieria.

No final de novembro de 2024, eles conduziram adolescentes de 12 a 18 anos no processo de construção dos próprios instrumentos que seriam utilizados nas aulas.

“A orquestra não se resume apenas ao ensino musical ou à prática da percussão e dos instrumentos harmônicos. Existe todo um trabalho desenvolvido desde o início, que passa pela construção dos instrumentos, pelas aulas de música e, agora, pela inserção dessas canções no repertório da orquestra”, explica Leandro.

O projeto teve apoio do Programa VAI (Valorização de Iniciativas Culturais), política pública municipal de origem popular voltado ao fomento de iniciativas culturais periféricas.

O apoio foi concluído oficialmente em setembro de 2025, mas as aulas e encontros seguiram acontecendo de forma independente, a partir da articulação entre Leandro, Júlio Cesar Costa (coordenador da Casa 27) e de adolescentes participantes.

“Eu acho que o grande impacto do projeto é justamente ampliar as possibilidades para esses jovens, por isso a resistência. Aqui, eles conhecem a luthieria, que pode se tornar uma profissão; têm contato com a música, que também é um caminho profissional; e até com a possibilidade de, futuramente, se tornarem professores. Mais do que formar músicos, a nossa maior vontade é oferecer opções para eles”, destaca Leandro.

Leandro Carvalhal (de pé), com a Orquestra de Cavaco e Banjo (foto Carolina Rosa)

Leandro Carvalhal (de pé), com a Orquestra de Cavaco e Banjo (foto Carolina Rosa)

Disciplina e novos caminhos 

Quando o assunto é música, o grupo de adolescentes da orquestra se sente em casa.

O samba, muitas vezes considerado uma música antiga, segue despertando ouvidos atentos. Frequentemente relacionado ao improviso e à construção “de ouvido”, o gênero aqui ganha novos contornos dentro da Orquestra de Cavaco e Banjo da Casa 27.

Entre aulas de teoria musical, ensaios coletivos e a rotina de estudos dos instrumentos, adolescentes passaram a lidar com uma dinâmica marcada pela disciplina e organização.

“A orquestra moldou muito da minha rotina, porque me ensinou a administrar melhor o meu tempo. Antes, eu só ia para a escola e fazia meu curso de inglês. Quando comecei a frequentar as aulas aqui, precisei conciliar tudo isso”, conta Marcella Sigoli, 17 anos, uma das adolescentes do projeto.

Para a jovem, aprender um instrumento exige constância e dedicação no dia a dia:

“Aqui, a gente aprende que não adianta chegar só no sábado para tocar. Precisa praticar durante a semana, tirar um tempo do dia para estudar e aplicar o que aprendeu, porque, no próximo encontro, a gente consegue evoluir mais.”

Para João Alberto, o sentimento de pertencimento aumentou significativamente depois de ter contato com outras pessoas de idade próxima à sua, gostos e curiosidades em comum.

A orquestra também mudou a maneira como adolescentes enxergam a si mesmos e o território onde vivem. Entre ensaios, apresentações e rodas de samba, o grupo passou a se conectar com a coletividade, a memória do samba e a identificação com a própria quebrada.

A experiência ganhou ainda mais significado a partir do contato com sambistas mais velhos, os nego véio”, como costumam dizer dentro do samba. Muitos deles lembram à nova geração que aprender um instrumento e acessar uma formação musical ainda é uma oportunidade distante para grande parte da juventude periférica.

A fala atravessou integrantes da orquestra como um exercício de consciência e valorização do espaço que ocupam hoje e se chamam de “Filhos da 27”, que traduz a relação construída com o projeto na formação.

“Somos frutos daqui”, resume João Alberto.

Construção comunitária

Júlio César, coordenador da Casa 27, destaca que o espaço se tornou um ambiente seguro para as pessoas que frequentam tanto o samba quanto as atividades do local. Para ele, isso revela um processo de autoeducação acontecendo no cotidiano da quebrada.

“Ao longo do tempo, foi surgindo uma mudança no olhar sobre a roda de samba. Mais do que um espaço de lazer, ela passa a ser entendida como parte de uma movimentação cultural e comunitária mais ampla. A celebração, muitas vezes estigmatizada quando acontece nas periferias, ganha outro significado: reunir pessoas para ouvir samba, conversar, rir e ocupar o território também é construção social”, afirma Júlio.

Nesse sentido, o coordenador reforça que a própria roda de samba já é um trabalho social.

Há duas décadas ocupando o bairro, o Pagode da 27 criou vínculos, fortaleceu pertencimentos e abriu caminhos para outras ações culturais e educativas que hoje acontecem na Casa 27.

Mais que músicos, a Orquestra de Cavaco e Banjo da Casa 27 vem formando continuidade. Além de ensaios, rodas de samba e instrumentos construídos pelas próprias mãos, adolescentes passam a ocupar um lugar histórico na comunidade que os cerca: o de manter viva a memória do samba.

Edição: Thiago Borges

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