Por Guilherme Silva (texto) e Carolina Rosa (fotos). Edição: Thiago Borges
A trajetória da escritora Carolina Maria de Jesus costuma ser lembrada a partir de “Quarto de Despejo”, livro que projetou editorialmente a autora mineira no Brasil e no exterior ao retratar sua vida na extinta Favela do Canindé, centro de São Paulo.
A então catadora de papel com três crianças para cuidar passou a publicar outros trabalhos e gravou discos.
Anos depois, em 1969, buscando uma vida mais tranquila, Carolina mudou-se para um sítio em Parelheiros, no Extremo Sul de São Paulo. E na região, viveu seus últimos anos de vida, até o falecimento em 1977.
É esse período menos conhecido que orienta ‘Nos caminhos da escritora Carolina Maria de Jesus’.
- Lucimeire Juventino, do Rancho Ateliê e uma das guias do roteiro (Foto: Carolina Rosa)
- Grupo se reúne em letreiro na entrada do distrito de Parelheiros (Foto: Carolina Rosa)
- Visitante no ponto de informações do Polo Ecoturístico de Parelheiros Grupo se reúne em letreiro na entrada do distrito de Parelheiros (Foto: Carolina Rosa)
A proposta do tour é ampliar a imagem da autora para além do que ficou mais conhecido e mostrar a vida que ela construiu depois, ainda ligada à periferia e à comunidade.
O roteiro de afroturismo e turismo de base comunitária é realizado na região pelo Rancho Ateliê, empreendimento local, e o Polo de Ecoturismo de São Paulo.
“O Rancho Ateliê é um chão que fala de gente conectada à natureza, trazendo uma cosmovisão dos povos tradicionais, dos nossos ancestrais do Extremo Sul de São Paulo, da memória e narrativas de contracolônia, como chamava Nego Bispo. São narrativas de pessoas que não foram colonizadas”, explica Lucimeire Juventino, historiadora das africanidades do Brasil, guia de turismo e matrigestora do Rancho Ateliê.
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O percurso proposto apresenta uma Carolina matriarca, agricultora, benzedeira e liderança local. Também convida participantes para se reconhecerem como “Carolinas”, em uma tentativa de manter esse legado em circulação.
“É um momento muito especial na minha vida. Conhecer Carolina e ‘Carolinas’ incríveis, continuando seu legado de conhecimento e amor”, afirma Renata Moura, uma das visitantes.
Ao longo da jornada, visitantes se veem diante de uma Carolina menos conhecida: articuladora local, com trânsito entre a população, que mediava conversas e ajudava a resolver conflitos, indicando uma atuação com peso no território.
- Shayene Rodrigues, uma das guias do roteiro (Foto: Carolina Rosa)
- Grupo reunido em frente a casa em que Carolina viveu (foto: Carolina Rosa)
Ponto de partida
A jornada conta com amplo apoio bibliográfico e histórico por parte das guias Lucimeire e Shayene Rodrigues, do Rancho Ateliê.
Entre as referências, estão os livros ‘Condenados da Terra’, de Frantz Fanon, ‘Racismo Linguístico’, de Gabriel Nascimento, e ‘Libertas entre sobrados’, de Lorena Féres da Silva Telles, e a série de reportagens ‘Matriarcas’, da Periferia em Movimento.
O ponto de partida começa com uma visita externa pelo sítio que Carolina comprou, viveu e hoje leva seu nome.
No Sítio Escritora Carolina Maria de Jesus, a autora plantava milho, feijão e banana da terra, administrava o espaço e mantinha uma rotina de trabalho com uma venda e um bar, que funcionavam como ponto de encontro da comunidade e abria espaço para atividades culturais, como saraus e rodas de saberes.
O trajeto segue até o centro histórico de Parelheiros, onde fica a escola estadual Dona Prisciliana Duarte de Almeida, frequentada por sua filha Vera Eunice.
O caminho de 50 minutos a pé (feito de van por visitantes) entre o sítio e a escola, ainda hoje de terra, ajuda a dimensionar a rotina e reforça a dedicação de Carolina em garantir a educação da filha.
O tour também fortalece pontos do Polo Ecoturístico de Parelheiros, como a barraca da Cris do Acarajé, o Restaurante da Malene e finaliza com um almoço no sítio Jussara.
Lugar de memória
A visita inclui ainda a Igreja de Santa Cruz, construída em 1898 e tombada pelo município; e a Praça Júlio César de Campos, em frente, onde foi instalada uma estátua em homenagem à escritora.
Segundo a filha Vera Eunice de Jesus, o local do monumento foi escolhido por ser um dos mais queridos por Carolina na região.
Enquanto aguardava a filha na escola, a escritora circulava pela região, passando pela Farmácia Queiroz, ainda existente na região, ou indo ao antigo cinema local.
“A minha mãe, quando tinha dinheiro, comprava remédio; quando não tinha, o Queiroz falava: ‘Pode levar’. Aqui antigamente tinha cinema mudo, mas a gente vinha ao cinema mudo e, na época da Semana Santa, passavam-se muitos filmes de Jesus Cristo”, afirmou Vera Eunice, em matéria da Periferia em Movimento.
- Estátua de Carolina Maria de Jesus no centro de Parelheiros (Foto: Carolina Rosa)
- Igreja de Santa Cruz, tombada como patrimônio histórico de São Paulo (Foto: Carolina Rosa)
- Empório no Restaurante da Marlene, empreendimento local visitado durante tour (Foto: Carolina Rosa)
A história de Carolina se cruza com a do Extremo Sul de São Paulo, que é marcado por origem periférica e pela presença de populações negras e indígenas. O passeio parte desse contexto para construir a narrativa a partir do território, por meio da história de construção e expansão da região de Parelheiros.
O roteiro é organizado como turismo de base comunitária, com participação de iniciativas e de quem mora no local. Informações sobre datas e inscrição são divulgadas pelo Rancho Ateliê por formulário ou pelo Instagram.









