A vida de Carolina Maria de Jesus em Parelheiros: Escritora plantava, benzia e era liderança na periferia de SP

A vida de Carolina Maria de Jesus em Parelheiros: Escritora plantava, benzia e era liderança na periferia de SP

Iniciativa ecoturística refaz o cotidiano da autora no território que escolheu passar os últimos anos de vida

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Tempo de leitura: 6 minutos

Por Guilherme Silva (texto) e Carolina Rosa (fotos). Edição: Thiago Borges

A trajetória da escritora Carolina Maria de Jesus costuma ser lembrada a partir de “Quarto de Despejo”, livro que projetou editorialmente a autora mineira no Brasil e no exterior ao retratar sua vida na extinta Favela do Canindé, centro de São Paulo.

A então catadora de papel com três crianças para cuidar passou a publicar outros trabalhos e gravou discos.

Anos depois, em 1969, buscando uma vida mais tranquila, Carolina mudou-se para um sítio em Parelheiros, no Extremo Sul de São Paulo. E na região, viveu seus últimos anos de vida, até o falecimento em 1977.

É esse período menos conhecido que orienta  ‘Nos caminhos da escritora Carolina Maria de Jesus’.

A proposta do tour é ampliar a imagem da autora para além do que ficou mais conhecido e mostrar a vida que ela construiu depois, ainda ligada à periferia e à comunidade.

O roteiro de afroturismo e turismo de base comunitária é realizado na região pelo Rancho Ateliê, empreendimento local, e o Polo de Ecoturismo de São Paulo.

“O Rancho Ateliê é um chão que fala de gente conectada à natureza, trazendo uma cosmovisão dos povos tradicionais, dos nossos ancestrais do Extremo Sul de São Paulo, da memória e narrativas de contracolônia, como chamava Nego Bispo. São narrativas de pessoas que não foram colonizadas”, explica Lucimeire Juventino, historiadora das africanidades do Brasil, guia de turismo e matrigestora do Rancho Ateliê.

LEIA MAIS: Turismo de base comunitária em Parelheiros: Ancestralidade, cultura e sustentabilidade

O percurso proposto apresenta uma Carolina matriarca, agricultora, benzedeira e liderança local. Também convida participantes para se reconhecerem como “Carolinas”, em uma tentativa de manter esse legado em circulação.

“É um momento muito especial na minha vida. Conhecer Carolina e ‘Carolinas’ incríveis, continuando seu legado de conhecimento e amor”, afirma Renata Moura, uma das visitantes.

Ao longo da jornada, visitantes se veem diante de uma Carolina menos conhecida: articuladora local, com trânsito entre a população, que mediava conversas e ajudava a resolver conflitos, indicando uma atuação com peso no território.

Ponto de partida

A jornada conta com amplo apoio bibliográfico e histórico por parte das guias Lucimeire e Shayene Rodrigues, do Rancho Ateliê.

Entre as referências, estão os livros ‘Condenados da Terra’, de Frantz Fanon, ‘Racismo Linguístico’, de Gabriel Nascimento, e ‘Libertas entre sobrados’, de Lorena Féres da Silva Telles, e a série de reportagens ‘Matriarcas’, da Periferia em Movimento.

O ponto de partida começa com uma visita externa pelo sítio que Carolina comprou, viveu e hoje leva seu nome.

No Sítio Escritora Carolina Maria de Jesus, a autora plantava milho, feijão e banana da terra, administrava o espaço e mantinha uma rotina de trabalho com uma venda e um bar, que funcionavam como ponto de encontro da comunidade e abria espaço para atividades culturais, como saraus e rodas de saberes.

O trajeto segue até o centro histórico de Parelheiros, onde fica a escola estadual Dona Prisciliana Duarte de Almeida, frequentada por sua filha Vera Eunice.

O caminho de 50 minutos a pé (feito de van por visitantes) entre o sítio e a escola, ainda hoje de terra, ajuda a dimensionar a rotina e reforça a dedicação de Carolina em garantir a educação da filha.

O tour também fortalece pontos do Polo Ecoturístico de Parelheiros, como a barraca da Cris do Acarajé, o Restaurante da Malene e finaliza com um almoço no sítio Jussara.

Lugar de memória

A visita inclui ainda a Igreja de Santa Cruz, construída em 1898 e tombada pelo município; e a Praça Júlio César de Campos, em frente, onde foi instalada uma estátua em homenagem à escritora.

Segundo a filha Vera Eunice de Jesus, o local do monumento foi escolhido por ser um dos mais queridos por Carolina na região.

Enquanto aguardava a filha na escola, a escritora circulava pela região, passando pela Farmácia Queiroz, ainda existente na região, ou indo ao antigo cinema local.

“A minha mãe, quando tinha dinheiro, comprava remédio; quando não tinha, o Queiroz falava: ‘Pode levar’. Aqui antigamente tinha cinema mudo, mas a gente vinha ao cinema mudo e, na época da Semana Santa, passavam-se muitos filmes de Jesus Cristo”, afirmou Vera Eunice, em matéria da Periferia em Movimento.

A história de Carolina se cruza com a do Extremo Sul de São Paulo, que é marcado por origem periférica e pela presença de populações negras e indígenas. O passeio parte desse contexto para construir a narrativa a partir do território, por meio da história de construção e expansão da região de Parelheiros.

O roteiro é organizado como turismo de base comunitária, com participação de iniciativas e de quem mora no local. Informações sobre datas e inscrição são divulgadas pelo Rancho Ateliê por formulário ou pelo Instagram.

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