Sem licença-maternidade, mães periféricas voltam ao trabalho ainda no puerpério

Sem licença-maternidade, mães periféricas voltam ao trabalho ainda no puerpério

Creches de São Paulo têm mais de 20 mil bebês até 4 meses de idade, o que evidencia pressão por sobrevivência sobre mulheres. Burocracias também dificultam os direitos de quem assume a guarda legal de crianças. Confira na segunda reportagem da série 'Trampo é Trampo', neste mês dos trabalhadores.  

Compartilhe!

Tempo de leitura: 9 minutos

Ouça esse post

Por Adriana Novaes. Edição: Thiago Borges

Na periferia da Zona Sul de São Paulo, não é raro encontrar bebês com pouco mais de um mês já frequentando creches ou ficando com vizinhas, avós ou conhecidas para que as mães consigam trabalhar.

Segundo a Secretaria Municipal de Educação (SME) da capital paulista, a rede municipal tem 20.258 bebês entre 0 e 4 meses matriculados em centros de educação infantil (CEIs) ou unidades conveniadas. Até os 3 meses, são 12.359 bebês.

Para muitas mulheres, ficar em casa não é uma opção. O colo disputa espaço com a necessidade de pagar as contas.

Isso porque trabalhadoras informais, autônomas e microempreendedoras não conseguem exercer um direito básico: a licença-maternidade de 120 dias, garantida a mulheres que gestam ou adotam uma criança. Há, ainda, um empecilho para quem tem a guarda, mas não pelo processo regular de adoção.

Este é o tema da segunda reportagem desta edição da série Trampo é Trampo, que em 2026 aborda novos e velhos desafios impostos a quem trabalha por conta própria.

Vitória e Leonel (foto arquivo pessoal)

Vitória e Leonel (foto arquivo pessoal)

Pressão pra dar conta

Moradora do Capão Redondo, Vitória Viana, de 26 anos, voltou à rotina de trabalho quando seu filho Leonel tinha poucas semanas de vida.

“Me vi com um bebê de dois meses no colo e nenhuma fonte de renda. Era a única opção possível”, explica.

Vitória faz parte do Jovem Monitor Cultural (PJMC), programa da Secretaria de Cultura da cidade de São Paulo que paga uma bolsa para jovens, que recebem capacitação e passam a atuar em equipamentos culturais.

Como teoricamente não é um trabalho, Vitória foi convocada a voltar ao programa ainda no puerpério, lidando com o cansaço físico e emocional.

O filho Leonel acompanhava a mãe em longas jornadas pela cidade.

“Ele ficava comigo no sling por horas, no ônibus, no metrô… e me olhava como se estivesse tudo bem”, diz Vitória, que aos 2 meses e meio do bebê resolveu matriculá-lo na creche.

“Assim que saí da creche, comecei a chorar. (…) Era como se uma parte do meu corpo estivesse faltando”, lembra Vitória. Hoje, Leonel tem 5 meses e continua frequentando a creche

“Eu não queria me desprender do meu pinguinho de gente, mas sentia o mundo me pressionando para dar conta.”

Juliana Santos (arquivo pessoal)

Juliana Santos (arquivo pessoal)

Impacto que não aparece no holerite

A obstetriz Juliana Santos explica que o retorno antecipado da mãe ao trabalho interfere diretamente na construção do vínculo e na amamentação – dois pilares fundamentais nos primeiros meses de vida.

“O bebê precisa de contato, de presença, de um adulto disponível. Isso influencia no desenvolvimento emocional e neurológico”, observa Juliana, que é consultora internacional em aleitamento humano e atende famílias periféricas na Casa Ângela, localizada no Jardim São Luís (Zona Sul).

O laço não desaparece, mas fica mais difícil com a separação precoce.

“O vínculo se fortalece na presença, na resposta ao choro, no contato. E isso ainda pode acontecer nos momentos em que estão juntos”, ressalta Juliana.

Vitória e Leonel (foto arquivo pessoal)

Vitória e Leonel (foto arquivo pessoal)

O leite secou

O tempo vira um recurso tão limitado quanto o dinheiro – e deixa marcas profundas.

Vitória sentiu as mudanças no próprio corpo e na relação com o filho.

“Devido a tanto estresse, meu leite começou a secar. Eu só precisava de mais tempo.”

Sem estrutura adequada, ela tentou manter a amamentação como podia: mesmo constrangida, coletava leite no trabalho e armazenava para dar ao filho. Ainda assim, a produção diminuiu e a rotina mudou completamente.

“Minha casa foi tomada por mamadeiras, fórmulas, gelo, sacos… coisas que eu não precisaria se pudesse estar com ele”, diz Vitória.

A lei distante da realidade

E quando você é uma mãe adotiva em relacionamento homoafetivo?

É o caso da empreendedora Maria Beatriz da Silva, de 31 anos.

Casada há sete anos com Kamilla Torres, ela e a esposa já desejavam a maternidade. Mas a chegada da filha Ayla, em 2024, aconteceu de forma inesperada: a criança chegou à família em uma situação delicada. Como a genitora e o genitor não podiam cuidar da bebê, o casal conseguiu a guarda unilateral pela Justiça.

Em um processo de adoção, que estabelece oficialmente o vínculo de filiação, as pessoas adotantes têm os mesmos direitos obtidos em relação a um pai ou uma mãe biológica. O direito inclui mães não gestantes em relações homoafetivas.

Porém, no caso da guarda legal, ela apenas assegura cuidados e responsabilidades sobre a criança. Essa diferença foi determinante no impasse envolvendo a licença-maternidade enfrentada por Maria Beatriz.

Na época, ela trabalhava como analista em uma empresa, que informou inicialmente que teria esse direito à licença-maternidade.

“Eu estava com uma recém-nascida em casa. A maternidade já estava acontecendo”, conta.

Maria Beatriz chegou a ser afastada do trabalho, mas um mês depois descobriu que a orientação estava errada quando tentou solicitar o benefício no INSS e teve o pedido negado.

Foram quatro meses sem receber salário ou benefício.

Maria Beatriz seguiu trabalhando de casa, dividida entre reuniões e uma bebê que demandava presença integral.

“Eu vivia dois mundos ao mesmo tempo: reuniões, metas… e uma recém-nascida”, destaca.

Sem ter com quem deixar a filha e já acompanhada por um advogado, ela entrou com pedido de rescisão indireta na Justiça.

Hoje, Maria Beatriz empreende uma papelaria on-line com a irmã que funciona dentro de casa. A nova rotina permite que ela concilie o trabalho com as demandas da casa e os cuidados de Ayla – que, por opção do casal, ainda não frequenta a creche.

“Foi tudo muito intenso, sem preparação. Eu só pensava que ela precisava estar segura”, conta.

O reconhecimento institucional, no entanto, não acompanhou essa realidade.

Cuidar ou sobreviver

No caso de Maria Beatriz, foi a família que evitou que tudo desmoronasse.

“Minha mãe e minha irmã se revezavam para me ajudar. Sem isso, eu não teria conseguido”, diz ela.

Já Vitória precisou construir apoio possível dentro das limitações:

“Foi meu companheiro, a irmã dele e uma amiga que cuidou do meu filho por um tempo. Sem isso, eu não teria conseguido trabalhar.”

As organizações de saúde reforçam a importância do vínculo e da amamentação exclusiva nos primeiros seis meses de vida, mas a ausência de políticas públicas voltadas para trabalhadoras informais e outras pessoas cuidadoras evidencia um sistema que não acompanha a vida real.

“Não conheço políticas públicas que apoiem mulheres em trabalho informal nesse período”, afirma Juliana.

A primeira infância é prioridade, mas na prática depende da conta bancária, do tipo de contrato e da rede de apoio disponível.

Para Vitória, o problema não está na decisão individual, mas na estrutura:

“Querem a gente totalmente entregue ao trabalho, mas a gente também é mãe. E isso não é reconhecido (…) Do jeito que está, a gente precisa escolher entre cuidar e sobreviver.”

,
{{ reviewsTotal }}{{ options.labels.singularReviewCountLabel }}
{{ reviewsTotal }}{{ options.labels.pluralReviewCountLabel }}
{{ options.labels.newReviewButton }}
{{ userData.canReview.message }}

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

APOIE!
Acessar o conteúdo