Em luta contra incinerador de lixo, Perus volta ao centro de debate sobre racismo ambiental em São Paulo

Em luta contra incinerador de lixo, Perus volta ao centro de debate sobre racismo ambiental em São Paulo

Projeto de incinerador reabre memórias de impactos ambientais e levanta críticas sobre participação popular e riscos à saúde. Prefeitura também prevê outros equipamentos para queima de resíduos em Santo Amaro e São Mateus

Compartilhe!

Tempo de leitura: 16 minutos

“Passei a infância sentindo o cheiro do lixão”, lembra a jornalista Isabel Almeida, de 30 anos.

Moradora da região de Perus, na Zona Noroeste de São Paulo, ela conviveu com o odor do Aterro Bandeirantes até 2007, quando o lixão foi desativado após funcionar por 28 anos.

Porém, uma fábrica de farinha de carne de ossos da João Gava e Filhos, uma empresa de reciclagem dos subprodutos bovinos, passou a operar na região. O mau cheiro continuou.

Até a rotina escolar da Escola Estadual Brigadeiro Gavião Peixoto, onde Isabel estudou de 2011 a 2013, era afetada com frequência.

“No ensino médio, às vezes encerravam as aulas porque ninguém aguentava. Quando fui estudar lá, muita gente dizia que era ‘normal’”, conta.

A lembrança atravessa diferentes momentos da vida e criou uma “memória olfativa” que ajuda a explicar a reação da população a projetos de tratamento de resíduos na região.

Agora, a concessionária de limpeza urbana Loga quer instalar um incinerador de lixo em Perus em parceria com a Prefeitura de São Paulo. Teoricamente, o equipamento queima resíduos sólidos para reduzir o volume de lixo e, em certas ocasiões, gerar energia.

O local escolhido para a instalação fica a dois quilômetros da Terra Indígena do Jaraguá, na frente do Parque Anhanguera (segundo maior parque municipal urbano de São Paulo), e próximo a uma comunidade periférica. Confira as distâncias no mapa:

“Perus é um bairro que há décadas recebe esse tipo de projeto. A população já se mobilizou outras vezes para impedir iniciativas semelhantes”, afirma Thaís Santos, química de formação, doutoranda em bioenergia e integrante da da Comunidade Cultural Quilombaque.

Thaís destaca que o que acontece com Perus é racismo ambiental, onde tentam destinar sempre o que mais impacta social ambientalmente para as regiões periféricas, de maioria negra e com menos acesso a políticas públicas.

A principal reivindicação, segundo ela, é que o projeto seja revisto. “A proposta original era de recuperação ambiental da área. É isso que a comunidade defende, não a instalação de um incinerador”, diz.

O histórico mostra que essa disputa  não é nova. Perus volta ao centro do debate ambiental na cidade, que pode ter outras chaminés despejando fumaça com resíduos no ar.

De um lado, está a comunidade afetada, que cobra participação e transparência. Do outro, a administração do prefeito Ricardo Nunes (MDB) e das concessionárias, com justificativas para a medida.

As narrativas sobre o lixo

A Loga, com o apoio da Prefeitura de São Paulo, vem trabalhando para vender a imagem de uma empresa favorável à região.

À reportagem da Periferia em Movimento, uma moradora (que não será identificada por segurança) relata que representantes da empresa visitaram a ETEC da região, onde sua filha estuda, para apresentar a proposta sem aviso prévio às famílias nem espaço para questionamento.

Panfleto distribuído em escolas pela Loga aponta 'benefícios' de incinerador (foto: arquivo pessoal)

Panfleto distribuído em escolas pela Loga aponta ‘benefícios’ de incinerador (foto: arquivo pessoal)

“Ela falou: ‘Mãe, teve uma palestra com um homem e uma mulher na escola e passaram o vídeo mostrando como era o projeto (do incinerador)”, afirma.

A filha ainda disse que “era um vídeo bem positivo em relação à empresa.”

Segundo a mãe, a apresentação incentiva estudantes a convencerem parentes com mais de 18 anos a trabalhar na empresa, informando que abriria vagas na região com o projeto.

A denúncia da moradora se junta a outras que tiveram ampla repercussão: no dia 31 de março, pessoas teriam recebido R$ 170 para vir de outras regiões da cidade para fazer ‘figuração’ em uma audiência pública sobre a proposta de instalação do incinerador.

A audiência pública faz parte do processo de decisão em processos que podem afetar a população, apesar do caráter consultivo.

Mas, com a plateia do auditório do CEU Perus cheia de ‘visitantes’, quem mora no bairro mal conseguiu participar.

“Os moradores não conseguiram entrar”, afirma Cleiton Fofão, da Quilombaque. “Se você falar ‘quem mora em Perus aqui, levanta a mão’, você vai ver que não vai ter nem a metade da plenária”, disse ele, no dia da audiência, para quem essa participação foi ‘comprada’.

Segundo Thaís, o espaço foi marcado por interrupções e hostilidade contra quem se posicionava contra o projeto, além de não escutar a população da terra indígena da região.

“Fazer uma audiência pública sem antes consultar a TI Jaraguá já é ilegal”, afirma Thaís.

A reportagem esteve no local e conversou com participantes que se posicionavam a favor do projeto. Algumas pessoas disseram não saber o que estava sendo discutido na audiência e preferiram não se identificar.

Um deles, em meio à audiência, lia mensagens no celular enquanto gritava: “Se não queimar, vai jogar lixo onde?”

O que se sabe sobre o projeto

Thaís Santos nota que o projeto chegou ao território em estágio avançado, como alteração de um plano anterior apresentado no Conselho Municipal do Meio Ambiente. A partir daí, movimentos locais buscaram informações e passaram a se reunir para entender o impacto.

O incinerador compõe o projeto chamado Ecoparque Bandeirantes, complexo planejado para concentrar diferentes formas de tratamento de resíduos com capacidade de geração de energia – são as Unidades de Recuperação Energética (UREs).

Entre elas está a biossecagem, que reduz a umidade do lixo para diminuir seu volume; a biodigestão, que utiliza matéria orgânica para gerar biogás e energia; e a compostagem, que transforma resíduos orgânicos em adubo.

De acordo com a Prefeitura, outras duas unidades estão previstas para Santo Amaro (na Zona Sul), e em São Mateus (Zona Leste).

A execução ficará a cargo das concessionárias Loga e Ecourbis, sob supervisão da SP Regula, responsável pela gestão do sistema de limpeza urbana da cidade.

Em 2024, as empresas tiveram a concessão renovada sem licitação, como apontou matéria da Periferia em Movimento.

LEIA MAIS: Contrato do lixo: Prefeitura de SP exclui 95% de pessoas recicladoras, sufoca cooperativas e compromete meio ambiente

A renovação ocorreu mesmo com apontamentos de órgãos de controle sobre o não cumprimento de metas em contratos anteriores, como a baixa taxa de reciclagem.

Sem participação do público no debate, o contrato sofreu críticas que apontam que o modelo pode reforçar a lógica de destinação do lixo como negócio, em vez de priorizar a redução e a reciclagem.

Um aterro sanitário na região noroeste de São Paulo era uma das exigências previstas no contrato com a Loga assinado em 2004, mas não foi implantado antes da renovação. Uma auditoria do Tribunal de Contas do Município (TCM) também apontou problemas na execução do serviço, citando baixa qualidade nas atividades prestadas.

Cooperpac, cooperativa de reciclagem na periferia da zona Sul de São Paulo (Foto: Vitori Jumapili/Periferia em Movimento)

Cooperpac, cooperativa de reciclagem na periferia da zona Sul de São Paulo (Foto: Vitori Jumapili/Periferia em Movimento)

Estudos divergem sobre o uso do local

Segundo a Prefeitura, o município produz cerca de 12 mil toneladas de resíduos por dia. Menos de 3% do total é reciclado.

Para dar destino a esse volume, a gestão afirma investir em ações que incluem quatro ecoparques, ampliação da coleta seletiva e a implantação das UREs, que transformariam o lixo em energia.

O estudo de impacto ambiental da URE Bandeirantes, de dezembro de 2024 para a Loga, aponta o tratamento térmico por combustão como a melhor entre as opções disponíveis.

Segundo o documento, o local foi escolhido porque teria baixa sensibilidade ambiental e acesso direto pela Rodovia dos Bandeirantes, evitando trânsito de caminhões pelos bairros.

Guarda Civil controla fluxo de participantes em audiência pública sobre incinerador (foto Guilherme Silva)

Guarda Civil controla fluxo de participantes em audiência pública sobre incinerador (foto Guilherme Silva)

Outro estudo, produzido pela Aliança Resíduo Zero Brasil e pelo Instituto Pólis, contesta essa avaliação.

A análise aponta altos custos operacionais, riscos à saúde pública e emissão de poluentes tóxicos. Também indica que a queima de resíduos compete com a reciclagem e a compostagem.

A escolha do local também é apontada como fator de risco à saúde. Segundo o estudo, as tecnologias atuais não conseguem reter totalmente os poluentes gerados na queima, permitindo que parte dessas substâncias se disperse e se acumule no entorno – com impactos como liberação de partículas ultrafinas, contaminação da cadeia alimentar e acúmulo de cinzas tóxicas.

“O que está em jogo é a saúde de cerca de 200 mil pessoas que moram no entorno”, afirma Thaís, que critica a lógica do projeto: “É oferecer empregos em troca de um impacto permanente na saúde da população”.

O que diz o outro lado

Em nota enviada à reportagem, a SP Regula afirma que as UREs não devem ser ‘confundidas’ com incineradores antigos e diz que utilizam ‘tecnologia de controle de emissões sem risco à saúde’.

Clique aqui e leia a nota da SP Regula na íntegra

A SP Regula informa que as Unidades de Recuperação Energética (UREs), previstas no contrato de concessão de resíduos sólidos do município, não devem ser confundidas com os antigos incineradores das décadas de 1970 e 1980.

Trata-se de instalações modernas, com tecnologia avançada de controle de emissões, amplamente utilizadas em diversos países, inclusive em áreas residenciais, sem oferecer riscos à saúde da população.

A URE mencionada integrará o Ecoparque Bandeirantes e tem como objetivo reduzir o volume de resíduos destinados a aterros, gerar energia, criar empregos e ampliar a proteção ambiental. A unidade terá capacidade para receber até mil toneladas de resíduos por dia, possibilitando a recuperação de cerca de 64% do material e a destinação de aproximadamente 36% a aterro sanitário externo.

A prorrogação do contrato com a empresa LOGA para a coleta seletiva e de resíduos domiciliares está prevista nas cláusulas do termo de concessão e tem o objetivo de assegurar a continuidade dos serviços e de projetos climáticos.

Por fim, a SP Regula reforça a importância da participação popular ao longo de todo o processo e ressalta que, no último dia 31, foi realizada audiência pública no âmbito do CONSEMA, com o objetivo de apresentar o projeto à população, esclarecer dúvidas e colher contribuições para o processo de licenciamento ambiental conduzido pela CETESB.

Também em nota, a Loga diz que o projeto segue as etapas do licenciamento ambiental e que houve ‘transparência’ no processo. A empresa cita ações de comunicação na região, como distribuição de materiais informativos e atividades em escolas, além da realização de audiência pública com participação da comunidade.

Clique aqui e leia a nota da Loga na íntegra

A Loga, concessionária responsável pela coleta e gestão de resíduos sólidos e de saúde na Região Noroeste da cidade de São Paulo, informa que o projeto do Ecoparque Bandeirantes segue rigorosamente todas as etapas previstas no processo de licenciamento ambiental, com cumprimento das normas vigentes e transparência nas ações realizadas.

A empresa destaca que promoveu iniciativas prévias de comunicação e educação ambiental na região, com o objetivo de informar e estimular a participação da população na audiência pública realizada em 31 de março.

A presença do público ocorreu de maneira espontânea, respeitando a ordem de chegada e o limite de capacidade do local,  em conformidade com as normas de segurança e rito do licenciamento ambiental, contando com 592 pessoas inscritas, que ocuparam o auditório e recepção do mesmo.

A Loga esclarece ainda que os registros e a organização da audiência pública seguem os protocolos definidos pelos órgãos responsáveis pelo processo, promovendo a participação de acordo com as diretrizes legais.

Em relação aos aspectos ambientais, o Ecoparque Bandeirantes contará com tecnologias modernas de controle de emissões, com sistemas de controle de poluição do ar em múltiplos estágios, incluindo lavadores de gases, filtros de mangas e monitoramento contínuo das emissões, com controle automático e atendimento rigoroso às normas dos órgãos ambientais.

Paralelamente, a concessionária realizou ações de comunicação e educação ambiental em Perus, com atuação porta a porta em todas as vias, distribuição de cerca de 45 mil folhetos informativos sobre o Ecoparque e 10 mil convites para a audiência pública. As iniciativas também incluem atividades em escolas da região, com palestras, visitas monitoradas às unidades operacionais e ações com o Ecomóvel, além de projetos educativos como a Orquestra de Sucata.

Entre janeiro de 2025 e março de 2026, 11 escolas e CCAs (Centros para Crianças e Adolescentes) de Perus participaram do projeto Ecoeducação Loga, com 1.974 pessoas envolvidas. Além disso, em 2025, sete escolas participaram de projetos socioambientais viabilizados por meio de incentivos fiscais, impactando cerca de 3.700 pessoas.

A empresa promoveu ainda reuniões com lideranças locais e agentes de saúde, além de orientações sobre o descarte correto de resíduos. A divulgação também ocorreu em jornal de bairro, veículos de maior circulação, rádios e na televisão, com espaço para apresentação do projeto e participação de responsável técnico.

Vale destacar que o projeto também trará ganhos estruturais para a gestão de resíduos na cidade, com soluções tecnológicas voltadas à máxima recuperação e aproveitamento de resíduos secos e orgânicos, além da redução dos volumes destinados à disposição final e da geração de energia.

Além disso, o empreendimento será um polo de educação ambiental, com auditório, viveiro de mudas nativas, laboratório voltado ao monitoramento tecnológico e espaços administrativos dedicados à gestão e inovação, prevendo a geração de cerca de 600 vagas de empregos.

A Periferia em Movimento também procurou a escola que recebeu as atividades da empresa para saber se houve comunicação prévia às famílias ou responsáveis sobre o conteúdo apresentado, mas até a publicação desta reportagem não houve retorno.

,
{{ reviewsTotal }}{{ options.labels.singularReviewCountLabel }}
{{ reviewsTotal }}{{ options.labels.pluralReviewCountLabel }}
{{ options.labels.newReviewButton }}
{{ userData.canReview.message }}

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

APOIE!
Acessar o conteúdo